{"id":85891,"date":"2016-05-05T11:13:15","date_gmt":"2016-05-05T14:13:15","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=85891"},"modified":"2016-05-05T11:13:15","modified_gmt":"2016-05-05T14:13:15","slug":"distritos-de-mariana-vao-virar-museu-para-que-tragedia-nao-seja-esquecida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=85891","title":{"rendered":"Distritos de Mariana v\u00e3o virar museu para que trag\u00e9dia n\u00e3o seja esquecida"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 seis meses, a lama varreu do mapa o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG). A trag\u00e9dia do dia 5 de novembro de 2015 segue viva na mem\u00f3ria de quem viu im\u00f3veis e pertences sendo levados pelos rejeitos da barragem da mineradora Samarco. \u201cNingu\u00e9m esquece. Tem gente que ainda precisa de psic\u00f3logo. O trauma \u00e9 grande\u201d, conta Ant\u00f4nio Pereira, 47 anos, representante das fam\u00edlias atingidas na comiss\u00e3o formada para negociar a assist\u00eancia com a mineradora.<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo s\u00e1bado (7), os moradores de Bento Rodrigues v\u00e3o fazer uma vota\u00e7\u00e3o para escolher o terreno onde ser\u00e1 reerguido o distrito. H\u00e1 tr\u00eas propostas, mas Ant\u00f4nio Pereira confessa que uma delas dever\u00e1 ter a ades\u00e3o de pelo menos 80% das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Apesar da ansiedade para o in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o do novo Bento Rodrigues, os moradores n\u00e3o querem se desfazer do v\u00ednculo que tinham com o antigo local onde viviam. \u201c\u00c9 uma comunidade fundada por bandeirantes. Eu nasci ali, meus av\u00f3s nasceram e se criaram ali. A gente lembra at\u00e9 dos nossos bisav\u00f4s. O novo Bento Rodrigues n\u00e3o ser\u00e1 o Bento Rodrigues antigo. Ter\u00e1 outra hist\u00f3ria. E n\u00f3s queremos manter a mem\u00f3ria do que vivemos antes. As pessoas querem continuar lembrando, contando para os seus filhos e netos\u201d, diz Ant\u00f4nio Pereira.<\/p>\n<p>O desejo dos moradores chegou ao Conselho Municipal do Patrim\u00f4nio Cultural (Compat). Na semana passada, o tombamento dos distritos de Bento Rodrigues e Paracatu foram aprovados por unanimidade. O processo deve levar entre seis meses e um ano para ser conclu\u00eddo, mas a ideia \u00e9 fazer do local um espa\u00e7o museol\u00f3gico e cultural.<\/p>\n<p>\u201cVamos preservar as manifesta\u00e7\u00f5es culturais, o estilo de vida, a rela\u00e7\u00e3o das pessoas com o espa\u00e7o e um patrim\u00f4nio material importante que precisa receber cuidados\u201d, explica Ana Cristina de Souza Maia, presidente do Compat. O Portal do Patrim\u00f4nio Cultural, que re\u00fane os invent\u00e1rios de bens culturais materiais e imateriais de Minas Gerais, traz quatro registros dos distritos atingidos pela trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Bento Rodrigues tinha duas rel\u00edquias do s\u00e9culo 18: a Igreja de Nossa Senhora das Merc\u00eas e a Igreja de S\u00e3o Bento. Essa \u00faltima, segundo relatos, foi toda levada pela lama de rejeitos.  J\u00e1 em Paracatu, s\u00e3o inventariados a Capela de Santo Ant\u00f4nio e a Folia de Reis. Sempre no in\u00edcio do ano, a festa tradicional mobilizava os moradores do distrito.