{"id":87065,"date":"2016-05-15T19:28:21","date_gmt":"2016-05-15T22:28:21","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=87065"},"modified":"2016-05-15T19:28:21","modified_gmt":"2016-05-15T22:28:21","slug":"plataforma-online-ajuda-homossexuais-expulsos-de-casa-a-encontrar-um-lar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=87065","title":{"rendered":"Plataforma online ajuda homossexuais expulsos de casa a encontrar um lar"},"content":{"rendered":"<p>Pedro Henrique Almeida de Oliveira \u00e9\u00a0<em>gay<\/em>. Hoje ele sabe que isso \u00e9 natural e at\u00e9 sente orgulho. Mas o jovem de 23 anos precisou percorrer um longo caminho at\u00e9 chegar a esse est\u00e1gio. E seu maior obst\u00e1culo estava justamente onde ele buscaria acolhimento: em casa, com a m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u201cEla me levou para um campo de futebol e come\u00e7ou a falar. Fez um c\u00edrculo no ch\u00e3o e disse assim, com um graveto: \u2018Aqui \u00e9 a sociedade\u2019. A\u00ed fez um tri\u00e2ngulo no meio, tipo uma porcentagem: \u2018Essa margem \u00e9 a minoria, que tem\u00a0<em>gay<\/em>, ladr\u00e3o, sapat\u00e3o, tudo que n\u00e3o presta. A maioria \u00e9 a sociedade em que a gente vive. Voc\u00ea quer viver comigo na maioria ou que a minoria?\u2019\u201d, narra o morador de Cabo de Santo Agostinho, munic\u00edpio da regi\u00e3o metropolitana do Recife.<\/p>\n<p>A not\u00edcia de que Pedro era\u00a0<em>gay<\/em>\u00a0chegou at\u00e9 a m\u00e3e por meio de outra pessoa. Na \u00e9poca, com medo, ele, com 18 anos, negou que era homossexual. \u201cEu pensava o que tinha de errado comigo, o que eu era, pensava que era uma aberra\u00e7\u00e3o\u201d, recorda. Tr\u00eas meses depois tentou o suic\u00eddio, cansado de reprimir at\u00e9 a forma de andar para que ningu\u00e9m desconfiasse de sua orienta\u00e7\u00e3o sexual. Sobreviveu a tudo isso e resolveu assumir para si e para a fam\u00edlia que era\u00a0<em>gay<\/em>.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias ele vive at\u00e9 hoje. A maioria dos parentes maternos n\u00e3o fala mais com Pedro; ouviu xingamentos de v\u00e1rios deles. A madrinha parou de pagar sua faculdade de gastronomia. E n\u00e3o tardou para que sua m\u00e3e o colocasse para fora de casa pela primeira vez. O abrigo veio da av\u00f3 paterna. \u201cEla disse que jamais iria me abandonar, que jamais me deixaria sozinho. Eu esperava ouvir isso da minha m\u00e3e, mas veio de uma pessoa mais antiga. Ela deixou o amor falar mais alto.\u201d<\/p>\n<p><strong>Mona Migs<\/strong><\/p>\n<p>Pedro, atualmente estudante t\u00e9cnico de um curso de cozinheiro, conseguiu abrigo e apoio, mas milhares de jovens que s\u00e3o expulsos de casa por sua orienta\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o t\u00eam a mesma sorte. Pensando nisso, um grupo de oito estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) criou o <strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/MonaMigs\/\" target=\"_blank\"><font color=\"blue\">Mona Migs<\/font><\/a><\/strong>, uma plataforma que pretende unir homossexuais desabrigados a pessoas dispostas a ceder um espa\u00e7o tempor\u00e1rio.<\/p>\n<p>A ideia surgiu em uma competi\u00e7\u00e3o promovida pela universidade no fim de abril. Grupos de estudantes precisavam montar uma\u00a0<em>startup<\/em>\u00a0(ideia inicial de neg\u00f3cio que pode vir a gerar lucro) em 54 horas. \u201cAlguns dos integrantes passaram pela situa\u00e7\u00e3o de querer ajudar uma pessoa que havia sido expulsa de casa por conta de ser LGBT [sigla para L\u00e9sbica, Gay, Bissexual, Travesti e Transexual]. E na competi\u00e7\u00e3o aconteceu que este integrante pensou em conectar os dois lados\u201d, conta Wallace Soares, desenvolvedor da plataforma\u00a0<em>online<\/em>.<\/p>\n<p>Dispon\u00edvel no Facebook e com<em>\u00a0site<\/em>\u00a0em fase de testes, o Mona Migs deve ser inspirado num projeto de hospedagem solid\u00e1ria. \u201cNo geral, funcionar\u00e1 mais ou menos como o Couchsurfing [surfando no sof\u00e1, em portugu\u00eas]\u201d, compara B\u00e1rbara Lapa, respons\u00e1vel pela \u00e1rea de neg\u00f3cios da startup, ao mencionar um site em que as pessoas oferecem hospedagem de gra\u00e7a e podem usufruir da mesma hospitalidade.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o afetiva de Pedro com a m\u00e3e tamb\u00e9m vem mudando. A m\u00e3e est\u00e1 financiando o curso de cozinheiro no Servi\u00e7o Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), at\u00e9 que ele consiga um emprego na \u00e1rea. \u201cGostaria que fosse melhor do que \u00e9, mas cada um tem seu limite e cada um tem que respeitar. Como ela diz: ela me tolera\u201d, pondera Pedro, que estava com a m\u00e3e ao lado durante a conversa por telefone \u2013 e diante do pedido de entrevista, argumentou que precisava trabalhar. \u201cEla ainda diz que Deus vai me transformar\u201d, acrescenta o jovem, a contragosto.