{"id":65875,"date":"2015-08-19T11:02:04","date_gmt":"2015-08-19T14:02:04","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=65875"},"modified":"2015-08-19T11:35:37","modified_gmt":"2015-08-19T14:35:37","slug":"minas-tem-mar-142-quilometros-de-terras-no-litoral-baiano-podem-pertencer-a-minas-gerais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=65875","title":{"rendered":"Minas tem mar? 142 quil\u00f4metros de terras no litoral baiano podem pertencer a Minas Gerais"},"content":{"rendered":"<p>Minas Gerais tem mar? N\u00e3o apenas os livros de geografia, como o pr\u00f3prio senso comum afirmam, categoricamente: \u201cN\u00e3o\u201d. Mas a hist\u00f3ria pode reservar uma outra resposta a essa pergunta, aparentemente sem nexo. Um peda\u00e7o de terra na Bahia, com 142 quil\u00f4metros de extens\u00e3o por 12 quil\u00f4metros de largura , pode ser patrim\u00f4nio mineiro \u2013 a abertura do estado para o Atl\u00e2ntico \u2013 desde 1910. Trata-se de um trecho que come\u00e7a na divisa dos munic\u00edpios de Serra dos Aimor\u00e9s (MG) e Mucuri (BA) e termina no mar, em um filete de ch\u00e3o que inclui parte da cidade hist\u00f3rica de Caravelas e seus dois distritos: Ponta de Areia e Barra de Caravelas.<\/p>\n<p>O assunto \u00e9 pol\u00eamico e tem in\u00edcio com a hist\u00f3ria da Baiminas, a ferrovia que ligou Ponta de Areia (BA) a Ara\u00e7ua\u00ed, no Vale do Jequitinhonha. Inaugurada em 1881, a estrada de ferro seria desativada em 1966. Para incentivar a constru\u00e7\u00e3o da linha pela iniciativa privada, dom Pedro II (1825-1891) concedeu \u00e0 Companhia de Estrada de Ferro Bahia e Minas seis quil\u00f4metros de terras devolutas em cada uma das margens dos trilhos.<\/p>\n<p>A empresa enfrentou dificuldade financeira no fim daquela d\u00e9cada e hipotecou as terras ao Banco de Cr\u00e9dito Real do Brasil. Em 1908, j\u00e1 proclamada a Rep\u00fablica, a institui\u00e7\u00e3o financeira executou a d\u00edvida. Dois anos depois, quando foi a vez de o banco entrar em liquida\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, o governo de Minas adquiriu as terras em escritura de cess\u00e3o de cr\u00e9dito e transfer\u00eancia de direito. O pagamento foi por meio de t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Por algum motivo, contudo, Minas jamais explorou as terras. O assunto permaneceu no esquecimento por quase quatro d\u00e9cadas. Apenas em 1948, o ent\u00e3o advogado-geral do estado, Darcy Bessone, alertou o governador Milton Campos (1900-1972) sobre o poss\u00edvel mar de Minas. Dias depois, o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Finan\u00e7as, Magalh\u00e3es Pinto, fez o mesmo.<\/p>\n<p>\u201cSenhor governador, tenho a honra de submeter \u00e0 elevada considera\u00e7\u00e3o de Vossa Excel\u00eancia o presente processo relativo ao dom\u00ednio do estado sobre terras marginais da estrada de ferro Bahia-Minas, no qual se encontra c\u00f3pia do parecer emitido pelo doutor advogado-geral do estado, pedindo a Vossa Excel\u00eancia deliberar sobre a orienta\u00e7\u00e3o que se deva imprimir ao caso\u201d, escreveu Magalh\u00e3es Pinto na \u00e9poca.<\/p>\n<p>O chefe do Executivo determinou ao advogado-geral que encaminhasse um expediente ao seu cong\u00eanere na Bahia. A ordem foi cumprida em 1949: \u201cTenho a honra de submeter \u00e0 elevada considera\u00e7\u00e3o de Vossa Excel\u00eancia os inclusos documentos relativos a terras marginais da Bahia-Minas, de propriedade deste estado (Minas). (\u2026) Como v\u00ea Vossa Excel\u00eancia, exclui-se do dom\u00ednio desse estado (Bahia), ao qual n\u00e3o se contesta, todavia, o poder jurisdicional resultante dos limites que o separam do territ\u00f3rio mineiro\u201d.