{"id":85087,"date":"2016-04-23T17:56:10","date_gmt":"2016-04-23T20:56:10","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=85087"},"modified":"2016-04-23T17:56:10","modified_gmt":"2016-04-23T20:56:10","slug":"conheca-a-historia-do-mineiro-natural-de-itaobim-que-mora-dentro-de-um-fusca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=85087","title":{"rendered":"Conhe\u00e7a a hist\u00f3ria do mineiro natural de Itaobim que mora dentro de um fusca"},"content":{"rendered":"<p>Foram muitas idas e vindas pelas estradas do Brasil e de alguns cantos do mundo at\u00e9 que Lourival Silva Teixeira, de 61 anos, natural de Itaobim, no Vale do Jequitinhonha, decidisse estacionar o carro e puxar o freio de m\u00e3o. H\u00e1 \u201cquatro, cinco anos\u201d, n\u00e3o se lembra mais com exatid\u00e3o, o ex-operador de guindastes e motorista de carretas parou o seu Fusca sob uma \u00e1rvore, num bairro de Santa Luzia, na Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte, e deixou o tempo ultrapassar, sem pensar no conforto de casa, aconchego da fam\u00edlia e aspectos bem pr\u00e1ticos da vida, como CEP e contas de \u00e1gua e luz. Quando algu\u00e9m pergunta onde mora, Lourival, conhecido como Penosa, aponta o ve\u00edculo verde-claro e responde: \u201c\u00c9 ali\u201d. E \u00e9 ali mesmo, porque no interior do modelo 1983 tem roupas de cama e banho, com espa\u00e7o suficiente para camisas sociais, discos de vinil, sapatos, produtos de higiene e um extenso \u201cetc\u201d.<\/p>\n<p>Com 1,60 metro de altura e pesando 45 quilos \u2013 \u201cem outras \u00e9pocas, cheguei aos 60\u201d, orgulha-se \u2013, Lourival se encaixa perfeitamente no Fusca, apelidado de Pois \u00e9. Para dormir, ele desce o banco do carona e estica o colchonete, retirando cobertor, colcha e travesseiro do bagageiro ao fundo. Se vem a vontade de ler, basta abrir o porta-luvas, uma verdadeira caixinha de surpresas: l\u00e1 tem B\u00edblia, gravatas, rem\u00e9dios&#8230; Se a vida imita a arte ou a arte imita a vida, ningu\u00e9m foi capaz ainda de responder, mas, sem d\u00favida, a hist\u00f3ria de Lourival, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, se parece muito com a da inglesa interpretada pela atriz Maggie Smith no filme A senhora da van (The lady in the van), em cartaz na cidade.<\/p>\n<p>Lourival n\u00e3o viu o filme. H\u00e1 muito n\u00e3o vai ao cinema. Mas sabe que sua trajet\u00f3ria renderia p\u00e1ginas de livro, talvez um bom roteiro. At\u00e9 estacionar na Rua Coronel Galv\u00e3o quase esquina com a Rua S\u00e3o Francisco, no Bairro Santa Matilde, ele provou do doce e do amargo, com doses maiores no segundo prato. Puxando pelo fio da mem\u00f3ria, conta que o estopim foi um desentendimento familiar, que o deixou sem eira nem beira. Pior: sem endere\u00e7o. Com uma vida estruturada, embora n\u00e3o negue que tenha passado oito meses no programa de recupera\u00e7\u00e3o Alco\u00f3licos An\u00f4nimos, Lourival relata que tinha lotes, os quais foram invadidos, e hoje se bate na Justi\u00e7a para reaver seu peda\u00e7o de ch\u00e3o. E por que tudo isso aconteceu? A resposta que tem \u00e9 bem simples: \u201cAs coisas acontecem\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto a vida n\u00e3o engata uma primeira, o homem de barba comprida e cabelos fartos, sem um fio branco na cabe\u00e7a, vive da caridade alheia. \u00c9 um vizinho que serve um prato de comida, o comerciante que n\u00e3o cobra pelo cigarro picado, outro morador pronto para ajudar no que pode&#8230; O banheiro \u00e9 o de um bar, de porta branca, no bairro que ele conhece bem, pois residiu l\u00e1 h\u00e1 alguns anos antes de dar seta e estacionar.