{"id":69653,"date":"2015-09-25T16:44:21","date_gmt":"2015-09-25T19:44:21","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=69653"},"modified":"2015-09-25T16:44:21","modified_gmt":"2015-09-25T19:44:21","slug":"cranio-de-9-mil-anos-escondido-por-maos-amputadas-e-encontrado-em-sitio-arqueologico-mineiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=69653","title":{"rendered":"Cr\u00e2nio de 9 mil anos escondido por m\u00e3os amputadas \u00e9 encontrado em s\u00edtio arqueol\u00f3gico mineiro"},"content":{"rendered":"<p>Em uma de suas cr\u00f4nicas sobre o Brasil, o colonizador Pero de Magalh\u00e3es G\u00e2ndavo dizia que a l\u00edngua dos \u00edndios carecia de tr\u00eas letras: \u201cf\u201d, \u201cl\u201d e \u201cr\u201d. \u201cCoisa digna de espanto\u201d, acrescentava, \u201cporque assim n\u00e3o h\u00e1 f\u00e9, nem lei, nem rei, e, dessa maneira, vivem desordenadamente\u201d. Na vis\u00e3o dos europeus de ent\u00e3o, os \u201chomens pardos\u201d eram apenas b\u00e1rbaros sem regras, distantes de qualquer tra\u00e7o de civiliza\u00e7\u00e3o. A vis\u00e3o euroc\u00eantrica, no entanto, foi demolida nos \u00faltimos s\u00e9culos. Um olhar mais atento e menos preconceituoso, adotado por cientistas, revelou a complexidade e a riqueza cultural dos primeiros americanos, que at\u00e9 hoje podem surpreender. \u00c9 o que mostra um estudo publicado na edi\u00e7\u00e3o desta semana da revista Plos One, que detalha o mais antigo caso de decapita\u00e7\u00e3o ritual\u00edstica das Am\u00e9ricas, ocorrido h\u00e1 9 mil anos e descoberto agora em uma caverna no s\u00edtio arqueol\u00f3gico de Lapa do Santo, munic\u00edpio de Matozinhos, a 51 quil\u00f4metros de Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Decapita\u00e7\u00e3o pode parecer, como diria G\u00e2ndavo, coisa de b\u00e1rbaros. Mas a cena encontrada em uma sepultura a 55cm de profundidade pelos pesquisadores aponta na dire\u00e7\u00e3o oposta. N\u00e3o se trata de um evento de viol\u00eancia e puni\u00e7\u00e3o, mas que, ao contr\u00e1rio, revela a sensibilidade e a sofistica\u00e7\u00e3o ritual\u00edstica de um povo que tinha apenas o corpo humano para expressar seus princ\u00edpios cosmol\u00f3gicos a respeito da morte. \u201cA ideia n\u00e3o \u00e9 de sacrif\u00edcio. A decapita\u00e7\u00e3o fazia parte de um ritual funer\u00e1rio no qual era importante proceder a redu\u00e7\u00e3o do corpo do falecido, ou seja, a decapita\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi a causa da morte. Ela foi realizada depois da morte do indiv\u00edduo\u201d, esclarece ao Estado de Minas o antrop\u00f3logo brasileiro Andr\u00e9 Strauss, principal autor do estudo e pesquisador do Departamento de Evolu\u00e7\u00e3o Humana do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucion\u00e1ria, na Alemanha.<\/p>\n<p>Descoberto em 2007, o sepultamento descrito no trabalho \u00e9 o de n\u00famero 26, entre os j\u00e1 encontrados em Lapa do Santo. O esqueleto enterrado pertencia a um homem jovem do Povo de Luzia, nome dado ao grupo de ca\u00e7adores-coletores que habitava a regi\u00e3o (leia Palavra de especialista). O cr\u00e2nio decapitado estava coberto pelas duas m\u00e3os do morto, amputadas e posicionadas com cuidado: a direita sobre o lado esquerdo da face, com os dedos apontando para o queixo; e a esquerda, colocada da por\u00e7\u00e3o direita do rosto, mas na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. An\u00e1lises feitas com um microsc\u00f3pio que gera modelos tridimensionais de marcas e cortes indicaram que os tecidos moles foram removidos com lascas de pedra.