Fechamento de banco em Rubelita deixa clientes indignados e provoca filas em Coronel Murta

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Anglo Queimadas

Indignação e revolta tomaram conta dos moradores de Rubelita, no Norte de Minas, depois que o Banco Itaú decidiu fechar a única agência da cidade. Os clientes acreditam que a decisão foi motivada por ataques de criminosos que explodiram a porta de entrada do estabelecimento e os caixas eletrônicos, durante um assalto ocorrido na madrugada do dia 19 de julho.

Após a ação criminosa, a agência, que funcionou na cidade por mais de 15 anos, não foi mais aberta. Não foi o primeiro ataque. De acordo com as informações da Polícia Militar (PM), em meados de março, bandidos danificaram a parte externa do banco, mas não levaram nenhuma quantia.

Mudança de clientes congestionou atendimento em Coronel Murta (Foto: Gazeta de Araçuaí)

Indignação

Com o encerramento das atividades em Rubelita, os clientes são obrigados a viajar 45 km para chegar até à agência mais próxima, na cidade vizinha de Coronel Murta, que possui apenas dois caixas presenciais e três caixas eletrônicos, sendo um, apenas para pagamento de contas e retirada de folhas de cheque.

“O atendimento que era ruim, agora ficou pior. Esperamos que o prefeito de Rubelita, tome uma providência”, diz Quincas Filho, 37 anos, da Comunidade de São José do Meio.

“A cidade não pode ficar sem uma agência bancária. O Banco não pensou nos clientes. Não fui informada destas mudanças”, disse indignada a aposentada Maria Rodrigues, de 66 anos, e cliente do Itaú há mais de 10.

Clientes reclamam das filas em Coronel Murta (Foto: Gazeta de Araçuaí)

Na última segunda-feira, 8 de agosto, dia de pagamento de funcionários públicos e aposentados, uma fila imensa se formou em frente à agência do Banco em Coronel Murta, e por pouco não alcançou o final do quarteirão.

Muitos saíram de casa ainda de madrugada, como as aposentadas Maria do Carmo Freitas Santos, de 62 anos, Stael Cândida Neves, de 55, e Maria Nilma dos Santos, de 66. Todas moradoras da zona rural de Rubelita. Cada uma gastou R$ 150 reais com as passagens de táxi.

“Saímos de casa às 5 da manhã. Estamos revoltadas com esta situação. R$ 150 reais de passagem, pesam no orçamento . O Banco não informou nada sobre o fechamento da agência. Alguém tem que tomar uma providência e acreditamos que a pessoa para fazer isso seja o prefeito”, disseram.

As aposentadas reclamavam do sol, do calor, e do tempo que são obrigadas a permanecerem na fila, do lado de fora da agência. Uma delas, Stael Cândida, mostra as pernas inchadas e um curativo recente provocado por problemas de varizes. “Tenho problemas de coluna e de osteoporose. Esta situação aqui é um desrespeito com todos”, afirmou a amiga, Maria do Carmo Freitas.

Clientes reclamam das filas em Coronel Murta (Foto: Gazeta de Araçuaí)

Problemas

Rubelita, localizada a 673 km da capital mineira, tem pouco mais de 7 mil habitantes. “A economia aqui é baseada na agricultura de subsistência, destruída este ano pela seca. Os poucos empregos, estão no comércio e serviço público, principalmente na prefeitura. Final de mês melhora, com pagamento dos aposentados e pensionistas. Com o fechamento da agência, o comércio caiu bastante. Quem vai receber em outras cidades, acaba fazendo por lá algum gasto, seja no restaurante, lojas, farmácias ou lanchonetes”, observou o dono de uma mercearia.

Agora, toda a movimentação bancária da população, está sendo feita em uma Casa Lotérica e na Agência dos Correios. Ambas não fazem pagamento do funcionalismo.

Ao se deslocarem para outras cidades, os clientes temem por assaltos na estrada, e reclamam dos gastos extras com as viagens.

A maioria segue de táxi porque a empresa Rio Doce de Transportes suspendeu o atendimento das linhas naquela região. Outra empresa de ônibus passa pela cidade, porém, em horários incompatíveis com o horário bancário. A passagem de táxi para Coronel Murta, custa R$ 30, ida e volta.

Clientes reclamam das filas em Coronel Murta (Foto: Gazeta de Araçuaí)

Na outra ponta, os taxistas também reclamam: “Estamos perdendo dinheiro. Se levamos um cliente, temos que esperar por ele até o atendimento. Com isso perdemos passageiros”, afirma o taxista João de Deus Maurício, 24 anos. Ele contou que costuma ir até duas vezes por semana à cidade de Coronel Murta.

“Corremos ainda o risco de sermos assaltados na estrada”, disse outro taxista.

