{"id":94402,"date":"2016-08-12T11:38:21","date_gmt":"2016-08-12T14:38:21","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=94402"},"modified":"2016-08-12T11:38:21","modified_gmt":"2016-08-12T14:38:21","slug":"pesquisadora-revela-riqueza-musical-das-comunidades-quilombolas-do-vale-do-jequitinhonha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=94402","title":{"rendered":"Pesquisadora revela riqueza musical das comunidades quilombolas do Vale do Jequitinhonha"},"content":{"rendered":"<p>Evanize Sydow \u00e9 jornalista, mestre em hist\u00f3ria, bens culturais e projetos sociais e coordenadora do projeto Quilombos do Vale do Jequitinhonha. Trabalha com comunidades quilombolas h\u00e1 16 anos, em estados como Maranh\u00e3o, Pernambuco, Esp\u00edrito Santo e Minas Gerais. \u00c9 autora da biografia Dom Paulo Evaristo Arns, um Homem Amado e Perseguido (Editora Vozes) e atualmente finaliza a biografia de Frei Betto, a ser lan\u00e7ada pela editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. Atua como consultora de organismos internacionais em projetos com tem\u00e1ticas ligadas aos direitos humanos.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, Evanize comenta o projeto Quilombos do Vale do Jequitinhonha, iniciado em 2014 com o objetivo de pesquisar e registrar as manifesta\u00e7\u00f5es musicais e as dan\u00e7as nessas comunidades. Ela compartilha ainda os principais desafios para as pol\u00edticas p\u00fablicas, os di\u00e1logos com os diversos espa\u00e7os existentes e institucionalizados e as produ\u00e7\u00f5es culturais na realidade das comunidades quilombolas que est\u00e3o na microrregi\u00e3o de Capelinha (MG).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/musica_quilombos_jequi_1.jpg\" alt=\"\" \/><em>Evanize Sydow (Foto: Cleber Cardoso Nunes\/Reprodu\u00e7\u00e3o Ita\u00fa Cultural)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea poderia comentar como surgiu a ideia de fazer esta pesquisa? Como foi pensado o recorte de m\u00fasica e mem\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>A ideia surgiu em 2008, durante uma oficina de trabalho com comunidades quilombolas do Esp\u00edrito Santo. Foram alguns dos pr\u00f3prios quilombolas que mencionaram a import\u00e2ncia de nos preocuparmos em pesquisar a cultura tradicional e tudo o que estava se perdendo nessa hist\u00f3ria. Algumas pessoas ali lembraram que muitas dessas manifesta\u00e7\u00f5es estavam sendo esquecidas pelos mais jovens e que era importante fazer alguma coisa por isso. Naquela oportunidade, as comunidades mostraram v\u00e1rias dan\u00e7as e cantos e nos deixaram com a certeza de que essa mem\u00f3ria tinha de ser preservada.<\/p>\n<p>O foco na m\u00fasica se deve ao fator agregador e identit\u00e1rio que ela traz \u00e0s comunidades quilombolas, da\u00ed a necessidade da preserva\u00e7\u00e3o de suas tradi\u00e7\u00f5es musicais e de dan\u00e7a. A pesquisa, no entanto, tamb\u00e9m traz informa\u00e7\u00f5es sobre as comunidades desse universo que deixaram a tradi\u00e7\u00e3o para tr\u00e1s e n\u00e3o conseguem mais preservar sua ancestralidade, tampouco transmiti-la para seus descendentes.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, tentamos fazer um primeiro mapeamento no Maranh\u00e3o, que foi apoiado pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, mas cujo apoio n\u00e3o foi continuado. Pudemos fazer apenas uma viagem de campo muito curta para verificar quais seriam os munic\u00edpios a serem trabalhados. Continuamos tentando realizar esse trabalho, mas depois de mais de cinco anos buscando apoio, e sem perspectiva, pensamos em tentar faz\u00ea-lo em Minas Gerais.