<\/p>\n<p>Se lhe faltam posses, n\u00e3o \u00e9 raro v\u00ea-lo rodeado de amigos. Alguns levam at\u00e9 cadeira para ouvir os casos. \u201cTrabalhei em Caiena (capital da Guiana Francesa), estive na Serra do Navio (AP), no Monte Roraima e no Iraque, sempre operando guindastes pesados, de 300 toneladas\u201d, gaba-se o hoje solit\u00e1rio morador do Fusca. Como um recado do destino, a placa do ve\u00edculo traz o nome Porto Firme, munic\u00edpio da Zona da Mata. \u201cAntes, o carro ficava uns metros mais abaixo, at\u00e9 que uma \u00e1rvore caiu e tive que me mudar. N\u00e3o tenho medo de ficar aqui, confio em Deus. S\u00f3 uma vez, no meio da noite, acordei com um cara dizendo que ia p\u00f4r fogo no Pois \u00e9, mas nada aconteceu. Afinal, n\u00e3o mexo com ningu\u00e9m\u201d, explica, mineiramente.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/dorme_no_fusca_1.jpg\" alt=\"\" \/><em>Lourival Silva Teixeira, de 61 anos, o Penosa (Foto: Beto Novaes\/EM\/DA.Press)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Marcas da vida<\/strong> <\/p>\n<p>Se escapou das chamas, devido ao sol pleno o verde da lataria do Pois \u00e9 j\u00e1 vai perdendo o brilho, o que n\u00e3o desencoraja o olhar de carinho de Penosa \u2013 o apelido vem do gosto que ele tinha, sempre na volta das viagens, \u201cdo Oiapoque ao Chu\u00ed\u201d, de preparar o popular galop\u00e9. \u201cEu chegava e o povo j\u00e1 dizia: \u2018Vamos pegar uma penosa (galinha)\u2019\u201d, diverte-se. Passada a \u00e9poca das viagens, o ex-motorista lamenta j\u00e1 n\u00e3o poder sair com o carro, ainda no nome do antigo propriet\u00e1rio. \u201cAl\u00e9m disso, preciso renovar meus documentos\u201d, diz, mostrando a primeira carteira de habilita\u00e7\u00e3o, datada de 15 de abril de 1979. Mas nem tudo parou no tempo: Penosa tem seus compromissos, vai regularmente ao dentista e ao m\u00e9dico, em BH. Se h\u00e1 necessidade de sair mais arrumado, pega a cal\u00e7a social no banco de tr\u00e1s e pede a algu\u00e9m para passar. S\u00f3 a vida amorosa, garante, saiu de cena.<\/p>\n<p>Diante do castigo de sol e chuva, como prote\u00e7\u00e3o do interior da \u201cresid\u00eancia\u201d h\u00e1 peda\u00e7os de papel\u00e3o nos vidros; do lado de fora, sobre a entrada de ar, entre o para-brisa e o cap\u00f4, Pois \u00e9 exibe uma telha de cer\u00e2mica. \u201c\u00c9 para n\u00e3o passar \u00e1gua de chuva. No porta-malas, guardo minhas ferramentas\u201d, explica, no momento em que aponta tamb\u00e9m uma marca no para-choque dianteiro: \u201cFoi coice de uma \u00e9gua\u201d.<\/p>\n<p>Nas suas andan\u00e7as de \u201ccigano\u201d, Lourival viu que \u201co ser humano, viajando, aprende\u201d. E, entre viagens e aprendizado, o rosto oscila em meio a momentos de profunda tristeza, rasgos de alegria e pontos de interroga\u00e7\u00e3o. De repente, Lourival busca os \u00f3culos de grau \u2013, filosofa e se declara \u201cum cat\u00f3lico, apost\u00f3lico, romano\u201d que n\u00e3o renega outras religi\u00f5es. Com a B\u00edblia na m\u00e3o e voz empostada, l\u00ea um trecho do Salmo 91: \u201cAquele que habita no esconderijo do Alt\u00edssimo, \u00e0 sombra do Onipotente descansar\u00e1\u201d. Em seguida, p\u00f5e lentes redondas e escuras, \u00e0 Raul Seixas, senta-se numa cadeira azul e abre os bra\u00e7os, numa celebra\u00e7\u00e3o \u00e0 vida.<\/p>\n<p><strong>Poesia e saudade<\/strong><\/p>\n<p>A m\u00fasica tem lugar de destaque no Fusca \u2013 e na vida de Penosa. Na frente, est\u00e3o enfileirados discos de vinil de Roberto Carlos, Paulinho da Viola, Maria Beth\u00e2nia, Simone, trilhas de antigas novelas, de Roxette, dupla pop sueca, e do cantor portugu\u00eas Francisco Jos\u00e9. \u201cTem tamb\u00e9m muitas fitas cassete por a\u00ed\u201d, conta Lourival, que, na procura, encontra um dicion\u00e1rio grosso. O volume \u00e9 a deixa para ele contar mais sobre seis d\u00e9cadas de vida.