Comércio de Rubelita foi afetado (Foto: Gazeta de Araçuaí)

Filas

A agência em Coronel Murta conta apenas com 4 funcionários, sendo dois, para atendimento nos caixas. Nos últimos dias apenas um está fazendo o atendimento, porque o colega está em licença médica.

“Deveriam distribuir senhas , assim, poderíamos fazer outras coisas. O melhor é os clientes começarem a transferir suas contas para outros bancos”, acredita a funcionária pública Janete Bittencourt.

A agência até que possui máquina para retirada de senha, mas, ela não funciona há pelo menos uma semana.

“Corremos o risco de ter o dia cortado, chegar atrasado no serviço e até perder o emprego. Trabalho a partir das 13 horas. Estou aqui desde as 8 da manhã e existem mais de 70 pessoas na minha frente. O banco só abre às 10. Não sei se vou conseguir sacar meu salário antes do horário de trabalho”, lamentava Tamires Barreto Jardim, 23 anos, funcionária pública em Coronel Murta.

Juliana Rodrigues Pereira, de 25 anos, está grávida de 8 meses. “Tenho prioridade e fui impedida de entrar para ficar sentada. Isto aqui está uma bagunça. Falta organização e mais respeito com os clientes”, desabafou a dona de casa.

Uma funcionária do banco informou que a partir da próxima segunda-feira, 15 de agosto, a agência contará com o reforço de mais um funcionário e dois caixas eletrônicos. Sobre a máquina para retirada de senha, ela disse apenas: ” está estragada”.

Burocracia

O prefeito de Rubelita, Inael de Almeida Murta, não foi localizado para falar sobre a questão. A secretária dele, que se identificou como Maria, informou que ele chegou a pedir para que a agência permanecesse na cidade até novembro.

“Aqui não foi a única agência a ser fechada. Acreditamos que foram cerca de 17, por conta dos ataques de assaltantes”, disse ela.

Sobre levar outras agências bancárias para a cidade, Maria acredita que as coisas não se resolvem como num passe de mágica. “Tudo é muito burocrático e demanda tempo”, disse ela.

O que diz o Banco Itaú

Em nota, a assessoria de Comunicação do Itaú se limitou a informar que por uma decisão comercial optou por fechar a agência em Rubelita (MG).

Todos os clientes, segundo a nota, serão migrados para a agência que fica em Coronel Murta. “Além disso, os clientes poderão contar com as diversas alternativas para proporcionar cada vez mais conveniência, como telefone, internet banking e aplicativos de acesso pelo celular que dão mais agilidade e diversidade nas operações”, destacou o Banco.

“E como fica o pessoal da zona rural, os idosos e outros que não tem acesso a nada disso?” questiona a aposentada Maria Rodrigues, de 66 anos.

A nota diz ainda que Banco disponibilizou um cartaz 30 dias antes com todos os detalhes do fechamento no local onde funcionava a agência em Rubelita.

A assessoria de Comunicação do Itaú, não esclareceu como pretende melhorar a vida dos clientes, principalmente no que se refere às filas.

Lei das filas

O Código de Defesa do Consumidor (CDC) e as leis sobre o tema (filas nos bancos), preveem uma série de sanções administrativas aos bancos que descumprem a legislação.

As penalidades podem variar de uma simples advertência à imposição de multas severas, ou até mesmo ao fechamento do estabelecimento.

Se o interesse for a indenização pelo dano moral, o consumidor deve recorrer ao Poder Judiciário.

“Certamente, todos os fatos que o consumidor relatar, envolvendo sua espera demasiada no estabelecimento bancário, devem ser comprovados nos autos de um processo, não esquecendo, sobretudo, do bilhete com a hora de entrada e saída. Comprovar o tempo é importantíssimo, mas é imprescindível comprovar, primeiramente, como a espera excessiva repercutiu em sua vida”. Orientam os advogados.

Lei Municipal

Muitos Municípios possuem a famosa “Lei dos 15 minutos”, que limita em 15 minutos o tempo máximo de espera dos clientes na fila para atendimento nos bancos e em 30 minutos nos dias de pico.

Assim como a maioria dos municípios do Vale do Jequitinhonha que contam com agências bancárias, Coronel Murta não possui lei específica neste sentido.

Para amenizar o tempo de espera, a agência local disponibilizou bancos para os clientes. Não há sistema de distribuição de senhas porque a máquina está quebrada e o número de caixas é insuficiente para o atendimento em dias de pico.

“É importante deixar claro que cada Município possui a sua lei e não existe uma Lei Federal neste sentido. Portanto, antes de qualquer coisa, é importante verificar qual a lei do seu Município que trata deste assunto”, explicam os advogados ouvidos pela reportagem.

Normalmente, essas leis também preveem que os bancos devem possuir um sistema de controle de senhas e horários, além de afixar avisos sobre o tempo estabelecido em locais de fácil visualização do público.

(Fonte: Gazeta de Araçuaí / Sérgio Vasconcelos)

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