{"id":87658,"date":"2016-05-23T15:43:19","date_gmt":"2016-05-23T18:43:19","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=87658"},"modified":"2016-05-23T15:43:19","modified_gmt":"2016-05-23T18:43:19","slug":"incor-cria-tecnica-com-ultrassom-para-tratar-infarto-agudo-do-miocardio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=87658","title":{"rendered":"Incor cria t\u00e9cnica com ultrassom para tratar infarto agudo do mioc\u00e1rdio"},"content":{"rendered":"<p>A professora do curso de turismo da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) C\u00e9lia Maria de Moraes Dias, de 65 anos, estava dan\u00e7ando quando come\u00e7ou a sentir dores no peito. Era novembro de 2014. Naquele momento, ela ainda n\u00e3o sabia, mas estava sofrendo um infarto.<\/p>\n<p>\u201cNo dia em que sofri o infarto, estava dan\u00e7ando em um curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em uma tese sobre a dan\u00e7a circular como elemento alternativo de cura. Dancei duas m\u00fasicas e estava infartando. Senti dor no peito, mas n\u00e3o sabia. Nunca tinha tido nada&#8221;, disse. &#8220;N\u00e3o tinha hist\u00f3rico [de infarto na fam\u00edlia], n\u00e3o tenho colesterol alto, fa\u00e7o atividade f\u00edsica, n\u00e3o tenho diabetes\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>C\u00e9lia demorou a perceber o que ocorria. Apesar da forte dor, que ela compara \u00e0 \u201csensa\u00e7\u00e3o de uma bola de ferro no peito\u201d, ela n\u00e3o procurou um m\u00e9dico imediatamente. Decidiu ir para casa. \u201cQuando me deitei, aquela bola de ferro dissolveu. E a\u00ed eu n\u00e3o podia respirar. Liguei para minha irm\u00e3, que \u00e9 enfermeira, e ela perguntou o que eu estava sentindo. Disse que sentia enjoo e dor no peito, e ela ent\u00e3o me disse que eu estava infartando e que deveria correr ao hospital\u201d, completou C\u00e9lia.<\/p>\n<p>A professora ent\u00e3o procurou atendimento na emerg\u00eancia do Hospital das Cl\u00ednicas, na zona oeste da capital paulista. Um primeiro eletrocardiograma feito no local n\u00e3o constatou altera\u00e7\u00e3o alguma, mas o m\u00e9dico que a atendeu fez novos exames, identificou que ela estava mesmo sofrendo um infarto e a encaminhou imediatamente ao Instituto do Cora\u00e7\u00e3o (Incor) do Hospital das Cl\u00ednicas da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo. Foi l\u00e1 que C\u00e9lia aceitou ser volunt\u00e1ria para uma pesquisa que est\u00e1 sendo desenvolvida por m\u00e9dicos do Incor e que pode inovar a forma de tratar o infarto agudo do mioc\u00e1rdio.<\/p>\n<p><strong>Pesquisa<\/strong><\/p>\n<p>Desde 2014, uma equipe de pesquisadores do Incor, liderada pelo m\u00e9dico Wilson Mathias J\u00fanior, diretor do Servi\u00e7o de Ecocardiografia do instituto, estuda a aplica\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo de diagn\u00f3stico j\u00e1 consagrado, o ultrassom com microbolhas, para tratamento do infarto do mioc\u00e1rdio em fase aguda, em at\u00e9 12 horas ap\u00f3s o in\u00edcio da dor. Ou seja, o ultrassom com microbolhas que antes era usado apenas para diagn\u00f3stico, agora passa a ser uma etapa do tratamento para o infarto do mioc\u00e1rdio.<\/p>\n<p>\u201cAs microbolhas foram inventadas, h\u00e1 mais de dez anos, pensando-se em melhorar o diagn\u00f3stico m\u00e9dico por ultrassom. Posteriormente, descobriu-se que, quando voc\u00ea intensifica uma regi\u00e3o que cont\u00e9m microbolhas, elas vibram e, por vezes, elas explodem. \u00c9 uma microexplos\u00e3o, mas quando ela se rompe, forma um pequeno jato \u2013 como se voc\u00ea furasse uma bola de futebol e sa\u00edsse um pequeno jato de ar \u2013 e esse microjato tem efeitos biol\u00f3gicos. Um desses efeitos \u00e9 que, se ele est\u00e1 dentro de um trombo [co\u00e1gulo], \u00e9 como se fosse uma microdinamite que vai explodir, e cada bolhinha que explode l\u00e1 dentro vai abrindo uma cavidade no trombro e vai causando a tromb\u00f3lise por ultrassom\u201d, explicou o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>O estudo, foi feito com 42 pacientes do Incor at\u00e9 o momento, constatou que os pacientes submetidos ao tratamento com o ultrassom de microbolhas tiveram \u00edndices maiores de abertura da art\u00e9ria obstru\u00edda e de recupera\u00e7\u00e3o do mioc\u00e1rdio em processo de infarto, quando comparados aos pacientes que n\u00e3o passaram pela t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Atualmente, o tratamento aplicado para esse tipo de caso \u00e9 a angioplastia prim\u00e1ria: &#8220;Desobstru\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica da art\u00e9ria coron\u00e1ria por um cat\u00e9ter nas primeiras seis horas ou