{"id":68227,"date":"2015-09-10T13:05:44","date_gmt":"2015-09-10T16:05:44","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=68227"},"modified":"2015-09-10T13:05:44","modified_gmt":"2015-09-10T16:05:44","slug":"crise-hidrica-reabre-debate-sobre-gestao-das-aguas-em-minas-gerais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=68227","title":{"rendered":"Crise h\u00eddrica reabre debate sobre gest\u00e3o das \u00e1guas em Minas Gerais"},"content":{"rendered":"<p>A seca, historicamente, foi considerada o maior flagelo do semi\u00e1rido brasileiro. Inspirou escritores como Graciliano Ramos, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto e Euclides da Cunha, entre tantos outros que eternizaram o sofrimento dos sertanejos em romances como Vidas Secas, Morte e Vida Severina e Os Sert\u00f5es. Os autores, certamente, jamais imaginariam que a principal causa do sofrimento desse povo poderia bater \u00e0 porta do lado rico da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dois anos, a redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica da incid\u00eancia de chuvas levou o Sudeste brasileiro a conviver com secas consideradas as mais severas dos \u00faltimos 100 anos, conforme relat\u00f3rio de conjuntura da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA). Desde outubro de 2013, os \u00edndices pluviom\u00e9tricos reduziram a n\u00edveis baix\u00edssimos, chegando a registrar, em alguns per\u00edodos, at\u00e9 1% da quantidade esperada.<\/p>\n<p>Minas Gerais, o Estado que ainda se orgulha do t\u00edtulo de caixa d\u00b4\u00e1gua do Brasil, s\u00f3 conhecia a escassez na parte mineira do pol\u00edgono da seca, mas agora se surpreende com a crise h\u00eddrica tamb\u00e9m na Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Para avaliar a situa\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds e do Estado, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) promove o Semin\u00e1rio Legislativo \u00c1guas de Minas III &#8211; Os Desafios da Crise H\u00eddrica e a Constru\u00e7\u00e3o da Sustentabilidade, cuja etapa final ser\u00e1 realizada de 29 de setembro a 2 de outubro. \u201cNosso objetivo \u00e9 criar um marco regulat\u00f3rio para que haja um planejamento mais elaborado da gest\u00e3o das \u00e1guas\u201d, afirma o presidente da Comiss\u00e3o Extraordin\u00e1ria das \u00c1guas, deputado Iran Barbosa (PMDB).<\/p>\n<p><strong>Recurso escasso exige aten\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o fen\u00f4meno natural da redu\u00e7\u00e3o de chuvas n\u00e3o pode ser considerado o \u00fanico respons\u00e1vel pela atual crise h\u00eddrica. O assunto \u00e9 controverso e reabre chagas negligenciadas por gestores e governos sucessivos, alimentando o debate sobre as m\u00faltiplas causas e as consequ\u00eancias do problema. Especialistas explicam que a \u00e1gua dispon\u00edvel no planeta \u00e9 a mesma desde sua forma\u00e7\u00e3o, mas com o aumento da popula\u00e7\u00e3o, diminui cada vez mais a por\u00e7\u00e3o que pode ser dividida para cada habitante. A polui\u00e7\u00e3o dos mananciais dificulta ainda mais a disponibilidade de \u00e1gua pot\u00e1vel.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/crise_hidrica.jpg\" alt=\"\" \/><em>Minas Gerais, que s\u00f3 conhecia a escassez de \u00e1gua no pol\u00edgono da seca, agora se surpreende com a crise h\u00eddrica tamb\u00e9m na Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte &#8211; Foto: Guilherme Bergamini \/ ALMG<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>A diretora-geral do Instituto Mineiro de Gest\u00e3o das \u00c1guas (Igam), Maria de F\u00e1tima Chagas Dias Coelho, explica que, em Minas Gerais, a diversidade tamb\u00e9m cria situa\u00e7\u00f5es diferentes de clima e de acesso \u00e0 \u00e1gua. O semi\u00e1rido mineiro \u2013 regi\u00f5es Norte e Vale do Jequitinhonha \u2013 sempre conviveu com secas prolongadas e concentra\u00e7\u00e3o de chuvas em poucos meses. O terreno arenoso tamb\u00e9m n\u00e3o contribui para a reten\u00e7\u00e3o do l\u00edquido no subsolo. No