{"id":81097,"date":"2016-03-08T16:22:27","date_gmt":"2016-03-08T19:22:27","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=81097"},"modified":"2016-03-08T16:22:27","modified_gmt":"2016-03-08T19:22:27","slug":"na-luta-contra-a-pobreza-mulheres-buscam-autonomia-por-conta-propria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=81097","title":{"rendered":"Na luta contra a pobreza, mulheres buscam autonomia por conta pr\u00f3pria"},"content":{"rendered":"<p>Dos 22 milh\u00f5es de brasileiros que superaram a pobreza extrema nos \u00faltimos quatro anos, 12 milh\u00f5es s\u00e3o mulheres. \u00c9 o caso de uma costureira dona de sua pr\u00f3pria confec\u00e7\u00e3o, na comunidade Ilha do Chi\u00e9, no Recife, de uma vendedora de acess\u00f3rios para celular e computador da comunidade vizinha de Ilha de Santa Terezinha e de uma sertaneja que vende centenas de quentinhas para empresas, em Inhapi, interior de Alagoas. Em todas essas hist\u00f3rias de supera\u00e7\u00e3o da pobreza, tr\u00eas palavras se repetem: autonomia financeira da mulher.<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria de vida ainda n\u00e3o foi ultrapassada, mas a vontade de ser independente e a determina\u00e7\u00e3o para criar uma fonte de renda n\u00e3o faltam para Leide Laura Tavares de Medeiros, 30 anos, moradora da comunidade Ilha de Santa Terezinha, no Recife. Ela conta que trabalhou nas mais diversas \u00e1reas. \u201cJ\u00e1 fui copeira, camareira, costureira, empregada dom\u00e9stica, bab\u00e1, tanta coisa\u201d, enumera. Depois de tantos anos de trabalho e d<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, ela n\u00e3o contava com recursos e tamb\u00e9m n\u00e3o preenchia os requisitos para conseguir um empr\u00e9stimo no banco. Mas nada disso abalou a vontade de Leide Laura. O neg\u00f3cio come\u00e7ou pequeno e com a \u00fanica fonte certa de dinheiro que contava: o Bolsa Fam\u00edlia. M\u00e3e de 4 filhos, a pernambucana ganha R$ 265.<\/p>\n<p>\u201cEu vendo teclado de computador, mouse, capa de celular, fone de ouvido. Tudo nessa barraquinha aqui em frente de casa\u201d, mostra, apontando para um cub\u00edculo ligado \u00e0 rua por uma janela protegida com tela. A porta da lojinha d\u00e1 para o \u00fanico quarto da casa, que acumula os dormit\u00f3rios de todos os filhos. Ela e o marido dormem em um s\u00f3t\u00e3o improvisado.<\/p>\n<p>A conta \u00e9 a seguinte: todo m\u00eas, a empreendedora investe R$ 100 na barraquinha. Os outros R$ 165 ela \u201ccoloca em casa\u201d. \u201cEssa cama mesmo eu comprei com o benef\u00edcio\u201d, aponta, mostrando um beliche de material popular. E, com o dinheiro multiplicado pelo lucro das vendas, Leide compra mais coisas para as crian\u00e7as. \u201cAntes quando passava alguma coisa na televis\u00e3o e eles pediam eu falava que n\u00e3o podia dar. Agora j\u00e1 falo que se estiver na promo\u00e7\u00e3o eu dou\u201d, compara. \u201cO neg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 a quantidade, mas ter a coisa certa. Tem que saber administrar. Sen\u00e3o n\u00e3o rende nada\u201d.<\/p>\n<p>A nova fonte de renda tamb\u00e9m mudou o poder exercido em casa em rela\u00e7\u00e3o ao marido, que \u00e9 pedreiro e trabalha por di\u00e1ria, sem carteira assinada. \u201cMeu marido n\u00e3o queria que eu trabalhasse, queria que eu ficasse em casa. \u00c9 muito machista ele, mas hoje ele melhorou um pouco porque coloquei na cabe\u00e7a dele que n\u00f3s, mulheres, somos independentes\u201d, disse.<\/p>\n<p><strong>For\u00e7a para superar a viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>E se o Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 hoje, para Leide, um instrumento para empreender e superar a pobreza, no passado j\u00e1 a ajudou a superar a opress\u00e3o dentro de casa. Em seu primeiro casamento, ela sofreu viol\u00eancia psicol\u00f3gica, emocional e financeira. A pernambucana conta que o ex-marido era usu\u00e1rio de crack e bebida alco\u00f3lica. \u201cQuando eu era jovem tamb\u00e9m bebia, fumava, mas ao engravidar eu parei. Eu pedia para ele n\u00e3o usar droga dentro de casa, mas ele falava que a casa era dele e ele fazia o que quisesse\u201d, lembra.