<\/p>\n<p>Lourival perdeu a m\u00e3e cedo, foi criado pelos av\u00f3s em BH e estudou nas escolas estaduais Bar\u00e3o de Maca\u00fabas, na Floresta, e Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, em Santa Tereza, ambas na Regi\u00e3o Leste. Completou s\u00f3 o antigo prim\u00e1rio, mas mostra que foi bom em portugu\u00eas. Tanto que recita, sem errar, os versos da poesia B\u00e1rbara bela, de Alvarenga Peixoto (1744-1792): \u201cB\u00e1rbara bela\/do Norte estrela\/que o meu destino\/sabes guiar\/de ti ausente\/triste, somente\/as horas passo\/a suspirar\u201d.<\/p>\n<p>Pausa e mais um cap\u00edtulo da hist\u00f3ria. Aos 22 anos, Lourival conta que foi trabalhar numa grande empresa de guindastes e transportes. Casou-se no ano seguinte. Dessa uni\u00e3o, foram duas filhas e um filho; outra gerou cinco filhas. Ao falar da fam\u00edlia, com a qual diz n\u00e3o manter contato, Lourival fecha os olhos. \u201cSente saudade?\u201d, pergunta o rep\u00f3rter, que n\u00e3o ouve palavras, apenas v\u00ea l\u00e1grimas sentidas. Enxugando os olhos, Lourival lembra que completar\u00e1 62 anos no pr\u00f3ximo dia 30. Tudo o que quer de presente \u00e9 um abra\u00e7o.<\/p>\n<p>O comerciante Jo\u00e3o da Cruz de Oliveira, propriet\u00e1rio do Bar do Jo\u00e3o, a quem Penosa considera \u201cum pai\u201d, acredita que viver assim \u00e9 muito triste. Dono de um dep\u00f3sito de material de constru\u00e7\u00e3o, Ronaldo Otoni Ar\u00eades diz que Lourival \u00e9 muito \u201cgente boa\u201d e trabalhou para ele como carreteiro. Morador de casa em frente do Fusca, o aposentado Ant\u00f4nio Donizete de Oliveira o olha com simpatia e n\u00e3o entende o porqu\u00ea de uma situa\u00e7\u00e3o como essa.<\/p>\n<p>Morando a poucos metros de Penosa, a professora de hist\u00f3ria Haid\u00ea Mendes conta que viu o filme A senhora da van e logo identificou semelhan\u00e7as entre os tipos, mas com uma diferen\u00e7a marcante: \u201cMeu vizinho fez v\u00e1rios amigos aqui, ao contr\u00e1rio da inglesa Mary Shepherd, que muitos n\u00e3o toleravam\u201d. Com seu jeito manso, Lourival avisa que gostaria de recuperar o lote, vender o Pois \u00e9 e construir dois c\u00f4modos e um banheiro. \u201cTenho esperan\u00e7a\u201d, confessa.<\/p>\n<p><strong>V\u00eddeo:<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_1_p3zP6jpA\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>A arte e a vida<\/strong><\/p>\n<p><em>Atriz de primeira grandeza, a inglesa Maggie Smith, de 81 anos, \u00e9 mais conhecida pelos pap\u00e9is de mulheres finas, aristocr\u00e1ticas, com um qu\u00ea de arrog\u00e2ncia e altivez. Mas no filme A senhora da van, do diretor Nicholas Hytner, ela desconstr\u00f3i totalmente essa imagem, encarnando com a costumeira sensibilidade a personagem que viveu por 15 anos dentro do seu ve\u00edculo, no bairro londrino de Camden Town, mantendo um segredo que \u00e9 de bom tom n\u00e3o revelar. Um escritor a observa, a tolera e relata sua vida. A hist\u00f3ria se passa nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980. Hoje, bem longe, do outro lado do Atl\u00e2ntico, o mineiro Lourival tamb\u00e9m faz do carro o lar onde abriga lembran\u00e7as, segredos, hist\u00f3rias e \u2013 claro \u2013 esperan\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>(<strong>Fonte:<\/strong> Estado de Minas \/ <strong>Rep\u00f3rter:<\/strong> Gustavo Werneck)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foram muitas idas e vindas pelas estradas do Brasil e de alguns cantos do mundo at\u00e9 que Lourival Silva Teixeira, de 61 anos, natural de Itaobim, no Vale do Jequitinhonha, decidisse estacionar o carro e puxar o freio de m\u00e3o. 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