{"id":90653,"date":"2016-06-30T18:24:51","date_gmt":"2016-06-30T21:24:51","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=90653"},"modified":"2016-06-30T18:24:51","modified_gmt":"2016-06-30T21:24:51","slug":"o-dono-do-morro-e-o-presidente-da-favela-diz-autor-sobre-o-nem-da-rocinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=90653","title":{"rendered":"\u201cO dono do morro \u00e9 o presidente da favela\u201d, diz autor sobre o Nem da Rocinha"},"content":{"rendered":"<p>O jornalista brit\u00e2nico Misha Glenny estava no Brasil em 2011, quando o traficante Nem, chefe do crime organizado na Rocinha, foi preso. O assunto ganhou destaque no notici\u00e1rio e chamou a aten\u00e7\u00e3o do autor, que estava \u00e0 procura de um assunto que contasse a complexidade do Brasil e quebrasse os estere\u00f3tipos sobre o pa\u00eds. Esse interesse fez nascer o livro\u00a0<em>O Dono do Morro: Um Homem e a Batalha pelo Rio<\/em>, da editora Companhia das Letras.<\/p>\n<p>&#8220;Nos dias seguintes, eu lia tudo sobre o Nem da Rocinha nos jornais. Assisti \u00e0 televis\u00e3o e fiquei impressionado que a metade do Rio acreditava que o Nem foi um dem\u00f4nio e a outra metade considerava ele um her\u00f3i. Como um tipo de Robin Hood&#8221;, conta ele, que \u00e9 um dos autores convidados da Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty (Flip) e participa de uma mesa com o jornalista brasileiro Caco Barcellos na tarde de hoje (30). &#8220;As favelas e as quadrilhas t\u00eam um impacto t\u00e3o grande na vida dos moradores, mas essa hist\u00f3ria muito importante \u00e9 normalmente uma hist\u00f3ria n\u00e3o escrita. Quero contribuir para contar os acontecimentos no Rio que somente poucas pessoas sabem.&#8221;<\/p>\n<p>Em 28 horas de conversas com Nem no pres\u00eddio e de entrevistas com aliados, inimigos e familiares do traficante, Misha conta o que entendeu do personagem e de como o crime organizado controla as favelas do Rio de Janeiro. O brit\u00e2nico morou por dois anos na Rocinha, aprendeu portugu\u00eas e contou com a ajuda de jornalistas brasileiros no levantamento das informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;O dono do morro n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o chefe do tr\u00e1fico, ele \u00e9 de fato o presidente da favela onde mora. Esse foi o caso com o Nem da Rocinha. Os tr\u00eas instrumentos de controle s\u00e3o primeiro o monop\u00f3lio da viol\u00eancia, segundo, o apoio da comunidade, e terceiro, a corrup\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia&#8221;, descreve ele, que encontrou em Nem um &#8220;dono do morro&#8221; com caracter\u00edsticas peculiares, como ter entrado para a fac\u00e7\u00e3o criminosa apenas aos 24 anos, quando j\u00e1 tinha experi\u00eancia profissional em coordenar uma equipe de entrega de revistas no morro. &#8220;O Nem percebeu que se a taxa de homic\u00eddios e a viol\u00eancia ca\u00edssem, os lucros do neg\u00f3cio subiriam&#8221;. Isso fez com que a Rocinha passasse a ser encarada pelos consumidores de drogas como &#8220;um lugar seguro para comprar&#8221;. &#8220;O dono do morro [o traficante Lulu] reconheceu seu talento bem r\u00e1pido, e \u00e9 por isso que ele ascendeu muito rapidamente.&#8221;<\/p>\n<p>Misha Glenny conta que a chegada de Nem ao tr\u00e1fico foi motivada pela necessidade de custear o tratamento m\u00e9dico de sua filha, que havia sido diagnosticada com uma doen\u00e7a rara ainda beb\u00ea. &#8220;Para mim, ele foi um s\u00edmbolo da desigualdade da sociedade brasileira e da sociedade carioca. E de como \u00e9 uma sociedade bem dividida.