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia precisou fugir do munic\u00edpio onde morava, Itapissuma, litoral norte de Pernambuco, porque o ex-marido matou um desafeto e os amigos do morto queriam vingan\u00e7a. Por isso, foram parar no Recife. Mas a mudan\u00e7a de local de moradia n\u00e3o trouxe diferen\u00e7a de comportamento: os abusos continuavam a ocorrer. \u201cEu estava com tanto medo porque ele era uma pessoa que gostava muito de me amea\u00e7ar. Falava: &#8216;se voc\u00ea me deixar eu vou matar toda a sua fam\u00edlia&#8217;. Eu ficava com medo porque ele sabia onde meus irm\u00e3os moravam. Eu fiquei com ele por press\u00e3o psicol\u00f3gica\u201d, revela Leide.<\/p>\n<p>Quando tomou coragem para se separar, fugiu para uma casa abrigo, local que acolhe mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Ela lembra da \u00faltima vez que pisou na casa em que morava com o ex-marido. \u201cNesse dia tomei uma decis\u00e3o: ou eu morro ou meus irm\u00e3os morrem, mas aqui eu n\u00e3o fico. Estava operada de h\u00e9rnia, coloquei minha filha menor no colo, peguei uma condu\u00e7\u00e3o e entreguei nas m\u00e3os de Deus\u201d.<\/p>\n<p>A m\u00e3e do ex-companheiro a apoiava e, quando resolveu desfazer o casamento, foi para a ent\u00e3o sogra que confiou o cuidado dos filhos. \u201cEu n\u00e3o tinha para onde ir. Acabei dormindo na casa dos meus patr\u00f5es, trabalhando como dom\u00e9stica. Eu deixei meus dois filhos com ela, junto com o cart\u00e3o e a senha do Bolsa Fam\u00edlia. Ela usava o dinheiro para sustentar os meninos\u201d. Na \u00e9poca, o programa pagava a ela R$ 113. <\/p>\n<p>Mesmo quando estava desempregada e morando de favor na casa de conhecidos, Leide conta que a prioridade era a alimenta\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. \u201cEu passei fome, mas meus filhos nunca passaram. Prefiro tirar da minha boca para dar a eles. A gente \u00e9 adulta e aguenta. Eles n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201cQuando a gente trabalha fica poderosa\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Feliz no casamento, Maria do Bom Parto Barbosa dos Santos, 49 anos, n\u00e3o tinha o jugo de um marido opressor a enfrentar, mas a pobreza era sua grande advers\u00e1ria. E a luta, em anos anteriores, era travada apenas com o dinheiro do marido que trabalha como padeiro. Ela era dona de casa. Mas dentro dela havia a inquietude, a vontade de ter o pr\u00f3prio dinheiro.<\/p>\n<p>\u201cEu sou uma pessoa que procuro fazer, inventar, procuro criar. Sou uma pessoa muito inquieta, n\u00e3o gosto de ficar parada. Estou sempre fazendo alguma coisa\u201d, ri, enquanto mostra as roupas que est\u00e1 consertando ou as bonecas de pano que produz.<\/p>\n<p>Hoje costureira e empres\u00e1ria, Maria tem loja pr\u00f3pria, que funciona na frente da casa onde mora, na comunidade Ilha do Chi\u00e9, tamb\u00e9m no bairro de Santo Amaro, no Recife. Ela vende roupas infantis e adultas a pre\u00e7os populares. Tudo a R$ 5, R$ 10, R$ 15. Ao lado da loja, tamb\u00e9m h\u00e1 um pequeno armarinho onde ela vende cerveja, salgadinho e doces.<\/p>\n<p>Segundo ela, tudo come\u00e7ou com a renda extra de R$ 40 do Bolsa Fam\u00edlia. \u201cComecei a receber quando meu filho tinha uns 7 anos. At\u00e9 ele fazer 16 eu recebia o mesmo valor. Era muito pouco, mas eu investia. Comprava pipoca, salgadinho. A\u00ed fui sempre vendendo e comprando de novo para n\u00e3o deixar faltar\u201d, lembra. E, assim, o talento de empres\u00e1ria nasceu em Maria.