at\u00e9 12 horas do in\u00edcio da dor no peito\u201d, ecplica o m\u00e9dico. No entanto, a angioplastia prim\u00e1ria s\u00f3 \u00e9 feita em poucos hospitais brasileiros, onde h\u00e1 estrutura para isso. Na maioria dos hospitais do pa\u00eds, portanto, o tratamento para o infarto agudo do mioc\u00e1rdio consiste na introdu\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias que dissolvem o co\u00e1gulo, chamadas fibrinol\u00edticos. Esses medicamentos t\u00eam uma efic\u00e1cia, segundo o m\u00e9dico, em torno de 60% e provocam riscos de hemorragias. \u201cMas no balan\u00e7o entre risco e benef\u00edcio, como o dano do infarto \u00e9 muito grande, o risco acaba compensando\u201d, explicou.<\/p>\n<p><strong>Ultrassom com microbolhas<\/strong><\/p>\n<p>O ultrassom com microbolhas consiste em um g\u00e1s perfluorocarbono que \u00e9 encapsulado por camada de lip\u00eddios. O procedimento n\u00e3o \u00e9 t\u00f3xico e \u00e9 um m\u00e9todo f\u00e1cil de ser aplicado por profissionais de sa\u00fade. As bolhas, que circulam no sangue por cerca de 20 minutos, t\u00eam cerca de dois micra de di\u00e2metro, tr\u00eas vezes menor que uma c\u00e9lula vermelha (hem\u00e1cia), que tem cerca de seis micra de di\u00e2metro.<\/p>\n<p>A nova t\u00e9cnica \u00e9 aplicada no paciente entre a chegada dele ao Incor e o transporte dele ao laborat\u00f3rio de cateterismo. \u201cSe existe uma sala dispon\u00edvel, esse infartado sobe imediatamente. Se n\u00e3o existe, esse infartado fica sendo monitorado no pronto-socorro aguardando a libera\u00e7\u00e3o da sala. E \u00e9 nessa janela, que varia de cinco a trinta minutos, que trabalhamos e efetuamos a primeira parte da terapia, cujo objetivo \u00e9 romper os co\u00e1gulos que est\u00e3o nas coron\u00e1rias e romper outros co\u00e1gulos que v\u00e3o migrando para a parte de baixo da microcircula\u00e7\u00e3o e v\u00e3o entupindo os pequenos vasos. As bolhinhas v\u00e3o at\u00e9 o capilar, rompendo os trombos mesmo em vasos pequenos\u201d, explicou o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica n\u00e3o substitui a angioplastia prim\u00e1ria, mas ajuda \u201ca interromper o processo de necrose do cora\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cAinda \u00e9 preciso fazer a angioplastia, mas voc\u00ea abre a art\u00e9ria coron\u00e1ria para o paciente, que \u00e9 o que faz a diferen\u00e7a\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A ideia dos pesquisadores \u00e9 que no prazo de sete anos essa nova t\u00e9cnica possa ser usada mundialmente como tratamento para o infarto agudo do mioc\u00e1rdio, estando dispon\u00edvel para aplica\u00e7\u00e3o em ambul\u00e2ncias, por exemplo, enquanto o paciente \u00e9 encaminhado ao hospital. At\u00e9 l\u00e1, a pesquisa ainda ser\u00e1 ampliada e desenvolvida com 100 pacientes do Incor, at\u00e9 ser levada e testada em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong>O infarto<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Mathias J\u00fanior, aproximadamente 30 pessoas em cada grupo de cem em todo o mundo morrem por um problema cardiovascular. \u201cDessa popula\u00e7\u00e3o que falece por um problema cardiovascular, em quase metade, a causa \u00e9 a doen\u00e7a arterial coron\u00e1ria, doen\u00e7a causada pela deposi\u00e7\u00e3o de placas de gordura nas art\u00e9rias coron\u00e1rias, que s\u00e3o as art\u00e9rias que irrigam o m\u00fasculo card\u00edaco. Essas placas de gordura, em algum momento, sofrem um processo em que elas se rompem pelo estresse do fluxo de sangue e essa gordura e o material interno da placa s\u00e3o expostas para o sangue\u201d, explica o m\u00e9dico. \u201cAli se forma um co\u00e1gulo e esse co\u00e1gulo vem a entupir. A partir da\u00ed, toda a musculatura que \u00e9 irrigada por essa art\u00e9ria coron\u00e1ria morre e o cora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma bomba, dependendo da extens\u00e3o da morte do m\u00fasculo, tem um grau de disfun\u00e7\u00e3o card\u00edaca que o indiv\u00edduo pode vir a ter.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA partir de 20 minutos [do in\u00edcio da] dor no peito, come\u00e7a a ocorrer necrose, come\u00e7a a ocorrer verdadeiramente o infarto e, a partir da\u00ed, quanto mais tempo vai se passando, mais m\u00fasculo vai se perdendo\u201d, explicou o m\u00e9dico. (Ag\u00eancia Brasil)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A professora do curso de turismo da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) C\u00e9lia Maria de Moraes Dias, de 65 anos, estava dan\u00e7ando quando come\u00e7ou a sentir dores no peito. Era novembro de 2014. 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