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o dos detalhes \u00e9 fruto de um amplo trabalho de equipe, que inclui pesquisadores da Universidade de S\u00e3o Paulo e renomados peritos forenses, como antrop\u00f3loga Sue Black, diretora do Centro de Anatomia e Identifica\u00e7\u00e3o Humana da Universidade de Dundee, no Reino Unido. Curiosamente, a especialista conta que os padr\u00f5es de decapita\u00e7\u00e3o da Lapa do Santo lembram o de um caso moderno, criminoso, no qual ela trabalhou. \u201cO caso ainda n\u00e3o foi resolvido, e a v\u00edtima ainda n\u00e3o foi n\u00e3o identificada, o que restringe as informa\u00e7\u00f5es que posso fornecer\u201d, diz. \u201cNo entanto, os padr\u00f5es de fratura visto sobre os ossos do pesco\u00e7o da ossada s\u00e3o como os da v\u00edtima de assassinato que examinei: sua cabe\u00e7a foi hiperestendida e girada, causando impacto e fratura torsional. Foi interessante ver isso nesse cr\u00e2nio brasileiro t\u00e3o antigo, que estava quase na mesma posi\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A configura\u00e7\u00e3o peculiar e cuidadosa na qual a ossada foi enterrada sugere que ela n\u00e3o pertencia a um inimigo, mas, provavelmente, a um indiv\u00edduo de status \u00fanico, como algu\u00e9m venerado. N\u00e3o foram encontradas, por exemplo, marcas de viol\u00eancia nem caracter\u00edsticas t\u00edpicas de uma cabe\u00e7a-tr\u00f3feu, como buracos preenchidos com cordas que facilitariam a exposi\u00e7\u00e3o do cr\u00e2nio. O enterro ocorreu pouco tempo ap\u00f3s a morte. \u201cO sepultamento 26 faz parte de um padr\u00e3o mortu\u00e1rio em que a redu\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres frescos e a remo\u00e7\u00e3o de partes do corpo eram um elemento central, mas o foco n\u00e3o era, necessariamente, a cabe\u00e7a\u201d, diz Strauss.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/cranio_mao_amputada.jpg\" alt=\"\" \/><em>Cr\u00e2nio na sepultura, a 55cm de profundidade. Ao lado (D), detalhe da m\u00e3o amputada que esconde a cabe\u00e7a (Foto: Max Planck de Antropologia Evolucion\u00e1ria \/ Divulga\u00e7\u00e3o)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Reformula\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>Esse achado levou o pesquisador a repensar suas impress\u00f5es sobre as pr\u00e1ticas funer\u00e1rias de Lapa do Santo. \u201cDurante muito tempo, os arque\u00f3logos acreditaram que o enterro dos mortos em Lapa do Santo era um processo simples e trivial. Foi justamente com a descoberta do sepultamento 26 e de outros semelhantes que come\u00e7amos a perceber que essa vis\u00e3o estava equivocada\u201d, explica Strauss. A ossada permite que, do ponto de vista cronol\u00f3gico, os pesquisadores reformulem as teorias sobre a \u00e9poca em que se iniciaram os rituais de decapita\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul. At\u00e9 ent\u00e3o, o caso mais antigo era do s\u00edtio Asia 1, no Peru, datado em cerca de 4 mil anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>O novo trabalho tamb\u00e9m oferece novos dados sobre a geografia desse tipo de ritual, pois achava-se que a pr\u00e1tica, em tempos pr\u00e9-coloniais, era registrada apenas na regi\u00e3o dos Andes, no lado oposto do continente. \u201cO desafio agora \u00e9 entender como o caso que reportamos se relaciona com os do outro lado do continente. Se \u00e9 que h\u00e1 alguma rela\u00e7\u00e3o\u201d, diz Strauss. Enquanto a quest\u00e3o permanece aberta, os estudos em Lapa do Santo seguem a todo vapor, com esfor\u00e7os concentrados em extrair o DNA do Povo de Luzia e estudar os microf\u00f3sseis do s\u00edtio. \u201cE claro, seguimos escavando o s\u00edtio. A cada ano, descemos cerca 40cm. \u00c9 um processo de longa dura\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><em>(Fonte: Estado de Minas)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma de suas cr\u00f4nicas sobre o Brasil, o colonizador Pero de Magalh\u00e3es G\u00e2ndavo dizia que a l\u00edngua dos \u00edndios carecia de tr\u00eas letras: \u201cf\u201d, \u201cl\u201d e \u201cr\u201d. \u201cCoisa digna de espanto\u201d, acrescentava, \u201cporque assim n\u00e3o h\u00e1 f\u00e9, nem lei, nem rei, e, dessa maneira, vivem desordenadamente\u201d. 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