<\/p>\n<p><strong>Abrigo<\/strong><\/p>\n<p>Por enquanto, o projeto est\u00e1 pr\u00e9-cadastrando pessoas interessadas em fornecer abrigo. J\u00e1 s\u00e3o 15 candidatos. \u00c9 preciso informar dados pessoais e o tempo dispon\u00edvel para acolhimento. Mas v\u00e1rios detalhes ainda precisam ser determinados, principalmente quest\u00f5es de seguran\u00e7a, para assegurar que nenhum dos dois lados possa se aproveitar da plataforma de m\u00e1-f\u00e9. \u201cA pessoa vai poder conversar com a outra antes e decidir se pode confiar\u201d, diz B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>Nesta primeira fase, o Mona Migs \u00e9 voltado somente para Pernambuco, mas os estudantes pretendem expandir a ideia. Por enquanto, al\u00e9m de formatar o projeto jur\u00eddica e administrativamente, a busca \u00e9 por financiamento. Segundo os idealizadores, algumas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais j\u00e1 est\u00e3o interessadas em fazer parcerias.<\/p>\n<p><strong>Pesquisas<\/strong><\/p>\n<p>Para verificar se havia, de fato, demanda para o servi\u00e7o, os criadores do Mona Migs fizeram pesquisas pela internet e em pontos do Recife que re\u00fanem p\u00fablico LGBT. Foram mais de 500 respostas online. Eles identificaram que 75% dos homossexuais tinham medo de ser expulsos de casa e 60% disseram conhecer algu\u00e9m que j\u00e1 ficou sem abrigo. Por outro lado, 55% dos consultados afirmaram que acolheriam uma pessoa LGBT em situa\u00e7\u00e3o urgente.<\/p>\n<p>Nas ruas, foram 23 depoimentos qualitativos com resultados semelhantes. Alguns foram publicados na <em>p\u00e1gina<\/em>\u00a0do projeto. \u201cMinha m\u00e3e me perguntou se eu estava saindo com uma mulher. Contei que sim, muito assustada, sem saber como ela sabia\u201d, conta um dos relatos. \u201cDisse que eu era uma m\u00e1 influ\u00eancia para minha irm\u00e3 pequena, e n\u00e3o confiava em mim por perto. Por fim, ela disse que n\u00e3o iria tolerar isso, e que ou eu parava ou eu deveria ir embora\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum LGBT<\/strong><\/p>\n<p>O movimento organizado em Pernambuco confirma essa realidade, e elogia a iniciativa do Mona Migs, mas defende que o Estado tamb\u00e9m deve garantir a seguran\u00e7a desses jovens. \u201cTem os abrigos que j\u00e1 existem, mas n\u00e3o especificamente LGBT. E \u00e9 outro processo do preconceito que esses jovens recebem muitas vezes nesses abrigos. Por isso, temos algumas iniciativas de inser\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas com centro de abrigos para a popula\u00e7\u00e3o LGBT especificamente\u201d, conta Thiago Rocha, um dos coordenadores do F\u00f3rum LGBT de Pernambuco. \u201cTem a pauta especificamente para travestis e transexuais, que \u00e9 um caso mais urgente, que s\u00e3o as que mais sofrem quanto a isso, de expuls\u00e3o do seio familiar.\u201d<\/p>\n<p>Depois de morar com a av\u00f3 por tr\u00eas anos e em outras ocasi\u00f5es de menor tempo, intercaladas com r\u00e1pidas passagens pela casa da m\u00e3e, quando tentavam a reconcilia\u00e7\u00e3o, este ano Pedro foi recebido por uma amiga. \u201cMinha v\u00f3 j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 com sa\u00fade, n\u00e3o queria dar trabalho, e agora j\u00e1 sou um homem e preciso resolver meus problemas\u201d, justifica.<\/p>\n<p>A dist\u00e2ncia tamb\u00e9m o permitiu impor sua identidade e pedir respeito \u00e0 fam\u00edlia. A m\u00e3e est\u00e1 financiando o curso de cozinheiro no Servi\u00e7o Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), at\u00e9 que ele consiga um emprego na \u00e1rea. A rela\u00e7\u00e3o afetiva tamb\u00e9m vem mudando. \u201cGostaria que fosse melhor do que \u00e9, mas cada um tem seu limite e cada um tem que respeitar.\u201d<\/p>\n<p>Mas a diferen\u00e7a maior, talvez, seja na autoestima do estudante. \u201cSou desse jeito, sou bicha\u201d, destacou. \u201cPor onde eu ando, eu sou eu. Eu sou o Pedro.\u201d (Ag\u00eancia Brasil)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Henrique Almeida de Oliveira \u00e9\u00a0gay. Hoje ele sabe que isso \u00e9 natural e at\u00e9 sente orgulho. Mas o jovem de 23 anos precisou percorrer um longo caminho at\u00e9 chegar a esse est\u00e1gio. 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