&#8221;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/livro_nem_rocinha.jpg\" alt=\"\" \/><em>O escritor brit\u00e2nico Misha Glenny fala na Festa Liter\u00e1ria de Paraty sobre a experi\u00eancia de escrever o livro O Dono do Morro: Um Homem e a Batalha pelo Rio, que aborda a hist\u00f3ria do traficante Nem na Rocinha (Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Tr\u00e1fico internacional<\/strong><\/p>\n<p>De sua pesquisa, o jornalista brit\u00e2nico destaca que, em 1982, a taxa de homic\u00eddios no Rio de Janeiro era a mesma da cidade de Nova York. Sete anos depois, no entanto, o \u00edndice j\u00e1 havia triplicado, enquanto a cidade americana mantinha o patamar. O jornalista considera essa a estat\u00edstica mais importante do livro, por mostrar, segundo ele, como o tr\u00e1fico internacional de coca\u00edna da Col\u00f4mbia para a Europa fez crescer a viol\u00eancia no Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Cada vez que um pa\u00eds se torna o tr\u00e2nsito principal da droga, ele desenvolve o h\u00e1bito no n\u00edvel local. Isso aconteceu no Brasil e especialmente no Rio de Janeiro&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p>Para o autor, a capital fluminense, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 na rota das grandes movimenta\u00e7\u00f5es de drogas, que s\u00e3o controladas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). O grupo atua em, ao menos, 14 estados. A cidade, entretanto, tem um tr\u00e1fico mais vis\u00edvel, por suas caracter\u00edsticas geogr\u00e1ficas terem formado grupos rivais que precisam de forte armamento para se defender uns dos outros e da pol\u00edcia. &#8220;No Rio, essa geografia levou ao desenvolvimento de diferentes grupos.&#8221;<\/p>\n<p>O autor considera que a legaliza\u00e7\u00e3o do uso da maconha seria um avan\u00e7o, mas n\u00e3o teria grande impacto no poder dos traficantes, que t\u00eam a coca\u00edna como sua principal fonte de lucro. &#8220;Eles comercializam maconha, mas dizem que maconha \u00e9 um p\u00e9 no saco. Que pesa muito, n\u00e3o \u00e9 lucrativo e fede.&#8221;<\/p>\n<p><strong>UPPs<\/strong><\/p>\n<p>Entre os entrevistados para o livro de Glenny est\u00e1 o secret\u00e1rio de seguran\u00e7a p\u00fablica do estado do Rio de Janeiro, Jos\u00e9 Mariano Beltrame. O jornalista avalia que o trabalho das unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs) foi um experimento corajoso e ousado, mas que a falta de apoio na retaguarda de pol\u00edticas sociais o prejudicou.<\/p>\n<p>&#8220;O caso Amarildo quase derrubou a UPP, e isso mostra como foi fr\u00e1gil a UPP, especialmente agora, porque a crise no Brasil est\u00e1 tendo um impacto muito ruim no sistema de seguran\u00e7a da UPP. Est\u00e1 colapsando na Rocinha, no Alem\u00e3o e em outras favelas&#8221;, destacou.<\/p>\n<p><strong>Olimp\u00edada<\/strong><\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o dele, a seguran\u00e7a p\u00fablica na cidade n\u00e3o deve ter grandes altera\u00e7\u00f5es at\u00e9 os Jogos Ol\u00edmpicos e Paral\u00edmpicos, mas pode piorar depois. &#8220;Tenho medo que a situa\u00e7\u00e3o depois dos Jogos Ol\u00edmpicos estar\u00e1 muito pior, n\u00e3o somente no morro, mas no asfalto tamb\u00e9m. O morro e o asfalto, embora sejam muito separados, s\u00e3o intrinsecamente ligados, socialmente, economicamente e politicamente, mesmo que as pessoas n\u00e3o percebam.&#8221;<\/p>\n<p>A Festa Liter\u00e1ria de Paraty homenageia este ano a poetiza carioca Ana Cristina Cesar e re\u00fane, at\u00e9 domingo (3), artistas, escritores e cineastas no litoral fluminense.<\/p>\n<p>(Ag\u00eancia Brasil)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista brit\u00e2nico Misha Glenny estava no Brasil em 2011, quando o traficante Nem, chefe do crime organizado na Rocinha, foi preso. O assunto ganhou destaque no notici\u00e1rio e chamou a aten\u00e7\u00e3o do autor, que estava \u00e0 procura de um assunto que contasse a complexidade do Brasil e quebrasse os estere\u00f3tipos sobre o pa\u00eds. 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