{"id":86753,"date":"2016-05-13T14:25:03","date_gmt":"2016-05-13T17:25:03","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=86753"},"modified":"2016-05-13T14:25:03","modified_gmt":"2016-05-13T17:25:03","slug":"ribeirinhos-ao-longo-do-rio-doce-ainda-sofrem-efeitos-da-maior-tragedia-socioambiental-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=86753","title":{"rendered":"Ribeirinhos ao longo do Rio Doce ainda sofrem efeitos da maior trag\u00e9dia socioambiental do pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p>Mais de seis meses depois do rompimento da Barragem do Fund\u00e3o, em Mariana, em 5 de novembro, milhares de ribeirinhos atingidos em pequenos munic\u00edpios ao longo do Rio Doce, no Leste de Minas, ainda sofrem com os danos provocados pela maior trag\u00e9dia socioambiental da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Pescadores est\u00e3o impedidos de trabalhar, devido \u00e0 mortandade de peixes. Pequenos produtores n\u00e3o conseguem plantar ou manter suas cria\u00e7\u00f5es, porque seus terrenos foram arrasados pela lama de rejeitos de min\u00e9rio e eles n\u00e3o t\u00eam mais acesso \u00e0s \u00e1guas da bacia. A Samarco, respons\u00e1vel pela represa que se rompeu, paga mensalmente uma compensa\u00e7\u00e3o aos atingidos, mas eles reclamam que o valor n\u00e3o \u00e9 suficiente para cobrir os preju\u00edzos e dizem que nem todos foram contemplados.<\/p>\n<p>O professor e bi\u00f3logo Ricardo Motta Pinto Coelho, do Instituto de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas  da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB\/UFMG), lembra que foram milhares os atingidos pelo desastre ao longo dos 853 quil\u00f4metros  do Rio Doce, e que o pagamento em dinheiro sem que seja oferecida uma nova perspectiva de vida n\u00e3o resolve. \u201cAs pessoas atingidas pelo desastre tiveram seus empregos e seus sonhos enterrados pela lama. N\u00e3o basta indeniz\u00e1-las. \u00c9 preciso desenvolver junto com elas alternativas de sustento econ\u00f4mico ambientalmente compat\u00edvel\u201d, alerta Pinto Coelho.<\/p>\n<p>Enquanto isso n\u00e3o ocorre, pescadores recolheram suas embarca\u00e7\u00f5es e apetrechos. Prejudicados pela mortandade de toneladas de peixes, eles ainda n\u00e3o sabem como retomar\u00e3o os cursos de suas vidas e menos ainda quando e se os cardumes voltar\u00e3o a povoar as \u00e1guas. \u201cNa \u00e9poca boa, eu pescava at\u00e9 sete quilos por dia\u201d, afirma Wagner Jos\u00e9 Pereira, de 33 anos, do munic\u00edpio de Galileia. Ele conta que a ajuda mensal da Samarco \u00e9 inferior \u00e0 renda que conseguia com o trabalho. Com o sumi\u00e7o de esp\u00e9cies como cascudos, dourados, tucunar\u00e9s, til\u00e1pias e tra\u00edras, ele vive apreensivo, pois n\u00e3o sabe at\u00e9 quando continuar\u00e1 recebendo o dinheiro do \u201ccart\u00e3o da Samarco\u201d.<\/p>\n<p>Mas a lama de rejeitos  que chegou pelo leito arruinou tamb\u00e9m a vida de que vivia \u00e0s margens \u2013 pequenos agricultores, como Celiomar Ribeiro de Amorim, de 55 anos, do munic\u00edpio de Tumiritinga, de 6,7 mil habitantes. Ele conta que o terreno de quatro hectares que cultivava em uma ilha do Rio Doce foi completamente arrasado. \u201cEu plantava mandioca, hortali\u00e7as, quiabo, batata-doce, milho e outras culturas. Veio a onda de lama e aterrou tudo\u201d, lamenta Celiomar, salientando que foi formada na superf\u00edcie do terreno uma camada dura de rejeitos que, em certos pontos, chega at\u00e9 a 40 cent\u00edmetros de espessura.<\/p>\n<p>Casado e pai de dois filhos, Celiomar recebe o pagamento mensal da Samarco \u2013  um sal\u00e1rio-m\u00ednimo, acrescido de 20% por dependente (R$ 1.056) mais o valor de uma cesta b\u00e1sica, de R$ 417,72. Mas ele alega que o valor fica aqu\u00e9m da renda que obtinha com a sua produ\u00e7\u00e3o antes da trag\u00e9dia. Ele \u00e9 cadastrado como fornecedor de alimentos para a merenda escolar em Tumiritinga. \u201cEstou comprando os produtos e entregando para as escolas do mesmo jeito, para n\u00e3o perder o contrato\u201d, explica.