{"id":81100,"date":"2016-03-08T16:26:56","date_gmt":"2016-03-08T19:26:56","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=81100"},"modified":"2016-03-08T16:26:56","modified_gmt":"2016-03-08T19:26:56","slug":"mulheres-lutam-por-igualdade-mas-problemas-historicos-persistem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=81100","title":{"rendered":"Mulheres lutam por igualdade, mas problemas hist\u00f3ricos persistem"},"content":{"rendered":"<p>O feminismo tem ganhado cada vez mais for\u00e7a na sociedade brasileira. Na internet e nas ruas, mais brasileiras est\u00e3o se manifestando em defesa da igualdade de g\u00eanero e do fim da viol\u00eancia. No ano passado, a Marcha das Margaridas e a das Mulheres Negras levaram milhares de militantes a Bras\u00edlia para pedir melhorias para a vida de 51,4% da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>A secret\u00e1ria de Autonomia Feminina da Secretaria de Pol\u00edtica para as Mulheres, Tatau Godinho, avalia o que o fen\u00f4meno \u00e9 muito positivo para o combate ao machismo do dia a dia. \u201cEstamos assistindo a uma camada imensa de mulheres jovens darem um novo impulso \u00e0 ideia de que a igualdade entre mulheres e homens \u00e9 uma coisa legal, fundamental para se ter uma sociedade moderna, e que o feminismo n\u00e3o \u00e9 uma pauta antiga, est\u00e1 nas quest\u00f5es cotidianas\u201d, disse.<\/p>\n<p>Apesar da populariza\u00e7\u00e3o do debate, as brasileiras ainda precisam encarar problemas como as desigualdades salariais, a pouca representatividade pol\u00edtica e a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Tatau Godinho destaca que um dos principais obst\u00e1culos a ser superado \u00e9 a desigualdade no mercado de trabalho. \u201cAs mulheres t\u00eam mais dificuldade de entrar e de chegar a cargos de chefia, e ganham menos que homens cumprindo a mesma fun\u00e7\u00e3o. O machismo faz com que mulheres sejam discriminadas no acesso aos melhores cargos\u201d, avalia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/feminismo_br.jpg\" alt=\"\" \/><em>Na internet e nas ruas, mais brasileiras est\u00e3o se manifestando em defesa da igualdade de g\u00eanero e do fim da viol\u00eancia &#8211; Foto: Marcello Casal Jr \/ Arquivo Ag\u00eancia Brasil<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Apesar de estudarem mais que os homens, elas encontram uma s\u00e9rie de barreiras no ambiente profissional. \u201cElas t\u00eam mais dificuldade de ingressar no mercado. Em torno de 50% das brasileiras est\u00e3o ocupadas ou procurando emprego, enquanto a taxa de participa\u00e7\u00e3o dos homens \u00e9 de 80%. \u00c9 uma dist\u00e2ncia muito grande. N\u00e3o combina com o s\u00e9culo 21, n\u00e3o parece ser do nosso tempo essa informa\u00e7\u00e3o. E tem mais, as que conseguem entrar, t\u00eam empregos mais prec\u00e1rios\u201d, avalia a t\u00e9cnica de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), Nat\u00e1lia de Oliveira Fontoura.<\/p>\n<p>Segundo estudo da Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o do Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), o sal\u00e1rio m\u00e9dio de uma mulher brasileira com educa\u00e7\u00e3o superior representa 62% do de um homem com a mesma escolaridade.<\/p>\n<p>De acordo com o Ipea, a renda m\u00e9dia dos homens brasileiros, em 2014, chegava a R$ 1.831,30. Entre as mulheres brancas, a renda m\u00e9dia correspondia a 70,4% do sal\u00e1rio deles: R$ 1.288,50. J\u00e1 entre as mulheres negras, a m\u00e9dia salarial era R$ 945,90.<\/p>\n<p>Segundo a especialista do Ipea, um dos componentes que explica a diferen\u00e7a de rendimentos entre homens e mulheres \u00e9 o fato de elas ocuparem espa\u00e7os menos valorizados. \u201cOs cursos em que as mulheres s\u00e3o mais de 90% dos alunos, como pedagogia, se traduzem em sal\u00e1rios mais baixos no mercado. E os cursos em que eles s\u00e3o a maioria, como as engenharias e ci\u00eancias exatas, t\u00eam os sal\u00e1rios mais altos. H\u00e1 uma divis\u00e3o sexual do conhecimento\u201d, explica.<\/p>\n<p>Especialista no assunto, Nat\u00e1lia ressalta que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender a dificuldade das mulheres de entrar no mercado de trabalho sem pensar que, via de regra, no Brasil, recai sobre elas toda a atribui\u00e7\u00e3o do trabalho reprodutivo, que inclui os afazeres dom\u00e9sticos n\u00e3o remunerados e os cuidados com a fam\u00edlia, uma sobrecarga que dificulta a evolu\u00e7\u00e3o nos ambientes profissionais.