{"id":92373,"date":"2016-07-18T21:54:05","date_gmt":"2016-07-19T00:54:05","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=92373"},"modified":"2016-07-18T21:54:05","modified_gmt":"2016-07-19T00:54:05","slug":"guimaraes-rosa-e-manuelzao-a-amizade-de-oito-dias-que-gerou-uma-obra-de-60-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=92373","title":{"rendered":"Guimar\u00e3es Rosa e Manuelz\u00e3o: a amizade de oito dias que gerou uma obra de 60 anos"},"content":{"rendered":"<p>L\u00e1 se v\u00e3o 60 anos desde que o sert\u00e3o mineiro ganhou o mundo pela literatura de Guimar\u00e3es Rosa. Mas\u00a0<em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Corpo de Baile<\/em>, publicados em 1956, podem na verdade ter nascido quatro anos antes, quando o escritor mineiro organizou uma boiada para entender melhor a cultura sertaneja. Nessa aventura, Guimar\u00e3es Rosa registrou lugares, palavras, express\u00f5es e personagens. Entre tantos vaqueiros que se juntaram \u00e0 empreitada, um pode ter sido definitivo para as obras roseanas: Manuelz\u00e3o.<\/p>\n<p>A cruzada teve origem na Fazenda Sirga, a 60 quil\u00f4metros de Andrequic\u00e9, distrito de Tr\u00eas Marias (MG), onde Manuelz\u00e3o viveu seus \u00faltimos 20 anos. Dez dias depois, o ponto de chegada foi uma fazenda em Ara\u00e7a\u00ed (MG), munic\u00edpio vizinho a Cordisburgo (MG), cidade natal de Guimar\u00e3es Rosa.<\/p>\n<p>A revista Cruzeiro, dos\u00a0<em>Di\u00e1rios Associados<\/em>, publicou um relato da expedi\u00e7\u00e3o na reportagem\u00a0<em>Rosa e seus vaqueiros<\/em>, em 21 de junho de 1952. Nas fotos, Manuelz\u00e3o est\u00e1 entre o grupo. Em sua homenagem, o escritor mineiro escreveu o conto\u00a0<em>Uma Est\u00f3ria de Amor<\/em>, do livro\u00a0<em>Corpo de Baile<\/em>, que posteriormente foi desmembrado em tr\u00eas volumes:\u00a0<em>Manuelz\u00e3o e Miguilim<\/em>,\u00a0<em>No Urubuquaqu\u00e1<\/em>,\u00a0<em>no Pinh\u00e9m<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Noites do Sert\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Manuelz\u00e3o \u00e9 o protagonista do primeiro volume: ap\u00f3s a morte de sua m\u00e3e, o vaqueiro resolve atender a um pedido dela para que fosse constru\u00edda uma capela em suas terras e a obra \u00e9 inaugurada com uma grande festa. Guimar\u00e3es Rosa mescla realidade e fic\u00e7\u00e3o: assim como o personagem, a capela existe e ao seu lado est\u00e1 o t\u00famulo de sua m\u00e3e. J\u00e1 a festa \u00e9 romanceada.<\/p>\n<p>Das p\u00e1ginas do conto, Manuelz\u00e3o se tornou talvez o principal embaixador da obra roseana. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) o homenageou criando o Projeto Manuelz\u00e3o, destinado \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o do Rio das Velhas. O vaqueiro foi a diversos programas de televis\u00e3o e atuou em uma cena do cap\u00edtulo inaugural da s\u00e9rie\u00a0<em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, levado ao ar pela\u00a0<em>Rede Globo<\/em>\u00a0em 1985. Morto em 1997, seu enterro mobilizou centenas de pessoas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/guimaraes_rosa.jpg\" alt=\"\" \/><em>Capela constru\u00edda por Manuelz\u00e3o em homenagem a sua m\u00e3e (L\u00e9o Rodrigues\/Ag\u00eancia Brasil)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Parte desse sucesso \u00e9 relatado em detalhes pelo jornalista Pedro Fonseca. Sobrinho da \u00faltima mulher de Manuelz\u00e3o, ele se afei\u00e7oou ao \u201ctio torto\u201d, como se diz em Andrequic\u00e9. Fonseca garante que Uma Est\u00f3ria de Amor \u00e9 apenas a parte mais evidente da influ\u00eancia do vaqueiro na obra roseana. &#8220;Ele permeia toda a obra de Guimar\u00e3es Rosa. Ele tamb\u00e9m est\u00e1 em<em>Noites do Sert\u00e3o<\/em>\u00a0e no\u00a0<em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>. O Riobaldo \u00e9 o Manuelz\u00e3o, \u00e9 bem n\u00edtido\u201d, analisa Pedro.<\/p>\n<p>Quem conheceu o vaqueiro se surpreende com a exatid\u00e3o da descri\u00e7\u00e3o do personagem por Guimar\u00e3es Rosa, dando a impress\u00e3o de um longo conv\u00edvio, o que n\u00e3o aconteceu de fato. \u201cA conviv\u00eancia deles foi de uns oito dias e nunca mais se viram. Mas uma conviv\u00eancia intensa, dia e noite\u201d, diz Pedro Fonseca.