<\/p>\n<p>Ela conta que tinha vontade de parar de receber o benef\u00edcio. \u201cEu n\u00e3o me sentia muito bem em estar recebendo [o Bolsa Fam\u00edlia]. N\u00e3o sei se \u00e9 orgulho, o que era. S\u00f3 sei que eu queria estar me movimentando, fazendo alguma coisa, n\u00e3o depender daquele dinheiro. At\u00e9 porque um projeto do governo n\u00e3o \u00e9 para vida toda. Eu n\u00e3o contava, assim, com ele, totalmente. Mas quando vinha ficava muito feliz. Foi assim que eu comecei\u201d.<\/p>\n<p>Depois de alguns cursos, conseguiu um empr\u00e9stimo de R$ 2 mil e decidiu abrir a loja de confec\u00e7\u00f5es. Ela ainda paga as presta\u00e7\u00f5es, mas este ano o neg\u00f3cio n\u00e3o vai muito bem. \u201cO povo parou de comprar, agora s\u00f3 sai besteira. Mas como \u00e9 na frente da minha casa eu deixo aberto\u201d. Mesmo assim, Maria nem pensa em parar de empreender.<\/p>\n<p>\u201cQuando a gente trabalha fica poderosa. Por isso n\u00e3o gosto de estar parada, gosto de fazer alguma coisa. O que a gente quiser fazer com o dinheiro da gente a gente pode. N\u00e3o fica dependendo s\u00f3 do marido\u201d, defende, sem deixar de elogiar companheiro: \u201cmeu marido \u00e9 maravilhoso, e ele me apoia no que eu fa\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Feminismo na pr\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o de mulheres na comunidade ajudou Maria do Bom Parto a amadurecer o discurso de independ\u00eancia e as ideias de ter um neg\u00f3cio pr\u00f3prio. De acordo com a empreendedora, ela ouviu e usou bastante um conceito que a acompanha at\u00e9 hoje: o feminismo. Na Ilha do Chi\u00e9, a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Espa\u00e7o Feminista do Nordeste para a Democracia e Direitos Humanos iniciou a discuss\u00e3o por meio da associa\u00e7\u00e3o de oradores local.<\/p>\n<p>O Espa\u00e7o Feminista atua com mulheres rurais e urbanas para a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a cria\u00e7\u00e3o de projetos de gera\u00e7\u00e3o de renda. A diretora executiva do movimento, Patr\u00edcia Chaves, trabalha em cinco comunidades da regi\u00e3o, incluindo a do Chi\u00e9 e de Santa Terezinha. A iniciativa mais nova \u00e9 a abertura de uma cooperativa t\u00eaxtil com as costureiras desses locais, aproveitando o conhecimento adquirido na \u00e9poca em que uma f\u00e1brica da vizinhan\u00e7a atraiu muitas profissionais da \u00e1rea para l\u00e1.<\/p>\n<p>Patr\u00edcia fala que, al\u00e9m de a pr\u00f3pria mulher se beneficiar da independ\u00eancia conquistada com a renda, a fam\u00edlia tamb\u00e9m ganha investimentos melhores. \u201cQuando a mulher tem autonomia sobre a renda, ela investe muito mais em educa\u00e7\u00e3o, em sa\u00fade, na quest\u00e3o da seguran\u00e7a alimentar, ent\u00e3o os investimentos da mulher est\u00e3o mais pautados pelos interesses da fam\u00edlia. Enquanto com o homem \u00e9 celular, moto. Isso foi observado em pesquisas no mundo inteiro, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Ela alerta para a import\u00e2ncia da forma\u00e7\u00e3o dessas mulheres. \u201c\u00c9 preciso que se invista tamb\u00e9m em forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dessa mulher, que elas tenham consci\u00eancia dos direitos que elas t\u00eam como cidad\u00e3s, e que elas passem a reverter esse quadro de depend\u00eancia dos maridos. Todo o movimento feminista busca exatamente isso\u201d.<\/p>\n<p><strong>No sert\u00e3o, a renda contra a seca<\/strong><\/p>\n<p>As palavras autonomia e independ\u00eancia tamb\u00e9m n\u00e3o saem da boca de Maria Clara Silva dos Santos, de 52 anos. Moradora de Inhapi, sert\u00e3o de Alagoas, Maria do Barraco, como \u00e9 conhecida na cidade, n\u00e3o perde a oportunidade de falar sobre os benef\u00edcios da renda pr\u00f3pria para outras mulheres. \u201cTenho incentivado outras mulheres: n\u00f3s podemos ter outra fonte de renda. N\u00e3o podemos nos acomodar\u201d, diz a sertaneja, que tamb\u00e9m faz parte do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais.<\/p>\n<p>Maria do Barraco conta que a renda era incerta, j\u00e1 que vivia da ro\u00e7a. Se a seca se prolongasse, nada feito. O complemento vinha de doces que fabricava, mas que eram insuficientes para uma casa com oito filhos. Ao ser inclu\u00edda no programa Bolsa Fam\u00edlia, ela diz que conseguiu o recurso para dar in\u00edcio ao pr\u00f3prio neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u201cComprei um fog\u00e3o industrial com o dinheiro. Parcelei o m\u00e1ximo que pude, o dono da loja tamb\u00e9m me ajudou muito com isso, e fui pagando as presta\u00e7\u00f5es com o Bolsa. Quando comecei nem prato eu tinha, hoje tenho cozinha montada, tudo do jeito que a vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria pede\u201d, conta, orgulhosa.<\/p>\n<p>Maria do Barraco formalizou uma empresa para vender quentinhas. E j\u00e1 n\u00e3o precisa mais do Bolsa Fam\u00edlia para viver. \u201cEu fiz quest\u00e3o de entregar. Foi por amor. Tem gente no munic\u00edpio que precisa mais, j\u00e1 d\u00e1 para eu sobreviver\u201d, justifica a empreendedora ao revelar que pediu voluntariamente para sair do programa.<\/p>\n<p>Este ano os contratos est\u00e3o mais raros, ent\u00e3o ela complementa a renda fazendo comida e produtos da ro\u00e7a para vender na feira da cidade, todo domingo. Tamb\u00e9m cultiva um pomar em um s\u00edtio de 3 hectares do qual \u00e9 dona. \u201cO cart\u00e3o [do Bolsa Fam\u00edlia] n\u00e3o s\u00f3 d\u00e1 o dinheiro. Pode conseguir cisterna, por exemplo, como foi o meu caso. Hoje eu planto fruteiras. Na seca n\u00e3o morreram todas por causa da cisterna. Compro \u00e1gua e coloco nela. Cajueiro, acerola, tudo eu tenho por causa disso\u201d.<\/p>\n<p>Dos oito filhos de Maria, seis j\u00e1 se formaram e tem curso superior. Ela mesma voltou a estudar, \u201cpara viver melhor nesse mundo da internet\u201d, e cursa a Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA). \u201cEu n\u00e3o consigo ficar parada. A gente n\u00e3o pode se acomodar. Eu quero \u00e9 mais\u201d.<\/p>\n<p><strong>A nova gera\u00e7\u00e3o independente<\/strong><\/p>\n<p>No sert\u00e3o nordestino, a renda fixa proporcionada pelo Bolsa Fam\u00edlia provoca mudan\u00e7as ainda mais profundas para a mulher. Combate, indiretamente, a desigualdade de g\u00eanero, termo traduzido na vida das sertanejas como trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o, viol\u00eancia dom\u00e9stica, invisibilidade e falta de vida social.<\/p>\n<p>Essas hist\u00f3rias s\u00e3o contadas por mulheres de Guaribas, munic\u00edpio do agreste do Piau\u00ed, por meio do olhar \u2013 e das lentes &#8211; da cineasta Eliza Capai no document\u00e1rio No devagar depressa dos tempos. Hist\u00f3rias de humilha\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria, mas tamb\u00e9m de esperan\u00e7a nas novas gera\u00e7\u00f5es. De ruptura de um pensamento que, de t\u00e3o comum, era naturalizado pelas moradoras: que a vida gire em torno do marido.<\/p>\n<p>\u201cMe interessei pelo tema quando conheci o livro Vozes do Bolsa Fam\u00edlia. Para escolher a cidade tentei v\u00e1rios par\u00e2metros; baixo IDH [\u00cdndice de Desenvolvimento Humano], por exemplo. At\u00e9 que cheguei a Guaribas, que foi a cidade piloto para a implanta\u00e7\u00e3o do Bolsa Fam\u00edlia, e que j\u00e1 teve o segundo pior IDH do Brasil\u201d, explica a jornalista.<\/p>\n<p>Depois de duas semanas em campo, Eliza exp\u00f4s um modo de organiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia de da sociedade, no munic\u00edpio, em que o homem estava no centro da vida das moradoras. \u201c\u00c9 o gigante da mulher\u201d, como expressa Horacio Alves da Rocha, o \u00fanico homem entrevistado no document\u00e1rio.