<\/p>\n<p>\u201cA responsabiliza\u00e7\u00e3o feminina sobre o trabalho reprodutivo explica a inser\u00e7\u00e3o de mulheres de forma mais prec\u00e1ria no mercado de trabalho, por exemplo com jornadas menores, empregos informais e renda menor.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), em 2014, 90,7% das mulheres ocupadas realizavam afazeres dom\u00e9sticos e de cuidados \u2013 entre os homens, esse percentual era 51,3%.<\/p>\n<p>A pesquisadora defende que n\u00e3o d\u00e1 para pensar na solu\u00e7\u00e3o para o problema como um arranjo privado. \u201cHoje no Brasil a gente entende que as fam\u00edlias t\u00eam que se virar e, dentro das fam\u00edlias, s\u00e3o as mulheres que geralmente se responsabilizam. Isso \u00e9 uma sobrecarga para as mulheres e vai impedir que participem da vida social, tenham mais bem-estar, participem da vida pol\u00edtica e sindical, \u00e9 um impeditivo para que mulheres ocupem uma s\u00e9rie de espa\u00e7os sociais.\u201d<\/p>\n<p>\u201cPara que a sociedade se reproduza e toda a popula\u00e7\u00e3o tenha bem-estar, algu\u00e9m tem que garantir o cuidado a crian\u00e7as e idosos. A quem cabe?\u201d.<\/p>\n<p>Ela analisa que \u00e9 importante que haja uma mudan\u00e7a cultural para que o trabalho n\u00e3o remunerado seja visto como obriga\u00e7\u00e3o de todos e que haja divis\u00e3o das tarefas com os homens e com os filhos. Ela ressalta, entretanto, que n\u00e3o se pode ficar esperando.<\/p>\n<p>\u201cO Estado precisa assumir esse papel e oferecer servi\u00e7os \u2013 tem que ter creche, educa\u00e7\u00e3o integral, transporte escolar, mais de uma refei\u00e7\u00e3o nas escolas, institui\u00e7\u00e3o para atendimento de idosos, visitas domiciliares \u2013, \u00e9 um leque de pol\u00edticas p\u00fablicas de cuidado que s\u00f3 estamos engatinhando. N\u00e3o \u00e9 uma agenda do Brasil hoje.\u201d<\/p>\n<p>A iniciativa privada tamb\u00e9m pode colaborar. \u201cA gente ouve casos bem-sucedidos de maior flexibiliza\u00e7\u00e3o [de carga hor\u00e1ria], promo\u00e7\u00e3o da igualdade, co-responsabiliza\u00e7\u00e3o das empresas. Mas, se n\u00e3o houver uma legisla\u00e7\u00e3o para que as empresas sejam chamadas e obrigadas a compartilhar essa responsabilidade, n\u00e3o vai acontecer.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Tatau Godinhho, a SPM trabalha com iniciativas que contribuem para a melhoria das condi\u00e7\u00f5es da mulher no mercado trabalho. \u201cAs mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o das trabalhadoras dom\u00e9sticas, por exemplo, significou uma melhoria do rendimento e das condi\u00e7\u00f5es de trabalho dessas mulheres. Por outro lado, trabalhamos muito com as pol\u00edticas que o governo vem desenvolvendo para o aumento de formaliza\u00e7\u00e3o do trabalho feminino. Quanto mais formal, melhor pago e estruturado. A informalidade \u00e9 um elemento extremamente forte na desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho feminino e na perda de rendimentos.\u201d<\/p>\n<p><strong>O poder ainda \u00e9 deles<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de o Brasil ter escolhido uma mulher para Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, os cargos eletivos e os partidos pol\u00edticos ainda s\u00e3o dominados por homens. O Brasil est\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o 154 em um ranking da Uni\u00e3o Inter Parlamentar (Inter-Parliament Union (IPU)) que avaliou a participa\u00e7\u00e3o das mulheres nas casas legislativas de 191 pa\u00edses.<\/p>\n<p>A soci\u00f3loga Carmen Silva, da organiza\u00e7\u00e3o SOS Corpo e da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras (AMB), avalia que v\u00e1rios fatores incidem para a baixa representatividade de mulheres na pol\u00edtica. \u201cA primeira coisa \u00e9 a estrutura de desigualdade entre homens e mulheres na sociedade, no mercado de trabalho. Existe uma imagem sobre o que \u00e9 uma mulher na sociedade, e elas ainda n\u00e3o s\u00e3o vistas como algu\u00e9m de decis\u00e3o, que resolve, e a ideia da pol\u00edtica \u00e9 ligado a isso\u201d, disse.<\/p>\n<p>Carmen defende que o fato de elas serem minoria tamb\u00e9m \u00e9 explicado pelo sistema pol\u00edtico brasileiro, a base legal que rege o processo eleitoral e de forma\u00e7\u00e3o dos partidos. \u201cO tipo de estrutura que temos no Brasil inviabiliza a participa\u00e7\u00e3o de setores que s\u00e3o minorias pol\u00edticas na sociedade, apesar de serem maioria num\u00e9rica. As mulheres s\u00e3o mais de metade da popula\u00e7\u00e3o, mas s\u00e3o menos de 10% nos cargos pol\u00edticos, o mesmo acontece com os negros. As pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza n\u00e3o conseguem nem se candidatar.