{"id":66164,"date":"2015-08-22T13:13:57","date_gmt":"2015-08-22T16:13:57","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=66164"},"modified":"2015-08-22T13:13:57","modified_gmt":"2015-08-22T16:13:57","slug":"mais-de-60-mil-pessoas-morreram-em-manicomio-mineiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=66164","title":{"rendered":"Mais de 60 mil pessoas morreram em manic\u00f4mio mineiro"},"content":{"rendered":"<p>Ao longo do s\u00e9culo passado, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para pessoas com transtornos mentais era o isolamento em manic\u00f4mios. O maior do Brasil foi o Col\u00f4nia, que come\u00e7ou a funcionar em 1903, em Barbacena, Minas Gerais. L\u00e1, pelo menos 60 mil pessoas perderam a vida numa trajet\u00f3ria de quase um s\u00e9culo de desrespeitos aos direitos humanos.<\/p>\n<p>Hiram Firmino foi um dos poucos jornalistas a entrar no hosp\u00edcio, no fim da d\u00e9cada de 1970. Ele escreveu diversas mat\u00e9rias com den\u00fancias sobre os horrores que viu no Col\u00f4nia. \u201cMulher \u00e9 um s\u00edmbolo de beleza. Para mim, foi chocante ver as mulheres do hosp\u00edcio no ch\u00e3o, sujas, igual bicho, quase todas nuas, no meio de fezes, urina, rato, dormindo em capim. Agora ver as crian\u00e7as no mesmo estado, com um pneu velho o dia inteiro, que era a \u00fanica coisa que tinham para brincar, foi ainda pior\u201d, desabafa o jornalista.<\/p>\n<p>A terapia por meio de choques era usada, muitas vezes, como poderosa arma de puni\u00e7\u00e3o contra os que n\u00e3o se comportavam. Sueli Rezende morreu no regime de interna\u00e7\u00e3o. A filha, D\u00e9bora Soares, 30 anos, foi adotada. Ao buscar informa\u00e7\u00f5es sobre a m\u00e3e biol\u00f3gica, D\u00e9bora ficou horrorizada com o que viu nos prontu\u00e1rios. \u201cMinha m\u00e3e chegou a receber quinze sess\u00f5es de choque em um m\u00eas, era dia sim, dia n\u00e3o, algo intoler\u00e1vel. Ela se rebelava e fazia de tudo para n\u00e3o levar o choque: corria, ia pro banheiro, tentava derrubar o aparelho e lutava com os funcion\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p>A jornalista Daniela Arbex fez uma vasta pesquisa sobre o Col\u00f4nia. Ela escreveu uma s\u00e9rie de reportagens e um livro sobre o assunto. Daniela descobriu que o esgoto corria a c\u00e9u aberto no hosp\u00edcio e muitas vezes servia de alimento. \u201cVoc\u00ea via as pessoas definhando. Isso j\u00e1 \u00e9 um ind\u00edcio muito forte de que n\u00e3o havia alimenta\u00e7\u00e3o. Os funcion\u00e1rios da \u00e9poca e os pr\u00f3prios pacientes contaram que n\u00e3o havia alimento suficiente, que eles passavam fome, que, muitas vezes, havia uma sopa rala\u201d.<\/p>\n<p>A maioria dos doentes n\u00e3o tinha direito a cama. Dormiam em capins, agarrados uns aos outros para espantar o frio das serras geladas de Barbacena. A superlota\u00e7\u00e3o do hosp\u00edcio era a justificativa para o descaso. Em 1960, em um lugar projetado inicialmente para 200 pacientes, havia 5 mil. Muitos que passavam por tudo isso nem tinham transtorno mental.<\/p>\n<p>\u201cA gente encontrou hist\u00f3rias de pessoas que foram mandadas pro hospital para esconder uma gravidez, porque tinham perdido seus documentos ou porque o marido resolveu ficar com a amante\u201d, constatou Daniela.