<\/p>\n<p>Minas \u00e9 um estado com muitas comunidades quilombolas e o Vale do Jequitinhonha, especialmente, preserva uma cultura riqu\u00edssima. Os quatro munic\u00edpios onde atuamos s\u00e3o: Berilo, Chapada do Norte, Minas Novas e Virgem da Lapa. S\u00e3o 59 comunidades inclu\u00eddas. Chapada do Norte tem cerca de 90% de sua popula\u00e7\u00e3o formada por quilombolas; Berilo \u00e9 o munic\u00edpio com maior n\u00famero de comunidades tradicionais de Minas Gerais. Os munic\u00edpios t\u00eam baix\u00edssimo IDH. \u00c9 interessante como as manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o diversas nas diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds. Por exemplo, no Maranh\u00e3o encontramos uma diversidade grande de como tocar o tambor de crioula. J\u00e1 em Minas Gerais, predominam manifesta\u00e7\u00f5es como o viol\u00e3o, o nove, a dan\u00e7a de roda e o congado.<\/p>\n<p>Ficamos extremamente satisfeitos quando recebemos do Ita\u00fa Cultural a not\u00edcia de que o instituto apoiaria parte do trabalho. Em seguida, a Petrobras tamb\u00e9m resolveu nos ajudar em outra parte. E s\u00f3 assim conseguimos realizar todo o trabalho de campo, que foi de uma riqueza absoluta para n\u00f3s, a equipe, e tamb\u00e9m para as comunidades, porque acabou sendo uma oportunidade para eles se juntarem e retomarem essas manifesta\u00e7\u00f5es culturais. Conseguimos reunir comunidades inteiras que n\u00e3o se encontravam h\u00e1 anos em torno de suas dan\u00e7as. Isso foi emocionante de ver.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/musica_quilombos_jequi_2.jpg\" alt=\"\" \/><em>(Foto: Cleber Cardoso Nunes\/Reprodu\u00e7\u00e3o Ita\u00fa Cultural)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Levando em conta a quantidade de lugares visitados e pessoas entrevistadas, quais foram os maiores desafios desse processo?<\/strong><\/p>\n<p>Em termos de log\u00edstica, a dificuldade principal \u00e9 conseguir articular as fam\u00edlias. As casas nas comunidades do Jequitinhonha t\u00eam uma caracter\u00edstica que \u00e9 a grande dist\u00e2ncia entre uma e outra. Ent\u00e3o, para abarcar o m\u00e1ximo de fam\u00edlias \u00e9 preciso percorrer muitos quil\u00f4metros. E, na regi\u00e3o, a quest\u00e3o da chuva tamb\u00e9m \u00e9 um problema, dependendo do per\u00edodo.<\/p>\n<p>Na primeira viagem que fizemos, por exemplo, havia crateras abertas nas estradas em fun\u00e7\u00e3o das chuvas e os carros atolavam. N\u00e3o tinha como circular. Al\u00e9m disso, o contato com muitas casas \u00e9 complexo, porque muitas fam\u00edlias vivem isoladas, com uma dificuldade grande de comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem telefone, voc\u00ea s\u00f3 consegue falar com elas indo l\u00e1 pessoalmente.<\/p>\n<p>Para apresentarmos o projeto e combinarmos as entrevistas e os registros das manifesta\u00e7\u00f5es foi preciso uma articula\u00e7\u00e3o muito bem feita com colaboradores locais, que foram fundamentais nesse processo. N\u00e3o fossem eles, n\u00e3o conseguir\u00edamos chegar a todas as pessoas que alcan\u00e7amos. Contamos com o apoio e o envolvimento de militantes do movimento quilombola, representantes das escolas \u2013 professores e diretores \u2013, secretarias de cultura e da assist\u00eancia social dos munic\u00edpios, seja nos acompanhando nas comunidades, fazendo pondera\u00e7\u00f5es sobre a realidade vivida por essas fam\u00edlias, seja nos apresentando como est\u00e3o desenvolvendo a educa\u00e7\u00e3o quilombola nos locais em que estamos trabalhando.