<\/p>\n<p>Isso tudo em um contexto de fome e de trabalho n\u00e3o remunerado, de dedica\u00e7\u00e3o completa \u00e0 sobreviv\u00eancia miser\u00e1vel do cotidiano. \u201cO que mais me emocionou foi quando eu olhava as mulheres que tinham a minha idade, 30 e poucos anos, que falavam da escravid\u00e3o como presente. Eu vivi a escravid\u00e3o \u2013 essa \u00e9 uma frase que escutei v\u00e1rias vezes. E at\u00e9 hoje &#8211; agora que eu acabei de repetir &#8211; eu me arrepio. Porque \u00e9 muito cruel a gente se deparar com isso. No Brasil a escravid\u00e3o \u00e9  presente. Na minha gera\u00e7\u00e3o isso se vive. Mulheres com corpos de escravid\u00e3o, de que passaram fome\u201d, lembra a cineasta.<\/p>\n<p>Quando o registro foi feito, no entanto, um embri\u00e3o da mudan\u00e7a de condi\u00e7\u00f5es de vida e da opress\u00e3o de g\u00eanero come\u00e7ava a crescer. De acordo com as entrevistadas, o Bolsa Fam\u00edlia havia dado o poder de decis\u00e3o e de compra para as sertanejas. Havia dado a oportunidade de se livrar de uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia. E havia criado uma gera\u00e7\u00e3o inteiramente nova. As que sonham em ser solteiras.<\/p>\n<p>\u201cTodas elas falaram que n\u00e3o querem casar. Muito provavelmente elas v\u00e3o casar quando crescerem. Mas o ideal de vida delas pode n\u00e3o estar atrelado a um bom casamento. Elas n\u00e3o tem um sonho de pegar um bom marido, tem o sonho de estudar, de independ\u00eancia. Imagina os filhos dessas mulheres como v\u00e3o ser\u201d, se emociona Eliza, falando sobre as meninas que aparecem no document\u00e1rio.<\/p>\n<p>Essas crian\u00e7as s\u00e3o beneficiadas pelas exig\u00eancias que o Bolsa Fam\u00edlia faz aos pais. \u00c9 preciso garantir, em resumo, sa\u00fade e escola aos filhos: que frequentem as aulas sem extrapolar o n\u00famero m\u00e1ximo de faltas e que o acompanhamento m\u00e9dico e de vacinas esteja em dia. \u201cAs filhas delas vivem uma inf\u00e2ncia absolutamente diferente. N\u00e3o trabalham, v\u00e3o \u00e0 escola, t\u00eam acesso m\u00e9dico. E comem. Tem mil problemas? Tem. Tem muito para ser melhorado. R$ 75 \u00e9 muito pouco, mas \u00e9 o primeiro passo\u201d, defende a cineasta.<\/p>\n<p>De acordo com a secret\u00e1ria-adjunta de Renda e Cidadania do MDS, Let\u00edcia Bartholo, algumas condi\u00e7\u00f5es ajudam a estabelecer situa\u00e7\u00f5es mais igualit\u00e1rias entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>\u201cUma crian\u00e7a que tem acesso a mais consumo vai poder se alimentar melhor. Uma crian\u00e7a que se alimenta melhor vai poder estudar mais. Uma crian\u00e7a que estuda mais vai ter outros sonhos. Uma crian\u00e7a que tem outros sonhos passa a questionar inclusive sobre padr\u00f5es de g\u00eanero. Nesse sentido a gente pode dizer que o Bolsa Fam\u00edlia, por melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida, amplia as perspectivas e sonhos que est\u00e3o postos para essas mulheres. Elas podem sonhar mais, querer mais\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQuando ela poderia se permitir o luxo de se livrar de um marido violento, desrespeitoso, quando n\u00e3o tinha renda? Jamais\u201d, refor\u00e7a a cineasta.<\/p>\n<p>De acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), o n\u00famero de fam\u00edlias chefiadas por mulheres cresceu. Em 2000, 1,19 milh\u00e3o de fam\u00edlias com rendimento de at\u00e9 meio sal\u00e1rio m\u00ednimo eram chefiadas por mulheres. Em 2010 eram 2,68 milh\u00f5es, mais que o dobro.<\/p>\n<p><strong>Dinheiro para tomar decis\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Atualmente, das 13,9 milh\u00f5es de fam\u00edlias que recebem o benef\u00edcio do Bolsa Fam\u00edlia, 92,1% tem mulheres como respons\u00e1veis por receber o benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome (MDS) para essa escolha \u00e9 a destina\u00e7\u00e3o do dinheiro. O padr\u00e3o de consumo entre homens e mulheres \u00e9 diferente. As benefici\u00e1rias tendem a comprar mais artigos voltados para os filhos, como alimentos e material escolar.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, estudos encomendados pelo minist\u00e9rio indicaram outros benef\u00edcios indiretos dessa escolha.