{"id":73512,"date":"2015-11-24T18:05:55","date_gmt":"2015-11-24T21:05:55","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=73512"},"modified":"2015-11-24T18:05:55","modified_gmt":"2015-11-24T21:05:55","slug":"indiozinhos-choram-as-margens-do-rio-doce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=73512","title":{"rendered":"Indiozinhos choram \u00e0s margens do Rio Doce"},"content":{"rendered":"<p>Desde que a barragem da Samarco se rompeu, em 5 de novembro, \u00e9 comum ver indiozinhos chorando \u00e0s margens do Uatu Nek. Dependendo da idade das crian\u00e7as, os pais precisam agarr\u00e1-las \u00e0 for\u00e7a para que n\u00e3o entrem no leito polu\u00eddo. \u201c\u00c9 muito triste\u201d, conta L\u00facia, m\u00e3e de um menino de 3 anos. \u201cA gente precisa segurar, porque ele gosta de tomar banho no Uatu.\u201d<\/p>\n<p>O tsunami de lama que mudou a rotina de banhos, consumo de \u00e1gua, alimenta\u00e7\u00e3o e at\u00e9 atividades culturais dos krenak levou tristeza aos pequenos. \u201c\u00c9 nessa idade (3 anos) que as crian\u00e7as aprendem a nadar. Elas n\u00e3o entendem o perigo para a sa\u00fade. A gente tem de ficar de olho a toda hora, porque, do contr\u00e1rio, eles correm e entram na \u00e1gua\u201d, conta o professor krenak Itamar.<\/p>\n<p>Meninos e meninas mais velhos j\u00e1 entendem os riscos. Alessandro, de 8, explica \u00e0 sua gente que o melhor \u00e9 ficar longe do Uatu: \u201cA lama trouxe veneno. Se a pessoa tiver contato com a \u00e1gua, pode adoecer\u201d. Mas os anci\u00e3os da aldeia, \u00e0s vezes, agem como as crian\u00e7as e se banham na \u00e1gua com min\u00e9rio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/indios_krenak.jpg\" alt=\"\" \/><em>\u00cdndios Krenak est\u00e3o lamentam morte do Rio Doce &#8211; Foto: Marcelo Carnaval \/ O Globo<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<h4><strong>\u00cdndios condenam desastre e dizem que Rio Doce est\u00e1 morto<\/strong><\/h4>\n<p>A pequena Alice, de 3 anos, n\u00e3o disfar\u00e7a a tristeza quando fala do &#8220;Uatu Nek&#8221;, o rio em que ela diariamente tomava banho enquanto o pai, Itamar, tratava de garantir o pescado para ser servido no almo\u00e7o e no jantar. \u201cN\u00e3o entro mais na \u00e1gua. A lama venenosa matou tudo\u201d, diz a garotinha, da tribo Krenak, que desde antes da chegada de Pedro \u00c1lvares Cabral ao continente vive \u00e0s margens do Rio Doce, como os brancos batizaram o curso d\u2019\u00e1gua que agora fazem agonizar.<\/p>\n<p>\u201cNossa rela\u00e7\u00e3o com o rio \u00e9 bem mais antiga. Sempre estivemos aqui. Hoje somos 450 pessoas e n\u00e3o usamos o leito apenas para o banho, para retirar o alimento do dia a dia. H\u00e1 quest\u00f5es culturais e religiosas. E agora? Os krenak est\u00e3o tristes, porque o Uatu Nek morreu\u201d, desabafa Itamar. Ele e sua gente ocupam uma \u00e1rea de 4,9 mil hectares quadrados em Resplendor, no Leste de Minas, a 500 quil\u00f4metros de Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Itamar \u00e9 professor e diretor da escola que funciona na tribo. Na \u00faltima semana, deu uma tarefa aos alunos: fazer um desenho ou uma reda\u00e7\u00e3o sobre o Uatu. Alice, a filha, usou v\u00e1rios l\u00e1pis coloridos para tra\u00e7ar o largo leito, o pared\u00e3o de pedras pr\u00f3ximo ao rio e algumas esp\u00e9cies de animais e plantas que vivem no curso d\u2019\u00e1gua. \u201cAntes da lama, tinha muito bok (peixe), rokrok (gar\u00e7a), rimbom (capivara), pomba (pato)&#8230; Tinha bicho que ia beber \u00e1gua. Ia gundhum (tatu), ia gran (cobra)\u201d, conta a menina.