<\/p>\n<p>A parceria com esses atores enriqueceu profundamente essa iniciativa. S\u00e3o v\u00e1rias as pessoas que nos ajudaram, e que figuram nos nossos agradecimentos, mas tivemos seis pontos focais fundamentais: Alessandro Ara\u00fajo, em Berilo, um rapaz de ouro, de 25 anos, que conhece a hist\u00f3ria das comunidades quilombolas daquela regi\u00e3o como poucos e que faz um esfor\u00e7o gigante para preservar essa mem\u00f3ria; Fabiane Vissotto, na Chapada do Norte, que fomenta a cultura tradicional da Chapada de maneira muito empenhada; tamb\u00e9m l\u00e1 Sandr\u00e3o, que \u00e9 uma lideran\u00e7a fundamental de comunidades que guardam suas manifesta\u00e7\u00f5es culturais de maneira impressionante; Ad\u00e3o Domingos, de Minas Novas, que \u00e9 um dos secret\u00e1rios de cultura mais engajados que conhe\u00e7o e est\u00e1 na base como um verdadeiro militante da causa quilombola; e Kerlane Murta e Mauro Gon\u00e7alves, dois guerreiros em Virgem da Lapa que sofrem com a falta de apoio do poder p\u00fablico na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/musica_quilombos_jequi_3.jpg\" alt=\"\" \/><em>(Foto: Cleber Cardoso Nunes\/Reprodu\u00e7\u00e3o Ita\u00fa Cultural)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea conseguiu perceber como essas comunidades se relacionam com os espa\u00e7os culturais?<\/strong><\/p>\n<p>De uma maneira geral, nesses munic\u00edpios s\u00e3o quase inexistentes os espa\u00e7os culturais, embora tenhamos encontrado casos raros. S\u00e3o as pr\u00f3prias comunidades que servem de espa\u00e7os para que o povo quilombola se re\u00fana e ainda mantenha suas manifesta\u00e7\u00f5es culturais. Muitas vezes, isso se d\u00e1 no entorno e no interior de igrejas, j\u00e1 que muitas dessas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o religiosas e culturais, outras vezes em escolas, ou mesmo em casas particulares ou ao ar livre, num lugar central da comunidade.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea poderia comentar um pouco sobre o perfil dos produtores\/gestores culturais dessas comunidades? Quem s\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o algumas lideran\u00e7as do movimento quilombola \u2013 muitos ocupando espa\u00e7os em \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, especialmente em secretarias de cultura ou de assist\u00eancia social \u2013 que fazem esse trabalho de gest\u00e3o cultural. Os gestores t\u00eam um desafio grande, porque n\u00e3o h\u00e1 apoio para essas a\u00e7\u00f5es e os mais jovens, em geral, n\u00e3o est\u00e3o engajados em dar prosseguimento a essas tradi\u00e7\u00f5es. E isso n\u00e3o porque n\u00e3o se interessam simplesmente, mas porque as oportunidades de trabalho s\u00e3o escassas na regi\u00e3o e eles s\u00e3o obrigados a sair muito cedo para buscar sustento em outras cidades, como o corte da cana de a\u00e7\u00facar em S\u00e3o Paulo. No entanto, s\u00e3o pessoas bastante proativas, que conseguem fazer com que essas manifesta\u00e7\u00f5es culturais n\u00e3o morram.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o dessas produ\u00e7\u00f5es culturais com as secretarias de cultura\/pontos de cultura? E o seu funcionamento?<\/strong><\/p>\n<p>As secretarias de cultura s\u00e3o pontos importantes de refer\u00eancia para as comunidades ao menos em dois dos quatro munic\u00edpios. S\u00e3o as secretarias de cultura que servem, muitas vezes, como mobilizadores de a\u00e7\u00f5es afirmativas e de apoio para que a cultura quilombola seja divulgada regionalmente. Os pontos de cultura s\u00e3o uma reivindica\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, busca-se a implanta\u00e7\u00e3o deles em cada munic\u00edpio do Vale do Jequitinhonha.