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, 6.337 mulheres e 15.653 homens se candidataram \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2014. Em 2010, 3.757 mulheres e 14.807 homens estavam aptos a concorrer \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. Apesar do aumento da participa\u00e7\u00e3o feminina de um pleito para o outro, a propor\u00e7\u00e3o ficou abaixo dos 30% estipulado como m\u00ednimo pela legisla\u00e7\u00e3o eleitoral. \u201cA sociedade ainda considera a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como um espa\u00e7o pouco adequado para mulheres\u201d, avalia Tatau.<\/p>\n<p>A ativista explica que a AMB defende uma cota de eleitas, e n\u00e3o de candidatas. \u201cDefendemos uma reserva de vagas no Congresso. A forma que temos proposto \u00e9 que a elei\u00e7\u00e3o seja por partido, e n\u00e3o por pessoa. Votar\u00edamos nos partidos e as listas seriam compostas metade por mulheres, metade por homens, e as vagas seriam divididas igualmente. Claro que isso tem que ser associado \u00e0 forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, campanhas culturais e melhores condi\u00e7\u00f5es de vida para as mulheres\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para Carmen, outro ponto crucial e que tem impacto sobre as mulheres \u00e9 o financiamento das campanhas, que deveria ser p\u00fablico, tornando a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica um direito republicano, mesmo que a pessoa n\u00e3o tenha dinheiro. Ela explicou que h\u00e1 projetos apresentados pela Frente pela Reforma do Sistema Pol\u00edtico na C\u00e2mara dos Deputados, \u201cmas que n\u00e3o t\u00eam avan\u00e7ado como a AMB julga necess\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Desde 1997 a legisla\u00e7\u00e3o eleitoral determina que as mulheres devem representar 30% do total de candidatos, mas a efic\u00e1cia da regra \u00e9 questionada por especialistas por n\u00e3o prever nenhuma san\u00e7\u00e3o aos partidos que n\u00e3o preenchem a cota m\u00ednima de mulheres. A lei diz que, nesse caso, as vagas que deveriam ser delas n\u00e3o podem ser ocupadas por homens, mas n\u00e3o garante a presen\u00e7a delas.<\/p>\n<p>Em 2015, a Lei 13.165 criou mecanismos para incentivar mulheres no cen\u00e1rio pol\u00edtico, ao determinar que 5% dos recursos do Fundo Partid\u00e1rio devem ser investidos na cria\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de programas de promo\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das mulheres.<\/p>\n<p>Tatau avalia que essas legisla\u00e7\u00f5es trouxeram avan\u00e7os, mas que, para mudar esse cen\u00e1rio, \u00e9 necess\u00e1ria uma reforma pol\u00edtica radical que garanta paridade entre homens e mulheres nas listas partid\u00e1rias. \u201cIsso tamb\u00e9m precisa ser feito com um processo de mudan\u00e7a na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-partid\u00e1ria e eleitoral. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a legisla\u00e7\u00e3o que precisa mudar\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Ela argumenta que a populariza\u00e7\u00e3o do feminismo \u00e9 importante, mas ser\u00e1 ainda mais relevante na medida em que se vincule a uma plataforma de organiza\u00e7\u00e3o das mulheres por maior representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em 2015, a Secretaria de Pol\u00edtica para as Mulheres perdeu o status de minist\u00e9rio e, junto com a Secretaria de Igualdade Racial e de Direitos Humanos, passou a fazer parte do Minist\u00e9rio da Cidadania. O fato foi avaliado pelos movimentos feministas como um retrocesso para a luta pelos direitos das mulheres.<\/p>\n<p>\u201cO governo federal est\u00e1 enfrentando um processo de press\u00e3o econ\u00f4mica e de press\u00e3o da sociedade muito forte. E foi nesse contexto que houve a jun\u00e7\u00e3o das tr\u00eas secretarias. Ent\u00e3o ainda que consideremos que um minist\u00e9rio espec\u00edfico \u00e9 o ideal, porque foi isso que defendemos no processo de cria\u00e7\u00e3o da SPM, temos certeza de que vamos fortalecer a pauta das mulheres e n\u00e3o perder com esse processo a necessidade de garantir que pol\u00edticas para mulheres estejam presentes. \u00c9 um desafio.\u201d (Ag\u00eancia Brasil)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O feminismo tem ganhado cada vez mais for\u00e7a na sociedade brasileira. Na internet e nas ruas, mais brasileiras est\u00e3o se manifestando em defesa da igualdade de g\u00eanero e do fim da viol\u00eancia. 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