entanto, pela primeira vez a RMBH est\u00e1 passando por uma s\u00e9ria escassez de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o da superintendente da Associa\u00e7\u00e3o Mineira de Meio Ambiente (Amda), Maria Dalce Ricas, a origem da crise h\u00eddrica est\u00e1 na desprote\u00e7\u00e3o de nascentes e zonas de recarga (\u00e1rea ao redor da nascente por onde entra a \u00e1gua da chuva para abastecer o len\u00e7ol fre\u00e1tico, no subsolo). \u201cO governo e a sociedade t\u00eam que entender que o desmatamento precisa parar. As nascentes e as margens dos rios precisam ser protegidas ou teremos muitos problemas para garantir \u00e1gua at\u00e9 para o consumo\u201d, prenuncia a ambientalista.<\/p>\n<p>O presidente do Comit\u00ea da Bacia Hidrogr\u00e1fica do Rio Paraopeba, Denes Martins da Costa Lott, tamb\u00e9m reclama do descaso com o meio ambiente e com o per\u00edodo de pouca chuva, que poderia ter sido previsto. \u201cEsses ciclos hidrol\u00f3gicos s\u00e3o sazonais, mas conhecidos. Daqui dois ou tr\u00eas anos, podemos ter excesso de chuva e enchentes. \u00c9 preciso se preparar para essas situa\u00e7\u00f5es\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A falta de planejamento para esses momentos tamb\u00e9m \u00e9 pontuada pelo gerente de Pesquisa e Desenvolvimento de Recursos H\u00eddricos do Igam, Thiago Figueiredo Santana, como uma das principais causas para os problemas enfrentados atualmente. \u201cA crise exp\u00f4s o problema da falta de gest\u00e3o e planejamento. A sociedade viveu a abund\u00e2ncia de oferta com desperd\u00edcio e agora sofre com a escassez\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Todos eles concordam que a falta de educa\u00e7\u00e3o ambiental tamb\u00e9m levou o Pa\u00eds a descuidar dos recursos h\u00eddricos. \u201c\u00c9 preciso quebrar o paradigma de que a \u00e1gua \u00e9 infinita. N\u00e3o \u00e9. \u00c9 um recurso limitado e precisa ser valorizado\u201d, defende Thiago Santana. O mau uso aliado \u00e0 defici\u00eancia da fiscaliza\u00e7\u00e3o, para Denes Lott, agrava ainda mais o problema.<\/p>\n<p>\u201cA informa\u00e7\u00e3o correta \u00e9 fundamental\u201d, lembra Maria Dalce. Segundo ela, a pecu\u00e1ria \u00e9 outra vil\u00e3 que pode ser apontada e que a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o sabe. De acordo com ela, o gado pisoteia as nascentes, provocando desbarrancamento, assoreamento e impedindo o crescimento das plantas. Cada boi provoca um impacto ambiental equivalente a dez eucaliptos \u2013 \u00e1rvore que consome muita \u00e1gua.<\/p>\n<p><strong>M\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o dos mananciais dificulta o acesso \u00e0 \u00e1gua<\/strong><\/p>\n<p>O desafio da falta d\u00b4\u00e1gua j\u00e1 come\u00e7a na distribui\u00e7\u00e3o desse recurso no territ\u00f3rio nacional. O Brasil det\u00e9m cerca de 16% de toda \u00e1gua doce dispon\u00edvel no planeta, mas apenas 0,7% \u00e9 utilizado, em fun\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as de ocorr\u00eancia. A regi\u00e3o Norte, onde est\u00e1 cerca de 7% da popula\u00e7\u00e3o, det\u00e9m 68% de todos os recursos h\u00eddricos; enquanto o Sudeste, que concentra 42% dos brasileiros, possui somente 6% dos mananciais.<\/p>\n<p>A press\u00e3o demogr\u00e1fica torna-se, ent\u00e3o, outro fator que explica a dificuldade de atender \u00e0 demanda, que cresce junto com a popula\u00e7\u00e3o, o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e o desenvolvimento industrial. A \u00e1gua, vital para a vida humana, tem m\u00faltiplos usos: na agricultura, em processos industriais, para lazer e para matar a sede de homens e animais. A melhoria na distribui\u00e7\u00e3o de renda e de acesso ao servi\u00e7o de \u00e1gua faz aumentar a demanda, comprometendo a disponibilidade do recurso, segundo Thiago Santana.