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/musica_quilombos_jequi_4.jpg\" alt=\"\" \/><em>(Foto: Cleber Cardoso Nunes\/Reprodu\u00e7\u00e3o Ita\u00fa Cultural)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Quanto \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do \u201csaber fazer\u201d, existe alguma a\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo estimulada junto aos mais jovens e \u00e0s crian\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p>Existem algumas a\u00e7\u00f5es voltadas para isso, como as artes\u00e3s de Berilo, conhecidas pelo seu fino trabalho, que t\u00eam um ateli\u00ea e uma lojinha na cidade e est\u00e3o atentas a passar para as meninas mais novas o que as bisav\u00f3s, av\u00f3s e m\u00e3es fazem. Tamb\u00e9m os membros da Banda de Taquara, na comunidade de Bem Posta, no munic\u00edpio de Minas Novas. A banda tem mais de 90 anos e, apesar das dificuldades para conseguir conservar os instrumentos, os mais velhos tentam envolver os mais jovens para que eles mantenham vivo esse patrim\u00f4nio da regi\u00e3o. \u00c9 um grupo que costuma estar presente nas festividades da sua comunidade e nas cidades vizinhas. Ali\u00e1s, as festividades \u2013 e, para citar a principal, a Festa de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos, no meio do ano \u2013 costumam ser polo fundamental da dissemina\u00e7\u00e3o da rica cultura quilombola, envolvendo sempre fam\u00edlias inteiras no entorno de suas dan\u00e7as, da culin\u00e1ria e das hist\u00f3rias locais.<\/p>\n<p>Mas as dificuldades para que essa cultura ancestral se mantenha s\u00e3o grandes. Como eu disse, os mais jovens t\u00eam um problema muito b\u00e1sico, que \u00e9 a falta de perspectiva de trabalho, ou mesmo de estudo, na regi\u00e3o. Sem acesso a estudo e trabalho, eles saem em busca de oportunidades, muitas vezes de subempregos, como o trabalho no corte da cana e na colheita de caf\u00e9 em condi\u00e7\u00f5es desumanas. Saem e passam mais de nove meses por ano fora, deixando, em geral, os pais ou av\u00f3s e filhos pequenos. As fam\u00edlias ficam \u00e0 espera desse escasso recurso e, enquanto ele n\u00e3o vem, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 de extrema dificuldade. A \u00e1gua \u00e9 a necessidade n\u00famero um das comunidades e, sem ela, nada floresce. Eles n\u00e3o t\u00eam como plantar, criar animais\u2026 Falta \u00e1gua para beber, para higiene pessoal\u2026 Enfim, o que dizer quando o essencial inexiste? Ent\u00e3o, a cultura est\u00e1 sumindo porque esses jovens precisam correr atr\u00e1s do m\u00ednimo para sobreviver e ajudar os mais velhos.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acredita que a pesquisa impactar\u00e1 de alguma forma as comunidades que foram identificadas e entrevistadas, com esse registro e a coleta de suas hist\u00f3rias e manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho d\u00favida de que estaremos entregando um instrumento importante de luta para as comunidades, isso ouvimos muito nos espa\u00e7os onde estivemos. Encontramos as comunidades muito vigorosas do ponto de vista da consci\u00eancia de seus direitos. A manuten\u00e7\u00e3o de muitas dessas manifesta\u00e7\u00f5es culturais mostra isso. Para n\u00f3s, \u00e9 fundamental dar visibilidade grande para esse material porque as comunidades quilombolas precisam ser vistas. Precisam que a sociedade saiba que elas existem. Essa iniciativa vai colaborar para dar voz ao povo quilombola, e n\u00e3o s\u00f3 do Vale do Jequitinhonha. Estamos trabalhando para tirar essas comunidades desse processo de invisibilidade \u00e0 qual est\u00e3o submetidas e que as impede de acessar pol\u00edticas p\u00fablicas, porque elas t\u00eam consci\u00eancia de seus direitos, mas precisam participar desse processo de fomento. As comunidades tradicionais s\u00e3o protagonistas desse projeto. Nosso papel \u00e9 instrumentaliz\u00e1-los com esses produtos culturais organizados e ajud\u00e1-los a abrir espa\u00e7os para que sejam vistos e ouvidos. Tem um trecho do Eduardo Galeano em O Livro dos Abra\u00e7os que tem muito a ver com esse trabalho que estamos fazendo: \u201cQuando \u00e9 verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana n\u00e3o encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas m\u00e3os, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais\u201d.