{"id":73062,"date":"2015-11-16T07:34:21","date_gmt":"2015-11-16T10:34:21","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=73062"},"modified":"2015-11-16T07:34:21","modified_gmt":"2015-11-16T10:34:21","slug":"lama-de-mineradora-mata-ecossistemas-e-deixa-rastro-de-destruicao-no-vale-do-rio-doce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=73062","title":{"rendered":"Lama de mineradora mata ecossistemas e deixa rastro de destrui\u00e7\u00e3o no Vale do Rio Doce"},"content":{"rendered":"<p>Onze dias depois do rompimento das barragens de rejeitos da mineradora Samarco, na regi\u00e3o de Mariana (MG), o cen\u00e1rio \u00e9 de devasta\u00e7\u00e3o e desesperan\u00e7a em toda a \u00e1rea atingida, que se estende por centenas de quil\u00f4metros. O impacto da enxurrada de 62 milh\u00f5es de m\u00b3 de lama avan\u00e7a rumo ao oceano e deixa um rastro de destrui\u00e7\u00e3o. O invent\u00e1rio dos preju\u00edzos sociais e ambientais ainda est\u00e1 apenas come\u00e7ando, mas, de acordo com especialistas, os ecossistemas atingidos est\u00e3o irreversivelmente comprometidos.<\/p>\n<p>Embora as empresas respons\u00e1veis sejam obrigadas pela lei a pagar a recupera\u00e7\u00e3o total dos estragos ambientais, neste momento, nem elas nem o governo ou cientistas sabem como ser\u00e1 poss\u00edvel faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Se o impacto ambiental \u00e9 ainda desconhecido e sua recupera\u00e7\u00e3o inimagin\u00e1vel, suas consequ\u00eancias s\u00e3o bem concretas para quem as sente na pele. Em um pasto na margem do Rio do Carmo em Barra Longa (MG), Gilson Felipe de Rezende, de 42 anos, cuida de cerca de 15 cabe\u00e7as de gado. \u00c9 uma \u00e1rea de menos de um hectare, que at\u00e9 ent\u00e3o tinha como vantagem justamente o rio, fonte farta de \u00e1gua para o gado. Fica a exatos 71 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia do ponto em que as barragens da mineradora Samarco romperam. E est\u00e1 coberto de barro.<\/p>\n<p>Mesmo a essa dist\u00e2ncia, a lama foi capaz de formar ali uma \u201ccasca\u201d nas margens e no fundo do rio, que chega a um metro de espessura. O curso d\u2019\u00e1gua em que, antes, era poss\u00edvel navegar de canoa, virou um rio raso. Nessa crosta de lama, os peixes aparecem aos montes, grudados no ch\u00e3o, como se fossem f\u00f3sseis. Toda a regi\u00e3o tem cheiro de carni\u00e7a. \u201cTinha umas 50 capivaras que ficavam por aqui. Desde que a barragem rompeu, s\u00f3 vimos uma\u201d conta Rezende.<\/p>\n<p>A cena impressiona mais quando ele conta como a lama chegou: quando a enxurrada, que vinha do Rio Gualaxo do Norte, desaguou no Rio do Carmo, seguiu tanto pelo fluxo normal da \u00e1gua quanto no sentido oposto. \u201cA lama avan\u00e7ou contra a correnteza\u201d, explica. E avan\u00e7ou quase um quil\u00f4metro contra a \u00e1gua, at\u00e9 formar uma esp\u00e9cie de represa. Agora, perto de Barra Longa, o rio tem parte do curso desviado para o mato. O que segue \u00e9 um fio de \u00e1gua ao redor das margens de lama grossa. O rebanho de Rezende est\u00e1 em risco. \u201cAs duas nascentes que t\u00eam por aqui secaram. Vai demorar uns 10 anos para isso voltar a ser como era.