<\/p>\n<p>A forma como o museu ir\u00e1 se instalar no espa\u00e7o ainda vai ser objeto de estudo e discuss\u00e3o por arque\u00f3logos, muse\u00f3logos, arquitetos, historiadores. Uma das ideias \u00e9 inspirada nos \u201cmuseus do territ\u00f3rio\u201d, que j\u00e1 existem em outras cidades hist\u00f3ricas como Parati (RJ). Seu objetivo \u00e9 documentar, interpretar e comunicar o processo de transforma\u00e7\u00e3o territorial de uma localidade e seu modelo se diferencia do museu tradicional. A \u00eanfase recai no espa\u00e7o e na comunidade e n\u00e3o no edif\u00edcio institucional e nos visitantes.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/barragem_samarco_3.jpg\" alt=\"\" \/><em>Lama varreu do mapa o distrito de Bento Rodrigues (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o TV Globo)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Memorial da trag\u00e9dia<\/strong><\/p>\n<p>Se ainda h\u00e1 muito o que ser discutido acerca do projeto, uma quest\u00e3o \u00e9 certa: haver\u00e1 tamb\u00e9m espa\u00e7o para relembrar o desastre. &#8220;A trag\u00e9dia faz parte da vida das pessoas que viviam l\u00e1. E a hist\u00f3ria delas foi totalmente alterada. Ent\u00e3o, preservar a mem\u00f3ria cultural dessas pessoas \u00e9 tamb\u00e9m falar da trag\u00e9dia&#8221;, afirma Ana Cristina.<\/p>\n<p>A lembran\u00e7a daquele 5 de novembro de 2015 \u00e9 recorrente para Ant\u00f4nio Pereira. Ele estava no centro de Mariana (MG), mas ao receber not\u00edcias do rompimento da barragem voltou imediatamente ao distrito. Ant\u00f4nio se recorda que ajudou no resgate de uma crian\u00e7a e uma idosa. Segundo conta, o memorial da trag\u00e9dia tem o apoio dos moradores. \u201cSen\u00e3o daqui a pouco a empresa faz uma nova barragem no local. E n\u00e3o queremos isso. S\u00e3o mais de 300 anos de hist\u00f3ria naquele lugar que a minera\u00e7\u00e3o destruiu. E isso n\u00e3o pode ser esquecido\u201d, diz.<\/p>\n<p>Se por um lado as lembran\u00e7as individuais provavelmente ser\u00e3o carregadas pelas v\u00edtimas por toda a vida, por outro, o desafio de construir uma mem\u00f3ria coletiva permanente n\u00e3o \u00e9 dos mais f\u00e1ceis. E esse \u00e9 tamb\u00e9m o objetivo do Compat.  &#8220;A exemplo do Memorial de Hiroshima, no Jap\u00e3o, ou das Torres G\u00eameas, nos Estados Unidos. S\u00e3o exatamente para isso: em nome da mem\u00f3ria e para que n\u00e3o se repita&#8221;, reitera Ana Cristina.<\/p>\n<p>O rompimento da barragem da Samarco \u00e9 considerado a maior trag\u00e9dia ambiental da hist\u00f3ria do Brasil. Al\u00e9m de destruir a vegeta\u00e7\u00e3o nativa e de poluir a bacia do Rio Doce, o epis\u00f3dio deixou 19 mortos.  Para o historiador Alfredo Ricardo, autor de pesquisas sobre mem\u00f3ria de desastres ambientais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),  a trag\u00e9dia de Mariana n\u00e3o pode ser entendida como excepcional e imposs\u00edvel de se repetir. \u201cSe n\u00e3o lembrarmos conscientemente, lembraremos como um susto, na pr\u00f3xima vez que a gan\u00e2ncia ditar as regras da explora\u00e7\u00e3o ambiental\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Segundo Alfredo Ricardo, rememorar equ\u00edvocos que j\u00e1 ocorreram n\u00e3o garante um acerto no futuro. No entanto, as iniciativas que preservam a mem\u00f3ria coletiva sobre esses erros s\u00e3o um primeiro passo para se desviar deles. \u201cCat\u00e1strofes certamente acontecer\u00e3o, entretanto cabe \u00e0 sociedade como um todo buscar diminuir ou anular o impacto delas. O memorial \u00e9 uma intencionalidade materializada e tem o objetivo de lembrar o que alguns querem esquecer\u201d.