<\/p>\n<p>Os quilombolas s\u00e3o donos de suas hist\u00f3rias e sabem exatamente a import\u00e2ncia que t\u00eam na cultura deste pa\u00eds. De uma forma bastante concreta, o material que resultar\u00e1 nesses produtos culturais \u2013 30 v\u00eddeos document\u00e1rios de curta-metragem, um livro amplo e fartamente ilustrado e um portal com todo o resultado da pesquisa \u2013 j\u00e1 tem ajudado algumas comunidades a dar mais robustez aos pedidos de certifica\u00e7\u00e3o encaminhados \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, na articula\u00e7\u00e3o de parcerias com outras organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais, por exemplo, para assessoria jur\u00eddica em situa\u00e7\u00f5es de conflito de terra e, especialmente, na organiza\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o dispersas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria e \u00e0 mem\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Como os moradores que n\u00e3o s\u00e3o dos quilombos percebem essas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas? Existe algum preconceito?<\/strong><\/p>\n<p>Atuamos em munic\u00edpios que t\u00eam maioria, ou grande maioria, da popula\u00e7\u00e3o formada por quilombolas, ent\u00e3o essas manifesta\u00e7\u00f5es est\u00e3o muito presentes na cultura local. As festas acontecem h\u00e1 muitos anos e foram trazidas pelos ex-escravos, como a de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos da Chapada do Norte, que tem 192 anos e rendeu ao munic\u00edpio honra imensur\u00e1vel, o registro da festa como Patrim\u00f4nio Cultural Imaterial do Estado de Minas Gerais, concedido pelo Instituto Estadual do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico de Minas Gerais (Iepha), em maio de 2013. A popula\u00e7\u00e3o desses munic\u00edpios participa dessas festividades de uma maneira bastante integrada. E tamb\u00e9m existem as celebra\u00e7\u00f5es que est\u00e3o muito focadas nos quilombos, ou seja, s\u00e3o voltadas para as fam\u00edlias daquela localidade mesmo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/musica_quilombos_jequi_5.jpg\" alt=\"\" \/><em>(Foto: Cleber Cardoso Nunes\/Reprodu\u00e7\u00e3o Ita\u00fa Cultural)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea saberia dizer se essas comunidades quilombolas s\u00e3o reconhecidas como territ\u00f3rios quilombolas pelo Incra? Como elas se sustentam?<\/strong><\/p>\n<p>Algumas das comunidades remanescentes de quilombos: em Berilo, as comunidades de \u00c1gua Limpa de Baixo, \u00c1gua Limpa de Cima, Alto Caititu, Muniz, Caititu do Meio, Moc\u00f3 dos Pretos, Morrinhos, Quilombolas e Vila Santo Isidoro. Na Chapada do Norte: C\u00f3rrego da Miseric\u00f3rdia, Gravat\u00e1, Mo\u00e7a Santa, Po\u00e7\u00f5es, Porto dos Alves e Porto Serrano.<\/p>\n<p>Em Minas Novas: Capoeirinha, Curralinho, Gravat\u00e1, Mata Dois, Pinheiro, Macuco e Quilombo. Em Virgem da Lapa: Alto Jequitib\u00e1, Curral Novo, Pega, Quilombo das Almas e Uni\u00e3o dos Ros\u00e1rios. Essas s\u00e3o comunidades certificadas pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares e est\u00e3o no grupo de comunidades com o qual trabalhamos nesses munic\u00edpios. Pelo Incra, nenhuma delas \u00e9 reconhecida.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 forma de sustento, elas se mant\u00eam com o pouco recurso que familiares enviam, ou saindo para trabalhar em outros estados, com pequenos trabalhos ou com programas sociais como o Bolsa Fam\u00edlia. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante grave nesse sentido.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea poderia comentar, como gestora cultural, quais foram os impactos da pesquisa em voc\u00ea? Quais foram os pontos negativos e os pontos positivos?<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho foi de um crescimento imenso. N\u00e3o s\u00f3 para mim; posso, sem d\u00favida, falar por toda a equipe. Tivemos \u2013 e ainda temos \u2013 problema com o restante do recurso para finalizar o projeto e, t\u00e3o imbu\u00edda estava essa equipe da import\u00e2ncia dessa iniciativa, que todos resolveram custear as despesas do pr\u00f3prio bolso para que o trabalho de campo n\u00e3o parasse e para que n\u00e3o perd\u00eassemos o calend\u00e1rio de realiza\u00e7\u00e3o das festas no Vale do Jequitinhonha, para que a pesquisa n\u00e3o fosse prejudicada. Isso s\u00f3 se consegue com pessoas envolvidas emocionalmente no processo. O trabalho transcendeu a quest\u00e3o profissional e passou a ser um compromisso pessoal e moral terminar todo o trabalho e entreg\u00e1-lo para aquelas 59 comunidades. Em todas as comunidades a que \u00edamos, ouvimos que os pesquisadores que, por acaso, apareciam nesses locais nunca mais voltaram e eles ficavam sem saber qual o resultado obtido. Pois bem, nos comprometemos com eles a, mesmo que demorasse, voltarmos com esse material disponibilizado e tendo-os como protagonistas dessa divulga\u00e7\u00e3o. E faremos isso, custe o que custar.<\/p>\n<p>Eu poderia dizer v\u00e1rios pontos positivos, mas o principal \u00e9 estar no campo com essas pessoas, conhecendo sua realidade, entendendo esse Brasil que a gente n\u00e3o v\u00ea. Esse pa\u00eds \u00e9 tanta coisa e tanto mais que, a cada vez que eu volto do campo, percebo o quanto \u00e9 pequeno o nosso alcance para tanta riqueza. Ouvir esses depoimentos e v\u00ea-los lutar para preservar sua hist\u00f3ria \u00e9 li\u00e7\u00e3o para a vida.<\/p>\n<p>O ponto negativo \u00e9 um s\u00f3: a falta de apoio e de vontade pol\u00edtica seja dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos \u2013 inclusive, os que foram criados para fomentar pol\u00edticas para esse grupo social \u2013, seja de empresas e coopera\u00e7\u00e3o internacional para apoiar iniciativas como a nossa. Eu sempre digo que n\u00e3o consigo compreender ter que explicar para as \u00e1reas de apoio por que \u00e9 t\u00e3o importante apoiar projetos de cultura para as comunidades tradicionais. A cultura \u00e9 central para esse grupo. Mas, quando voc\u00ea chega com um projeto que tem como mote a cultura quilombola, os organismos avaliam que \u00e9 secund\u00e1rio. Eles nos pedem que fa\u00e7amos uma adequa\u00e7\u00e3o para enfocar o empoderamento econ\u00f4mico, a quest\u00e3o de g\u00eanero, a quest\u00e3o territorial, enfim, cada \u00f3rg\u00e3o pede uma adequa\u00e7\u00e3o para tentarmos conseguir algum apoio. N\u00e3o conseguem aceitar que \u00e9 a partir da cultura que podemos compreender as especificidades das comunidades tradicionais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, esse n\u00e3o \u00e9 um projeto que vai trazer essa m\u00eddia farta que a maioria dos patrocinadores quer. Precisamos fazer a melhor divulga\u00e7\u00e3o, a mais ampla poss\u00edvel, inclusive chamando parceiros, personalidades que s\u00e3o sens\u00edveis \u00e0 causa, para dar a ela ampla divulga\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 uma luta. Quase n\u00e3o h\u00e1 interesse por parte dos patrocinadores nesse tipo de iniciativa, e isso n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade. Por\u00e9m, para quem est\u00e1 buscando fazer o trabalho, \u00e9 um desafio muito