{"id":64158,"date":"2015-07-26T13:40:42","date_gmt":"2015-07-26T16:40:42","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=64158"},"modified":"2015-07-26T13:40:42","modified_gmt":"2015-07-26T16:40:42","slug":"transfobia-e-entrave-para-mercado-de-trabalho-inclusivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=64158","title":{"rendered":"Transfobia \u00e9 entrave para mercado de trabalho inclusivo"},"content":{"rendered":"<p>Para ajudar os pais com a mensalidade da faculdade de Farm\u00e1cia, Renata trabalhou no servi\u00e7o de call center de uma transportadora. Com 21 anos, ela vivia o in\u00edcio do per\u00edodo em que se assumiria como Renata Florence, aceitando uma identidade feminina que agora percebia ser a sua. Momentos de depress\u00e3o foram frequentes durante a vida acad\u00eamica: quaisquer roupas femininas que comprasse eram jogadas no lixo pela m\u00e3e, e os professores desencorajavam-na a se aceitar como transexual, por causa do mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Com o t\u00e9rmino do curso, o que parecia ser o come\u00e7o de uma vida profissional que lhe daria independ\u00eancia e seguran\u00e7a teve outro rumo. Para conseguir emprego, Renata tinha que fingir ser homem, e, mesmo assim, foi ficando cada vez mais dif\u00edcil conforme sua identidade se externava com a terapia hormonal. &#8220;Estou h\u00e1 mais de um ano desempregada. J\u00e1 prestei oito processos seletivos, tanto com meu nome social quanto com o de registro. Hoje, fa\u00e7o programa&#8221;, diz ela, que tem 27 anos. Com base no trabalho de campo e na experi\u00eancia de 105 entidades que atuam em prol dos direitos da popula\u00e7\u00e3o trans, a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Transexuais e Transg\u00eaneros estima que essa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de 90% das mulheres transexuais do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;Nunca imaginava estar na rua. Mas a vida \u00e9 assim. Do ano passado para c\u00e1, passei por muita coisa que eu n\u00e3o imaginava que passaria&#8221;, conta a farmac\u00eautica, que foi expulsa de casa pela fam\u00edlia e hoje divide apartamento com um amigo.<\/p>\n<p><strong>Transempregos<\/strong><\/p>\n<p>Criado por Daniela Andrade, M\u00e1rcia Rocha e Paulo Bevilacqua, o site Transempregos permite o an\u00fancio de vagas para pessoas trans e tenta enfrentar essa realidade. Artista pl\u00e1stico, Paulo conta que a iniciativa partiu de experi\u00eancias pessoais e de conhecidos: &#8220;Percebi que minhas amigas e amigos n\u00e3o conseguiam emprego de jeito nenhum. Tamb\u00e9m notei isso na pele quando vi que, depois de come\u00e7ar minha transi\u00e7\u00e3o, ficou muito mais dif\u00edcil passar para uma segunda etapa de sele\u00e7\u00e3o ao revelar que ainda tinha documentos femininos&#8221;, lembra ele.<\/p>\n<p>No momento, a p\u00e1gina est\u00e1 paralisada para manuten\u00e7\u00e3o, mas Paulo conta que a procura s\u00f3 aumenta. &#8220;A demanda cresce enlouquecidamente. Mesmo avisando que o site est\u00e1 fora do ar, por enquanto, existem pessoas enviando e-mails, mandando mensagem para a p\u00e1gina no Facebook, contactando a gente via mensagem privada&#8221;, diz ele, que, apesar de receber an\u00fancios de profissionais de todos n\u00edveis qualifica\u00e7\u00e3o, percebe o impacto da transfobia na qualifica\u00e7\u00e3o. &#8220;A pessoa \u00e9 desencorajada a estudar por causa de insultos, piadas e at\u00e9 mesmo agress\u00f5es f\u00edsicas. Se sente deslocada num ambiente que n\u00e3o \u00e9 acolhedor a minorias e n\u00e3o pode se assumir de forma segura.\u201d<\/p>\n<p><strong>Constrangimentos<\/strong><\/p>\n<p>Com 15 anos de carreira na \u00e1rea de softwares, Daniela Andrade, de 35 anos, conheceu bem as dificuldades de conseguir trabalho e se sentir confort\u00e1vel no emprego. &#8220;Trabalhei em v\u00e1rias empresas em que n\u00e3o me davam nem oi nem tchau. Na hora de almo\u00e7ar, n\u00e3o me chamavam&#8221;, conta. Na faculdade, n\u00e3o era diferente. &#8220;Em uma sala de 45 pessoas, tinham tr\u00eas mulheres. Foi muito dif\u00edcil. O pessoal era bastante preconceituoso. Nos quatro anos, s\u00f3 falava com uma pessoa, que era um homem gay e tamb\u00e9m sofria discrimina\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Antes mesmo de enfrentar o preconceito no cotidiano