<\/p>\n<p><strong>Encontros e Desencontros<\/strong><\/p>\n<p>Nos antigos manic\u00f4mios, as mulheres que engravidavam n\u00e3o podiam ficar com os filhos. As crian\u00e7as eram adotadas ou iam para orfanatos. A secret\u00e1ria D\u00e9bora Soares nasceu dentro do hosp\u00edcio de Barbacena. Foi adotada por uma funcion\u00e1ria do lugar. J\u00e1 adulta, D\u00e9bora descobriu que a m\u00e3e biol\u00f3gica se chamava Sueli Rezende e que ela poderia estar internada no hospital psiqui\u00e1trico da cidade. Ao chegar ao local, ficou sabendo que a m\u00e3e havia morrido h\u00e1 um ano.<\/p>\n<p>Agora, D\u00e9bora quer descobrir o paradeiro da irm\u00e3, a segunda filha que Sueli teve no hospital. \u201cEla foi entregue para ado\u00e7\u00e3o. Eu s\u00f3 sei que nasceu no dia 15 de junho de 1986, \u00e9 dois anos mais nova e o nome que minha m\u00e3e escolheu pra ela foi Luzia Rezende. Mas devem ter trocado o nome\u201d.<\/p>\n<p>Ao ler os prontu\u00e1rios da m\u00e3e biol\u00f3gica no hospital, D\u00e9bora teve a certeza de que foi muito amada por ela. \u201cAs \u00fanicas lembran\u00e7as que minha m\u00e3e tinha eram a cor de pele das filhas, uma morena e outra branquinha, e as datas de nascimento. Quando eu fiz 8 anos, ela teve uma crise e ficou pedindo para saber como era o rostinho da filha\u201d, revela D\u00e9bora.<\/p>\n<p>O bombeiro Jo\u00e3o Bosco, 48 anos, e a m\u00e3e Geralda Siqueira, 66 anos, ex-interna do hosp\u00edcio de Barbacena, tamb\u00e9m foram v\u00edtimas da pol\u00edtica de afastamento entre m\u00e3es e filhos nos manic\u00f4mios. Geralda ainda foi v\u00edtima do isolamento no manic\u00f4mio sem nunca ter tido transtorno mental. \u00d3rf\u00e3 desde crian\u00e7a, ela foi morar aos 11 anos numa casa de fam\u00edlia para ser empregada dom\u00e9stica. Foi estuprada v\u00e1rias vezes pelo patr\u00e3o, at\u00e9 ficar gr\u00e1vida. Para se livrar do problema, o patr\u00e3o a levou para o hosp\u00edcio. \u201cEu levei o maior choque porque eu nunca tinha visto aquilo. Era horr\u00edvel ficar naquela pris\u00e3o, no meio daquela bagun\u00e7a, sujeira, com uma por\u00e7\u00e3o de gente doente\u201d, desabafa a ex-interna do hosp\u00edcio.<\/p>\n<p>Depois que o filho Jo\u00e3o Bosco nasceu, Geralda conseguiu alta do hosp\u00edcio. Foi atr\u00e1s de emprego e deixou o filho com religiosas que trabalhavam no local. Um dia, quando voltou para visit\u00e1-lo, a crian\u00e7a n\u00e3o estava mais l\u00e1. Geralda ficou desesperada e come\u00e7ou a cobrar explica\u00e7\u00f5es sobre o paradeiro do menino.<\/p>\n<p>\u201cComo eu fiquei nervosa, os funcion\u00e1rios me pegaram pelo bra\u00e7o e me levaram para a sala de tratamento com eletrochoque. Levei um choque enorme e fui amea\u00e7ada de ficar internada para sempre no hosp\u00edcio caso voltasse l\u00e1 atr\u00e1s do meu filho. Nunca mais tive not\u00edcia dele\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Bosco foi para um orfanato, depois para a Febem (local onde se internavam jovens em conflito com a lei) e finalmente passou no concurso do Corpo de Bombeiros. Os colegas da corpora\u00e7\u00e3o \u00e9 que tentaram descobrir o paradeiro da m\u00e3e de Jo\u00e3o e conseguiram encontr\u00e1-la em 2011. De l\u00e1 pra c\u00e1, os dois n\u00e3o se desgrudam. \u201cPor mais que os problemas da vida levem cada um para um lado, existe um la\u00e7o invis\u00edvel, enla\u00e7ado por Deus, entre a m\u00e3e e o filho. Isso ningu\u00e9m rompe. Quando nos reencontramos, voltamos \u00e0 nossa origem\u201d, disse Jo\u00e3o Bosco.<\/p>\n<p><em>(Fonte: Ag\u00eancia Brasil)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo do s\u00e9culo passado, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para pessoas com transtornos mentais era o isolamento em manic\u00f4mios. 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