desleal desse mercado. Concorremos nas estatais de Minas Gerais, por exemplo, com grandes bal\u00e9s, com grandes festivais, com espet\u00e1culos de grandes nomes e, se a pessoa respons\u00e1vel por aprovar patroc\u00ednio tiver de escolher entre dar milh\u00f5es para um projeto desses ou 5%, 10% disso para n\u00f3s, ela dar\u00e1 os milh\u00f5es para os grandes. E como \u00e9 que lutamos contra isso? Sendo absolutamente insistentes, chamando-os para ver o que estamos realizando, tentando convenc\u00ea-los\u2026 Mas n\u00e3o conseguimos. Muito dif\u00edcil. \u00c9 uma luta \u00e1rdua.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00f3s n\u00e3o cansamos de agradecer ao apoio do Ita\u00fa Cultural, que abriu espa\u00e7o para ouvir o que pedimos e acreditou nessa iniciativa. Sem isso, esse projeto estaria parado at\u00e9 hoje e aquelas comunidades permaneceriam na invisibilidade. \u00c9 de extrema import\u00e2ncia para n\u00f3s conseguir sensibilizar incentivadores como o Ita\u00fa e a Petrobras para essas iniciativas. A cultura est\u00e1 l\u00e1 no interior acontecendo, em pequenas escalas, sim, mas com uma for\u00e7a muito grande e lutando bravamente para seguir em frente, para n\u00e3o morrer. \u00c9 nossa hist\u00f3ria, nossa cultura, nossa riqueza. Diz respeito a todos n\u00f3s. Dessa forma, \u00e9 preciso olhar para al\u00e9m dos grandes centros. Parece \u00f3bvio \u2013 e \u00e9 \u2013, mas pouco se faz para mudar essa realidade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/musica_quilombos_jequi_6.jpg\" alt=\"\" \/><em>(Foto: Cleber Cardoso Nunes\/Reprodu\u00e7\u00e3o Ita\u00fa Cultural)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Como voc\u00eas pretendem circular todo o rico material coletado? Pretendem fazer alguma a\u00e7\u00e3o pontual junto a essas comunidades?<\/strong><\/p>\n<p>Nossa prioridade agora \u00e9 a finaliza\u00e7\u00e3o desses produtos culturais e a entrega desse material para as comunidades quilombolas desses quatro munic\u00edpios do Vale do Jequitinhonha no segundo semestre de 2016. Queremos fazer um grande evento l\u00e1 na regi\u00e3o, com a participa\u00e7\u00e3o das comunidades, da m\u00eddia, de algumas personalidades parceiras, como artistas, escritores, intelectuais, e de autoridades que tamb\u00e9m precisam participar para se comprometer com o povo quilombola. Esse ser\u00e1 o primeiro evento, que tamb\u00e9m \u00e9 quando mostraremos todo o resultado para as fam\u00edlias. Ser\u00e1 um momento importante.<\/p>\n<p>Depois, queremos fazer eventos em parceria com organiza\u00e7\u00f5es quilombolas em capitais como Belo Horizonte, S\u00e3o Paulo e Bras\u00edlia, sempre visando a visibilidade e a divulga\u00e7\u00e3o de tudo o que foi feito. Temos perspectiva de fazer uma exposi\u00e7\u00e3o de fotos posteriormente, porque o projeto resultou em imagens muito bonitas.<\/p>\n<p><strong>Com base nas suas experi\u00eancias e informa\u00e7\u00f5es coletadas na pesquisa, quais s\u00e3o os desafios para que as pol\u00edticas p\u00fablicas de cultura sejam atuantes e estimulem as produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas nesses territ\u00f3rios?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que precisamos pensar em acesso \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas de cultura para esses territ\u00f3rios de uma maneira particular. Acho fant\u00e1stico, por exemplo, os editais da Funarte para dar acesso a produtores negros. Mas, se voc\u00ea vai ao Vale do Jequitinhonha e conversa com os produtores culturais, eles desconhecem a exist\u00eancia desses editais. Ou, mesmo que saibam que est\u00e3o acontecendo, quem \u00e9 que est\u00e1 preparado para enviar uma proposta atendendo a tantos requisitos e de maneira que o