<\/p>\n<p>A lama de min\u00e9rio que devastou a vida aqu\u00e1tica no Uatu mudou a rotina dos krenak. \u201cNossa alimenta\u00e7\u00e3o vai ter de mudar, porque nosso principal prato \u00e9 o peixe. Agora temos medo de comer at\u00e9 animais que vivem na terra, como tatu, pois n\u00e3o sabemos se beberam da \u00e1gua com min\u00e9rio\u201d, justifica Adauto, um dos caciques da tribo.<\/p>\n<p>At\u00e9 a rotina da confec\u00e7\u00e3o das armas usadas na ca\u00e7a deixou de ser a mesma. O material do arco e da flecha \u00e9 retirado de uma esp\u00e9cie de \u00e1rvore que, na aldeia, s\u00f3 \u00e9 achada nas ilhas do Doce. \u201cN\u00e3o estamos indo l\u00e1, porque temos medo do contato com a \u00e1gua suja\u201d, explica Itamar. Os rejeitos despejados nas margens tamb\u00e9m mataram plantas medicinais usadas pelos \u00edndios. \u201cN\u00e3o encontramos mais ervas-cidreiras, usadas para febres\u201d, reclama o cacique, enquanto percorre uma das margens.<\/p>\n<p>Na caminhada, Adauto avista, do outro lado do leito, os trilhos por onde as locomotivas da Vale puxam, todos os dias, centenas de vag\u00f5es abarrotados com min\u00e9rio de ferro. Na semana em que houve o rompimento da barragem da Samarco, empresa que tem a Vale como uma das controladoras, os krenak fecharam a ferrovia por tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>A estrada de ferro corta a terra ind\u00edgena entre o leito e o pared\u00e3o desenhado por Alice. Na parte externa da rocha, h\u00e1 pinturas rupestres. Na interna, imensas cavernas. \u201cQuem causou essa trag\u00e9dia tem que resolver o problema. A vida precisa voltar ao longo do Uatu. Temos esperan\u00e7a de t\u00ea-lo de volta, como era antes\u201d, deseja Itamar. <\/p>\n<p><strong>Combate<\/strong><\/p>\n<p>A liga\u00e7\u00e3o dos krenak com o Uatu come\u00e7ou antes da chegada das caravelas comandadas por Cabral. Por s\u00e9culos, eles ocuparam parte do que hoje \u00e9 Minas Gerais e o Esp\u00edrito Santo. Foram combatidos por europeus e bandeirantes.<\/p>\n<p>Nem mesmo o governo deu tr\u00e9gua. No fim da d\u00e9cada de 1970, por exemplo, o regime militar expulsou os \u00edndios da \u00e1rea e construiu uma pris\u00e3o a cerca de 500 metros do rio. \u201cQuando o povo voltava, o governo expulsava novamente. At\u00e9 que em 1979 houve uma grande enchente. A for\u00e7a d\u2019\u00e1gua derrubou parte (dos im\u00f3veis) que constru\u00edram aqui. Os militares desistiram. Foi assim que n\u00f3s voltamos. O rio nos trouxe de volta. Agora, queremos trazer a vida de volta no Uatu\u201d, planeja Itamar.<\/p>\n<p><em>(Fonte: Jornal Estado de Minas \/ Rep\u00f3rter:  Paulo Henrique Lobato)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que a barragem da Samarco se rompeu, em 5 de novembro, \u00e9 comum ver indiozinhos chorando \u00e0s margens do Uatu Nek. 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