<\/p>\n<p>Mesmo por poucos dias, o sobrinho de Manuelz\u00e3o diz n\u00e3o estranhar a aten\u00e7\u00e3o destacada que o tio recebeu de Guimar\u00e3es Rosa em meio a um bando de vaqueiros. Segundo o jornalista, ele n\u00e3o passava despercebido. \u201cEm 1989, eu apoiei o Brizola na campanha para presid\u00eancia da Rep\u00fablica. O Jos\u00e9 Maria Rabelo, que era o presidente do PDT em Minas Gerais, me perguntou se eu poderia levar o Manuelz\u00e3o para um evento com o Brizola em Belo Horizonte. Eu levei e foi uma confus\u00e3o. Muita gente achou ruim que ele apareceu mais que o Brizola. Era assim: onde ele ia, ele era o astro\u201d, relata.<\/p>\n<p>Em Andrequic\u00e9, Manuelz\u00e3o \u00e9 conhecido como o cidad\u00e3o mais ilustre que viveu no distrito. Em torno dele e de Guimar\u00e3es Rosa se organiza anualmente a Semana Cultural Festa de Manuelz\u00e3o, cuja edi\u00e7\u00e3o de 2016 terminou nesse domingo (17). Famoso contador de casos, o vaqueiro est\u00e1 em fotos nas paredes de praticamente todos os bares do pequeno distrito. \u201cEle era uma pessoa humilde, contadora de casos. Mesmo a figura dele rodando o mundo, ele n\u00e3o se importava com dinheiro. Se convidavam Manuelz\u00e3o pra um evento em Bras\u00edlia e perguntavam quanto ele cobraria, ele respondia: &#8216;nada, estou indo passear&#8217;. Manuelz\u00e3o deixou um legado para Andrequic\u00e9\u201d, diz M\u00e1rcia Alves, dona de um dos bares que homenageiam o vaqueiro personagem.<\/p>\n<p>Essa disponibilidade de Manuelz\u00e3o foi explorada por muitos, segundo o jornalista Pedro Fonseca. \u201cAs pessoas convidavam ele para eventos de empresas onde ele era o astro, lucravam com sua apari\u00e7\u00e3o e lhe pagavam apenas uns trocados.\u201d<\/p>\n<p>O Memorial Manuelz\u00e3o, constru\u00eddo na casa onde ele morou em Andrequic\u00e9, re\u00fane pertences pessoais e documentos sobre sua rela\u00e7\u00e3o com Guimar\u00e3es Rosa. Assim como o escritor, ele tamb\u00e9m tem frases marcantes que s\u00e3o citadas pelos moradores: \u201cN\u00e3o tenho medo da morte porque sei que vou morrer. Tenho medo do amor falso, porque mata sem Deus querer\u201d, dizia sempre.<\/p>\n<p><strong>Livro<\/strong><\/p>\n<p>Com a autoridade de quem conviveu por 40 anos com Manuelz\u00e3o, o jornalista Pedro Fonseca decidiu lan\u00e7ar em 2007 o livro\u00a0<em>O xale de Rosa<\/em>, para decifr\u00e1-lo para al\u00e9m da obra roseada. \u201cNo final da vida, ele virou o personagem. Deixou de ser o cidad\u00e3o e virou o personagem. Mas foi tamb\u00e9m o que deu uma sobrevida a ele. Ele vivia pelo sucesso. Mas eu me interessava pelo cidad\u00e3o Manuelz\u00e3o. N\u00e3o o personagem.\u201d<\/p>\n<p>Um fato sobre Manuelz\u00e3o intrigava Pedro: ele n\u00e3o compartilhava as hist\u00f3rias de Dom Silv\u00e9rio (MG), na regi\u00e3o mineira da Zona da Mata, onde nasceu. \u201cEle n\u00e3o falava nada sobre essa \u00e9poca. Dizia que n\u00e3o tinha pai, s\u00f3 m\u00e3e. Quando se fixou na fazenda pr\u00f3xima a Andrequic\u00e9, levou a m\u00e3e para morar com ele, mas n\u00e3o tinha contato com o restante da fam\u00edlia. Ficou 60 anos sem visitar sua cidade e quando o fez, foi sozinho, meio escondido\u201d, conta o jornalista. Manuelz\u00e3o deixou sua cidade natal com 20 e poucos anos, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930. &#8220;O sonho dele era se juntar ao bando de Lampi\u00e3o. Quando ele estava em Pirapora (MG), ele recebeu a not\u00edcia de que Lampi\u00e3o tinha sido morto. Ent\u00e3o, seguiu sua vida no sert\u00e3o mineiro&#8221;.<\/p>\n<p>Para escrever o livro, Fonseca foi \u00e0 cidade de Manuel Nardi, como se chamava Manuelz\u00e3o, e descobriu que o sobrenome era de uma fam\u00edlia grande e nobre na regi\u00e3o. Na cidade, o jornalista passou a investigar que raz\u00f5es levaram Manuelz\u00e3o a abandonar uma vida relativamente confort\u00e1vel para se embrenhar pelo sert\u00e3o. Ainda no desafio de decifrar o vaqueiro, o jornalista organizou uma expedi\u00e7\u00e3o para refazer o percurso trilhado por Guimar\u00e3es Rosa e seus vaqueiros, respeitando os mesmos pontos de parada. \u201cN\u00f3s guiamos 198 cabe\u00e7as de gado. Eu precisava vivenciar essa experi\u00eancia para entender como \u00e9 essa vida de vaqueiro.\u201d<\/p>\n<p>(Ag\u00eancia Brasil)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e1 se v\u00e3o 60 anos desde que o sert\u00e3o mineiro ganhou o mundo pela literatura de Guimar\u00e3es Rosa. Mas\u00a0Grande Sert\u00e3o: Veredas\u00a0e\u00a0Corpo de Baile, publicados em 1956, podem na verdade ter nascido quatro anos antes, quando o escritor mineiro organizou uma boiada para entender melhor a cultura sertaneja. 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