<\/p>\n<p>\u201cPelo que as pesquisas nos indicam, contribui que as mulheres ganhem na tomada de decis\u00f5es sobre uso dos recursos, dentro do espa\u00e7o dom\u00e9stico, e notamos tamb\u00e9m, pela segunda avalia\u00e7\u00e3o de impacto do Bolsa Fam\u00edlia, que houve aumento, inclusive, do acesso a m\u00e9todos anticoncepcionais. Isso indica que o Bolsa Fam\u00edlia est\u00e1 contribuindo para que as mulheres exer\u00e7am seus direitos reprodutivos. Porque a decis\u00e3o sobre quantos filhos voc\u00ea quer ter e quando voc\u00ea quer ter esses filhos \u00e9 um direito fundamental para que a mulher seja dona do pr\u00f3prio corpo\u201d, revela a secret\u00e1ria adjunta de Renda e Cidadania do MDS, Let\u00edcia Bartholo. \u201cTamb\u00e9m temos pesquisas qualitativas que indicam que as mulheres criem mais la\u00e7os na comunidade e que fiquem menos sujeitas a rela\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas que impliquem em sujei\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>O desejo de empreender tamb\u00e9m \u00e9 uma constante entre as benefici\u00e1rias. Dados do MDS de junho de 2015 mostram que 703,4 mil mulheres do Cadastro \u00danico do governo federal (onde s\u00e3o registradas as pessoas abaixo da linha de pobreza, para que tenham acesso a programas sociais) se tornaram microempreendedoras individuais, uma modalidade mais simples de formaliza\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio. Desse total, 288,9 mil mulheres s\u00e3o benefici\u00e1rias do Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O desafio, tamb\u00e9m, \u00e9 fazer com que a divis\u00e3o dos cuidados com os filhos e as tarefas dom\u00e9sticas sejam melhor divididas. Em muitos lares, quando a mulher passa a gerar renda, acumula tamb\u00e9m o trabalho da casa. \u201cIsso tamb\u00e9m traz pra gente um desafio de aproximar os homens dessa responsabilidade de cuidar. Como as pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o social podem fazer para que os homens se tornem mais part\u00edcipes da atividade de cuidar, e tamb\u00e9m das atividades pelas quais as mulheres s\u00e3o majoritariamente respons\u00e1veis tamb\u00e9m no ambiente dom\u00e9stico. Nosso exerc\u00edcio agora \u00e9 caminhar nessa dire\u00e7\u00e3o\u201d, avalia Let\u00edcia Bartholo.<\/p>\n<p>(Ag\u00eancia Brasil)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dos 22 milh\u00f5es de brasileiros que superaram a pobreza extrema nos \u00faltimos quatro anos, 12 milh\u00f5es s\u00e3o mulheres. \u00c9 o caso de uma costureira dona de sua pr\u00f3pria confec\u00e7\u00e3o, na comunidade Ilha do Chi\u00e9, no Recife, de uma vendedora de acess\u00f3rios para celular e computador da comunidade vizinha de Ilha de Santa Terezinha e de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":81098,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"amp_status":"","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[259,81349,5283,81567,21788,81566,81565,81569,81564,81570,20807,81563,81562,81568],"class_list":["post-81097","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-br","tag-bolsa-familia","tag-dia-da-mulher","tag-dia-internacional-da-mulher","tag-dia-internacional-da-mulher-2016","tag-empreendedorismo","tag-feminismo-na-pratica","tag-historia-de-superacao-mulheres","tag-leticia-bartholo","tag-luta-das-mulheres","tag-maria-do-bom-parto","tag-mulheres","tag-mulheres-buscam-autonomia-por-conta-propria","tag-na-luta-contra-a-pobreza","tag-secretaria-adjunta-de-renda-e-cidadania-do-mds"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/81097","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=81097"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/81097\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/81098"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=81097"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=81097"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=81097"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}