projeto tenha alguma chance de ser analisado e aprovado? As pessoas precisam ser auxiliadas nesse processo. Eu mesma j\u00e1 fiz isso com v\u00e1rios deles para, minimamente, terem um projeto com essa linguagem de edital. N\u00e3o \u00e9 uma coisa simples. Pode s\u00ea-lo para quem trabalha com isso e tem informa\u00e7\u00f5es de forma facilitada, mas para quem est\u00e1 longe, com pouca possibilidade de ter internet e telefone, o acesso a essas oportunidades \u00e9 muito complicado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, acho que temos de entender que os grupos culturais que trabalham no interior deste pa\u00eds precisam de um olhar espec\u00edfico, que entenda essas limita\u00e7\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o, que esteja aberto a suas demandas reais, para que possam acessar essas iniciativas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/musica_quilombos_jequi_7.jpg\" alt=\"\" \/><em>(Foto: Cleber Cardoso Nunes\/Reprodu\u00e7\u00e3o Ita\u00fa Cultural)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><em>(Fonte: Ita\u00fa Cultural \/ Rep\u00f3rter: Andr\u00e9ia Briene)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Evanize Sydow \u00e9 jornalista, mestre em hist\u00f3ria, bens culturais e projetos sociais e coordenadora do projeto Quilombos do Vale do Jequitinhonha. Trabalha com comunidades quilombolas h\u00e1 16 anos, em estados como Maranh\u00e3o, Pernambuco, Esp\u00edrito Santo e Minas Gerais. \u00c9 autora da biografia Dom Paulo Evaristo Arns, um Homem Amado e Perseguido (Editora Vozes) e atualmente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":94408,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"amp_status":"","footnotes":""},"categories":[120],"tags":[110077,110081,110082,841,110084,132,110092,481,110072,110087,110096,65750,1018,110070,110073,110067,110076,110071,110088,110080,110075,110078,110095,110093,110079,137,110089,110085,49477,110083,110097,110100,110094,1442,110090,110091,110068,110098,37878,110069,110074,110099,110086,482],"class_list":["post-94402","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-jequi","tag-adao-domingos","tag-agua-limpa-de-cima","tag-alto-caititu","tag-berilo","tag-caititu-do-meio","tag-capelinha","tag-capoeirinha","tag-chapada-do-norte","tag-comunidades-quilombolas-do-vale-do-jequitinhonha","tag-corrego-da-misericordia","tag-curral-novo","tag-curralinho","tag-destaque","tag-dom-paulo-evaristo-arns","tag-estudo-sobre-comunidades-quilombolas-do-vale-do-jequitinhonha","tag-evanize-sydow","tag-fabiane-vissotto","tag-frei-betto","tag-gravata","tag-gua-limpa-de-baixo","tag-itau-cultural","tag-kerlane-murta","tag-macuco-e-quilombo-em-virgem-da-lapa-alto-jequitiba","tag-mata-dois","tag-mauro-goncalves","tag-minas-novas","tag-moca-santa","tag-moco-dos-pretos","tag-morrinhos","tag-muniz","tag-pega","tag-pesquisadora-revela-riqueza-musical-das-comunidades-quilombolas-do-vale-do-jequitinhonha","tag-pinheiro","tag-pocoes","tag-porto-dos-alves","tag-porto-serrano","tag-projeto-quilombos-do-vale-do-jequitinhonha","tag-quilombo-das-almas","tag-quilombolas","tag-quilombos-do-vale-do-jequitinhonha","tag-trabalho-sobre-comunidades-quilombolas-do-vale-do-jequitinhonha","tag-uniao-dos-rosarios","tag-vila-santo-isidoro","tag-virgem-da-lapa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/94402","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=94402"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/94402\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/94408"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=94402"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=94402"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=94402"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}