<\/p>\n<p><strong>Mem\u00f3ria fotogr\u00e1fica<\/strong><\/p>\n<p>A mem\u00f3ria da trag\u00e9dia ser\u00e1 mostrada neste m\u00eas em uma exposi\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica organizada pelo Corpo de Bombeiro de Minas Gerais. A mostra Paisagens que Transformam ocorrer\u00e1 no Museu dos Militares Mineiros entre 16 e maio e 17 de junho. Ela retratar\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o dos bombeiros e policiais que atuaram ap\u00f3s o desastre.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m haver\u00e1 imagens voltadas para uma compara\u00e7\u00e3o entre o antes e o depois, permitindo observar a transforma\u00e7\u00e3o da paisagem. A sala da exposi\u00e7\u00e3o estar\u00e1 ambientada cenograficamente com objetos que remetem ao desastre de Mariana.<\/p>\n<p><strong>Repara\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A repara\u00e7\u00e3o social e ambiental da trag\u00e9dia teve nesta semana novos cap\u00edtulos. Na segunda-feira (2), o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) impetrou a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, em que estima o valor dos preju\u00edzos em R$ 155 bilh\u00f5es.  O c\u00e1lculo foi feito baseado na compara\u00e7\u00e3o com a explos\u00e3o da plataforma Deepwater Horizon, ocorrida em 2010 no Golfo do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Os procuradores respons\u00e1veis pela a\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m criticam o acordo entre as mineradoras, o governo federal e os governos de Minas Gerais e do Esp\u00edrito Santo. Segundo eles, as medidas s\u00e3o insuficientes. O acordo prev\u00ea o aporte de aproximadamente R$ 20 bilh\u00f5es ao longo de 20 anos, um valor bem inferior aos R$ 155 bilh\u00f5es pedidos na a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o h\u00e1 defini\u00e7\u00e3o judicial sobre os detalhes da repara\u00e7\u00e3o, os antigos moradores dos distritos v\u00eam recebendo ajuda baseada na solidariedade. Em mar\u00e7o, as fam\u00edlias come\u00e7aram a ter acesso \u00e0 verba de R$ 1,1 milh\u00e3o, valor acumulado nas contas banc\u00e1rias abertas pela prefeitura de Mariana para receber doa\u00e7\u00f5es de todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Um novo refor\u00e7o est\u00e1 perto de se materializar. Parte do dinheiro arrecadado em um show da banda norte-americana Pearl Jam dever\u00e1 chegar aos produtores rurais atingidos pelo desastre de Mariana, por meio de projetos de recupera\u00e7\u00e3o e cursos de qualifica\u00e7\u00e3o. S\u00e3o R$ 120 mil. O assunto foi tratado em uma reuni\u00e3o da Ag\u00eancia de \u00c1guas da Bacia do Rio Doce (Ibio) ocorrida h\u00e1 duas semanas. Ter\u00e1 in\u00edcio nos pr\u00f3ximos dias um projeto baseado na agricultura sustent\u00e1vel e voltado para a recupera\u00e7\u00e3o produtiva e ambiental na regi\u00e3o dos distritos afetados.<\/p>\n<p>O Pearl Jam fez um show no est\u00e1dio Mineir\u00e3o, em Belo Horizonte, em 20 novembro de 2015. Na ocasi\u00e3o, a banda anunciou a doa\u00e7\u00e3o de parte da bilheteria para projetos que contribu\u00edssem para reduzir os impactos do rompimento da barragem. A Vitalogy Foundation, bra\u00e7o social da banda, selecionou tr\u00eas entidades brasileiras para receber os recursos. A Ibio foi uma delas.<\/p>\n<p><em>(Fonte: Ag\u00eancia Brasil)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 seis meses, a lama varreu do mapa o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG). A trag\u00e9dia do dia 5 de novembro de 2015 segue viva na mem\u00f3ria de quem viu im\u00f3veis e pertences sendo levados pelos rejeitos da barragem da mineradora Samarco. \u201cNingu\u00e9m esquece. Tem gente que ainda precisa de psic\u00f3logo. 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