<\/p>\n<p>O assunto veio a p\u00fablico na d\u00e9cada de 1970, em mat\u00e9ria da revista O Cruzeiro, assinada pelo ent\u00e3o rep\u00f3rter Fernando Brant (1946-2015), que viria a se tornar o principal compositor de m\u00fasicas interpretadas por Milton Nascimento. Em seu texto, Brant informava que o of\u00edcio encaminhado pelo advogado-geral de Minas aguardava resposta do colega baiano havia, ent\u00e3o, quase 25 anos. Procurado pelo Estado de Minas, o governo baiano informou que procuraria o documento para emitir uma resposta. Por\u00e9m, n\u00e3o se manifestou at\u00e9 o fechamento desta edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas se os questionamentos sobre a sa\u00edda mineira para o mar foram em v\u00e3o, a viagem de Brant para apurar a mat\u00e9ria teve muito mais proveito do que apenas a reportagem publicada em O Cruzeiro. A partir dela, veio a inspira\u00e7\u00e3o para que o compositor escrevesse a can\u00e7\u00e3o Ponta de Areia, cujos versos iniciais ocupam o alto desta p\u00e1gina.<\/p>\n<p>A m\u00fasica agrada aos ouvidos do pescador Manoel da Silva, de 45 anos. Mas ele \u00e9 taxativo quanto \u00e0 sua naturalidade: baiano. \u201cNasci em Caravelas e moro em Ponta de Areia. Aqui vai ser sempre Bahia. Contudo, sou \u00e9 Flamengo\u201d, brinca o homem.<\/p>\n<p>Apesar da convic\u00e7\u00e3o do pescador baiano, Brant entendeu de maneira diferente: \u201c\u00c9 apenas um fiapo no mapa, mas \u00e9 o quanto basta para Minas. Um fio de linha, uma modesta e t\u00edmida maneira de se chegar ao mar. O direito real \u00e9 aclarado pelos documentos; falta a posse de fato para que o mineiro possa um dia dizer, debaixo das amendoeiras de Grau\u00e7\u00e1 e Aracar\u00e9: \u2018Olha a\u00ed o nosso mar\u2019\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/parte_baiana_mineira.jpg\" alt=\"\" \/><em>Faixa \u00e0s margens de ferrovia incorporaria ao territ\u00f3rio uma abertura at\u00e9 o Atl\u00e2ntico, reclamada em fins dos anos 1940. Governo do Estado vizinho, por\u00e9m, jamais respondeu \u00e0 reinvindica\u00e7\u00e3o &#8211; Arte: Jornal Estado de Minas<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>De ponto final a ponto de partida<\/strong> <\/p>\n<p>Todos os anos, uma legi\u00e3o de turistas chega a Caravelas, no Sul da Bahia, e a seus distritos mais famosos: Ponta de Areia e Barra de Caravelas. Entre esses visitantes est\u00e1 uma multid\u00e3o de mineiros. Al\u00e9m da charmosa arquitetura de origem portuguesa no Centro Hist\u00f3rico da sede do munic\u00edpio, fundado em 1503, os povoados s\u00e3o ponto de partida para quem deseja seguir em embarca\u00e7\u00f5es para o arquip\u00e9lago de Abrolhos, famoso pelas piscinas naturais e pelos avistamentos de baleias jubarte.<\/p>\n<p>Morador de Belo Horizonte, o baiano Jacy Muniz de Almeida, de 92 anos, conhece Caravelas e seus distritos como poucos. \u201cTrabalhei na Baiminas por 20 anos. Fui o chefe da esta\u00e7\u00e3o daqui. Vivo em BH desde 1981, mas sempre venho passear aqui. Caravelas, Ponta de Areia e Barra de Caravelas s\u00e3o da Bahia\u201d, atesta o ex-ferrovi\u00e1rio, enquanto descansa em um dos bancos da pra\u00e7a em frente \u00e0 Igreja de Santo Ant\u00f4nio, padroeiro de Caravelas.<\/p>\n<p>O rio hom\u00f4nimo fica a poucos metros do templo. Boa parte da margem \u00e9 tomada por um mangue que garante aos moradores de Ponta de Areia, sobretudo, farta alimenta\u00e7\u00e3o, com frutos do mar como caranguejos. O pescador Manoel da Silva sempre est\u00e1 \u00e0 procura de alguns. \u201c\u00c9 no rio e no mar que garanto a alimenta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Tenho dois garotos e uma mo\u00e7a\u201d, conta o baiano convicto, que sequer sonha se converter \u00e0 mineiridade.<\/p>\n<p><em>(Fonte: Jornal Estado de Minas)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minas Gerais tem mar? N\u00e3o apenas os livros de geografia, como o pr\u00f3prio senso comum afirmam, categoricamente: \u201cN\u00e3o\u201d. Mas a hist\u00f3ria pode reservar uma outra resposta a essa pergunta, aparentemente sem nexo. 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