de uma empresa, a analista programadora conta que os homens e mulheres transexuais t\u00eam que superar constrangimentos e a desinforma\u00e7\u00e3o durante os processos seletivos. &#8220;[Isso] j\u00e1 come\u00e7a na recep\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea n\u00e3o trocou os documentos, t\u00eam que explicar sua intimidade para uma pessoa que nunca viu na vida e que muitas vezes n\u00e3o sabe sobre o assunto&#8221;, conta. &#8220;Na maioria das vezes, voc\u00ea n\u00e3o vai falar, na entrevista, sobre suas compet\u00eancias. Voc\u00ea acaba falando da sua vida particular. Quando algu\u00e9m fala que \u00e9 transsexual, a primeira coisa que a pessoa pergunta \u00e9 se voc\u00ea \u00e9 operada. Voc\u00ea percebe que, de repente, a entrevista de emprego gira em torno de a pessoa querer saber sobre a sua genital. J\u00e1 at\u00e9 perguntaram para mim: &#8216;Fica igual \u00e0 vagina de uma mulher de verdade?'&#8221;.<\/p>\n<p>Popular nas redes sociais, Daniela tem dividido recentemente com os seguidores a euforia de ter mudado de emprego para a ThoughtWorks, uma empresa de tecnologia que considera respeitosa com a diversidade. &#8220;\u00c9 legal voc\u00ea estar em um ambiente em que h\u00e1 uma diversidade de pessoas, um ambiente com mulheres, pessoas negras. H\u00e1 uma pluralidade de ideias&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Seguran\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Para Laysa Machado, de 44 anos, a solu\u00e7\u00e3o foi o funcionalismo p\u00fablico. Hoje diretora de uma escola estadual do Paran\u00e1, ela foi demitida de uma institui\u00e7\u00e3o de ensino religiosa quando iniciou seu processo de transi\u00e7\u00e3o e chegou a ser obrigada a mentir que era hermafrodita para n\u00e3o perder outro emprego. &#8220;Quando eu fui demitida de dois empregos, me vi sem trabalho e sem dinheiro. Eu peguei o dinheiro da poupan\u00e7a que eu tinha e comprei um cortador de grama e fui fazer jardinagem para n\u00e3o passar fome.&#8221;<\/p>\n<p>Ao conseguir passar para um emprego estatut\u00e1rio, ela experimentou a seguran\u00e7a de poder trabalhar sendo ela mesma, e o resultado foi a vit\u00f3ria em duas elei\u00e7\u00f5es para a dire\u00e7\u00e3o da Escola Estadual Chico Mendes, na regi\u00e3o metropolitana de Curitiba. &#8220;Em 2008, nossa chapa foi t\u00e3o subestimada que n\u00e3o achavam que a gente tinha chance alguma, mas conseguimos ganhar. Dos 1,2 mil alunos, tivemos 1,1 mil votos.&#8221;<\/p>\n<p>Acolhida por boa parte dos alunos e professores da escola, Laysa se sente uma exce\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o trans. &#8220;Sou uma exce\u00e7\u00e3o. Estou \u00e0 frente de uma institui\u00e7\u00e3o que \u00e9 excludente. Enquanto aluna, fui exclu\u00edda. Se fosse pela escola, eu teria desistido de estudar no prezinho.&#8221;<\/p>\n<p>Laysa mora com o namorado, o microempres\u00e1rio e tamb\u00e9m transexual David Zimmermann, de 24 anos. V\u00edtima de transfobia no trabalho inclusive por parte de homossexuais, David investiu em um neg\u00f3cio pr\u00f3prio. &#8220;As pessoas trans j\u00e1 t\u00eam uma for\u00e7a t\u00e3o grande, que elas t\u00eam capacidade de lideran\u00e7a, mesmo que pra elas n\u00e3o pare\u00e7a. Elas t\u00eam a for\u00e7a de ter sua opini\u00e3o diante do mundo. A gente passa por tanta coisa que, com certeza, tem a firmeza de administrar&#8221;, destaca ele.<\/p>\n<p>Aproveitando a pr\u00f3pria experi\u00eancia, o empres\u00e1rio passou a fabricar produtos voltados para homens trans, como pr\u00f3teses penianas e coletes para ocultar seios. No futuro, os planos s\u00e3o contratar e atuar em outros ramos. &#8220;Trabalho s\u00f3 com isso e tenho uma boa renda, mas penso em ter outros neg\u00f3cios futuramente. Penso em abrir um empreendimento tur\u00edstico com pessoas trans trabalhando comigo. Sei como \u00e9 dif\u00edcil conseguir emprego no mercado de trabalho.&#8221; (Ag\u00eancia Brasil)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para ajudar os pais com a mensalidade da faculdade de Farm\u00e1cia, Renata trabalhou no servi\u00e7o de call center de uma transportadora. Com 21 anos, ela vivia o in\u00edcio do per\u00edodo em que se assumiria como Renata Florence, aceitando uma identidade feminina que agora percebia ser a sua. 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