\u201d<\/p>\n<p>Talvez demore mais. De acordo com Carlos Alfredo Joly, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), dificilmente ser\u00e1 poss\u00edvel reverter o impacto da lama na biodiversidade. \u201cOs rejeitos que se acumulam nas margens dos rios formam um sedimento duro, que altera a composi\u00e7\u00e3o do solo, tornando-o mais compacto. Com isso, as matas ciliares ser\u00e3o afetadas, matando as \u00e1rvores que n\u00e3o foram carregadas pela enxurrada de lama e abrindo grandes clareiras.\u201d<\/p>\n<p>Enquanto isso, segundo Joly, a perda de oxig\u00eanio da \u00e1gua condenar\u00e1 a fauna dos rios, afugentando ou dizimando os animais que se alimentavam dela. \u201cPode ser at\u00e9 que a floresta se recupere, mas vai demorar mais que o tempo de uma vida. Nenhum de n\u00f3s viver\u00e1 para ver a vegeta\u00e7\u00e3o voltar a ser como era.\u201d<\/p>\n<p><strong>Pesca<\/strong><\/p>\n<p>Para quem vive da pesca no Rio Doce, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 dram\u00e1tica. O pescador Eli da Silva Soares, o Paco, de 38 anos, percorre de barco parte da regi\u00e3o afetada e aponta os peixes que agora flutuam mortos no rio. \u201cComo a gente vai fazer agora? Isso aqui est\u00e1 tudo morto. Vai levar muito tempo para poder pescar de novo\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Vivendo em uma vila a 50 metros do rio, no munic\u00edpio de Governador Valadares (MG), Paco e sua fam\u00edlia conseguiam R$ 1 mil mensais com a pesca. Durante o passeio pelo cen\u00e1rio sem vida ele e as irm\u00e3s Elaine, de 36, e Eliane, de 39 anos, expressam falta de esperan\u00e7a pela recupera\u00e7\u00e3o da \u00e1rea. \u201cIsso n\u00e3o vai recuperar nem daqui a cinco anos\u201d, diz o pescador.<\/p>\n<p>De cima, a \u00e1gua laranja do Rio Doce parece est\u00e1tica. A lama de rejeitos se move a cerca de 1,2 quil\u00f4metro por hora desde o dia 5, quando aconteceu a trag\u00e9dia, e vai percorrer toda a calha de 853 quil\u00f4metros entre o munic\u00edpio de Rio Doce, em Minas, at\u00e9 Reg\u00eancia, vila do munic\u00edpio de Linhares (ES), onde encontra o Oceano Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Segundo Alexander Turra, do Instituto Oceanogr\u00e1fico da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), quando a \u00e1gua polu\u00edda do rio chegar ao estu\u00e1rio, a decanta\u00e7\u00e3o de um sedimento diferente do natural ter\u00e1 impacto intenso na fauna marinha. \u201cMais turva, a \u00e1gua n\u00e3o deixar\u00e1 passar a luz e impedir\u00e1 a fotoss\u00edntese das algas no fundo, afetando tamb\u00e9m o pl\u00e2ncton. Esses organismos s\u00e3o a base da cadeia alimentar e sua perda ter\u00e1 impacto em todos os organismos marinhos. Os peixes morrer\u00e3o ou fugir\u00e3o, afetando severamente a pesca local. A areia das praias mudar\u00e1 suas caracter\u00edsticas\u201d, disse Turra. Segundo ele, cada vez que uma chuva forte atingir o vale do Rio Doce, mais lama endurecida se dissolver\u00e1 e escorrer\u00e1 novamente para o mar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_samarco_11.jpg\" alt=\"\" \/><em>Lama deixa rastro de destrui\u00e7\u00e3o por onde passa (Foto: Corpo de Bombeiros de Minas Gerais)<\/em><br \/>\n<\/br> <\/p>\n<p><em>(Fonte: Ag\u00eancia Estado \/ Itatiaia)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Onze dias depois do rompimento das barragens de rejeitos da mineradora Samarco, na regi\u00e3o de Mariana (MG), o cen\u00e1rio \u00e9 de devasta\u00e7\u00e3o e desesperan\u00e7a em toda a \u00e1rea atingida, que se estende por centenas de quil\u00f4metros. 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