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m de Tumiritinga, o agricultor Jo\u00e3o Ant\u00f4nio Valentim vive situa\u00e7\u00e3o pior. Ele reclama que, por causa da lama, teve que interromper o plantio na pequena gleba \u00e0s margens do Rio Doce, da qual tirava seu sustento. At\u00e9 hoje n\u00e3o recebe nada da mineradora. \u201cTentei fazer o cadastro, mas n\u00e3o consegui nada\u201d, reclama ele, que cultivava milho, feij\u00e3o e hortali\u00e7as na \u00e1rea de cinco hectares, situada pr\u00f3ximo ao ponto em que o Rio Caratinga des\u00e1gua no Doce.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/tragedia_rio_doce_ribeirinhos_1.jpg\" alt=\"\" \/><em>Gado sedento pisoteia a lama nas margens do manancial, que foi cercado por criadores para evitar que animais bebam a \u00e1gua (foto: Charles Albert\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Com sede ao lado do leito<\/strong><\/p>\n<p>A mesma lama que sufocou planta\u00e7\u00f5es e esterilizou o solo prejudica os animais ao longo do Rio Doce. A lama da Barragem do Fund\u00e3o afetou tamb\u00e9m criadores de gado nas propriedades ao longo do curso. Devido \u00e0 polui\u00e7\u00e3o, eles se viram impedidos de usar a \u00e1gua do rio at\u00e9 mesmo para matar a sede dos rebanhos. Tamb\u00e9m passaram a enfrentar problemas para a alimenta\u00e7\u00e3o das reses, pois as pastagens das vazantes ou pr\u00f3ximas \u00e0s barrancas do rio foram devastadas ou contaminadas.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 enfrentado em Galileia, de 6,9 mil habitantes. O presidente do sindicato dos produtores rurais do munic\u00edpio, Francisco S\u00e1vio Martins Nacif, salienta que a Samarco fez um levantamento dos danos e passou a fornecer ra\u00e7\u00e3o para que criadores mantivessem seus rebanhos, providenciando tamb\u00e9m caminh\u00e3o-pipa para levar \u00e1gua pot\u00e1vel at\u00e9 as propriedades. \u201cA situa\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o est\u00e1 totalmente normalizada. Acho que a maior dificuldade enfrentada \u00e9 a falta de confian\u00e7a das pessoas, que ficam em d\u00favida se os alimentos produzidos na regi\u00e3o t\u00eam contamina\u00e7\u00e3o\u201d, diz Nacif. Ele se preocupa com a amea\u00e7a de contamina\u00e7\u00e3o por metais pesados na \u00e1gua do Rio Doce. \u201cNosso temor maior \u00e9 com as consequ\u00eancias futuras, se essa polui\u00e7\u00e3o poder\u00e1 causar doen\u00e7as. Somente com o passar dos anos vamos saber isso\u201d, diz o sindicalista.<\/p>\n<p><strong>No Po\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>A degrada\u00e7\u00e3o criou uma situa\u00e7\u00e3o antes impens\u00e1vel: produtores instalados \u00e0s margens de um dos maiores rios do pa\u00eds foram obrigados a perfurar po\u00e7os em suas propriedades para manter os rebanhos. Alguns deles, como Bruno Cardoso, de Galileia, tiveram at\u00e9 que cercar a margem do Rio Doce, para impedir que o gado consumisse a \u00e1gua que considera \u201cenvenenada\u201d.<\/p>\n<p>Outros foram obrigados a vender os animais. Um deles foi o pequeno produtor Rulian Costa Marquiori, do munic\u00edpio de Resplendor, que criava em torno de 10 reses em um terreno de oito hectares \u00e0s margens do rio. A lama de rejeitos o for\u00e7ou a acabar com a cria\u00e7\u00e3o. \u201cO pasto acabou e a \u00e1gua do rio ficou polu\u00edda e n\u00e3o podia mais ser consumida pelo gado\u201d, relata Rulian, que mant\u00e9m um a\u00e7ougue na cidade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/tragedia_rio_doce_ribeirinhos_2.jpg\" alt=\"\" \/><em>Perfura\u00e7\u00e3o de po\u00e7os \u00e9 uma das apostas para tentar manter cria\u00e7\u00f5es (foto: Charles Albert\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><em>(Fonte: Estado de Minas \/ Rep\u00f3rter: Luiz Ribeiro)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais de seis meses depois do rompimento da Barragem do Fund\u00e3o, em Mariana, em 5 de novembro, milhares de ribeirinhos atingidos em pequenos munic\u00edpios ao longo do Rio Doce, no Leste de Minas, ainda sofrem com os danos provocados pela maior trag\u00e9dia socioambiental da hist\u00f3ria do pa\u00eds. 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