<\/p>\n<p>O Atlas Brasil, editado pela ANA em 2010, aponta que a retirada de \u00e1gua da natureza triplicou nos \u00faltimos 50 anos. Se todas as pessoas consumissem o mesmo n\u00edvel que os europeus e os americanos, seriam necess\u00e1rios 3,5 planetas para atender a necessidade. De acordo com o documento, uma crian\u00e7a de pa\u00eds rico consome entre 30 e 50 vezes mais \u00e1gua que uma crian\u00e7a de um pa\u00eds pobre. A previs\u00e3o \u00e9 de que, at\u00e9 2030, 47% da popula\u00e7\u00e3o mundial viver\u00e1 com grande escassez de \u00e1gua.<\/p>\n<p>No Brasil, o consumo m\u00e9dio de \u00e1gua por habitante tamb\u00e9m vem crescendo gradativamente. Conforme o \u201cDiagn\u00f3stico dos Servi\u00e7os de \u00c1gua e Esgotos\u201d do Minist\u00e9rio das Cidades, produzido com base em dados do Sistema Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNIS) em 2013, a m\u00e9dia per capita foi de 166,3 litros por habitante. O consumo varia de acordo com as regi\u00f5es, de 125,8 l\/hab.dia no Nordeste, a 194,0 no Sudeste. O Rio de Janeiro \u00e9 o campe\u00e3o brasileiro, com uma m\u00e9dia de 253,1 l\/hab.dia. Em 2013, Minas Gerais registrou uma m\u00e9dia inferior \u00e0 nacional: 159,4 l\/hab.dia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.almg.gov.br\/acompanhe\/noticias\/especiais\/aguas_de_minas\/img\/consumo-agua.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>A polui\u00e7\u00e3o dos mananciais, por outro lado, reduz a disponibilidade de \u00e1gua pot\u00e1vel ou dificulta e encarece os processos de tratamento do l\u00edquido. S\u00e3o muitos os rios que j\u00e1 foram naveg\u00e1veis e hoje s\u00e3o apenas rastilhos de \u00e1gua podre e sem uso. A Terra passa, tamb\u00e9m, por altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que est\u00e3o mudando o ciclo hidrol\u00f3gico, gerando secas prolongadas em algumas regi\u00f5es e enchentes e inunda\u00e7\u00f5es em outras.<\/p>\n<p><strong>A amea\u00e7a que vem do c\u00e9u<\/strong><\/p>\n<p>Estudiosos de climatologia advertem para mudan\u00e7as ainda mais profundas que j\u00e1 est\u00e3o em processamento no planeta e inevitavelmente v\u00e3o alterar a realidade hoje conhecida. O Painel Brasileiro de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (PBMC), um comit\u00ea que re\u00fane especialistas do Pa\u00eds no assunto, fez algumas proje\u00e7\u00f5es, com diferentes graus de confiabilidade.<\/p>\n<p>De acordo com esses estudos, a Amaz\u00f4nia deve ter uma redu\u00e7\u00e3o de 10% no \u00edndice de chuvas j\u00e1 nos pr\u00f3ximos cinco anos. A previs\u00e3o \u00e9 de que a temperatura se eleve entre 5\u00baC e 6\u00baC e a precipita\u00e7\u00e3o pluviom\u00e9trica (ocorr\u00eancia de chuva) tenha uma queda entre 40% e 45% at\u00e9 o final do s\u00e9culo. O semi\u00e1rido do Nordeste, j\u00e1 t\u00e3o castigado pela seca, tamb\u00e9m deve sofrer um aumento de temperatura entre 3,5\u00b0C e 4,5\u00b0C e uma queda de 40% a 50% nos \u00edndices de chuvas. J\u00e1 a regi\u00e3o Sul, embora tamb\u00e9m v\u00e1 registrar entre 2,5\u00b0C e 3\u00b0C de mais calor, ter\u00e1 entre 35% e 40% a mais de chuvas, aumentando o risco de alagamentos.<\/p>\n<p>As proje\u00e7\u00f5es para o Sudeste n\u00e3o foram consideradas muito confi\u00e1veis pelo PBMC, mas apontam para um aumento entre 2,5\u00b0C e 3\u00b0C na temperatura e de 25% a 30% tamb\u00e9m de crescimento na pluviosidade. Em Minas Gerais, o risco j\u00e1 \u00e9 iminente. A continuar a falta de chuva este ano, o pr\u00f3prio Igam prev\u00ea esgotamento da capacidade de abastecimento dos sistemas Rio Manso, Serra Azul e Vargem das Flores at\u00e9 novembro, quando os reservat\u00f3rios respons\u00e1veis pelo abastecimento da RMBH atingir\u00e3o n\u00edveis baix\u00edssimos.<\/p>\n<p><em>(Fonte: ALMG \/ LUCIENE FERREIRA)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A seca, historicamente, foi considerada o maior flagelo do semi\u00e1rido brasileiro. Inspirou escritores como Graciliano Ramos, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto e Euclides da Cunha, entre tantos outros que eternizaram o sofrimento dos sertanejos em romances como Vidas Secas, Morte e Vida Severina e Os Sert\u00f5es. 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