{"id":62312,"date":"2015-06-29T08:08:39","date_gmt":"2015-06-29T11:08:39","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=62312"},"modified":"2015-06-29T08:08:39","modified_gmt":"2015-06-29T11:08:39","slug":"seca-e-a-falta-de-recursos-agravam-situacao-de-familias-nas-favelas-do-vale-do-jequitinhonha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=62312","title":{"rendered":"Seca e a falta de recursos agravam situa\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias nas favelas do Vale do Jequitinhonha"},"content":{"rendered":"<h4><strong><em>Moradores dizem que j\u00e1 perderam a esperan\u00e7a. Abundam constru\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, esgoto \u00e9 jogado em rio e um buraco serve de lix\u00e3o.<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Em uma casa de dois c\u00f4modos, sem banheiro, quase \u00e0s margens do Rio Ara\u00e7ua\u00ed, mora Iduviges da Costa Soares, de 34 anos, e seus cinco filhos. H\u00e1 dois anos, ela deixou Laranjeira, na zona rural de Itinga, para tentar a vida em Ara\u00e7ua\u00ed. Sem dinheiro para pagar aluguel, foi morar em um barraco em uma pequena faixa de terra, constru\u00eddo pelo pai, j\u00e1 falecido, que tamb\u00e9m deixou a terra natal para arriscar a sorte no munic\u00edpio, uma das cidades-polo da Regi\u00e3o do M\u00e9dio Jequitinhonha, que vive um processo de faveliza\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o a olhos vistos. Batizado de S\u00e3o Jorge, o bairro de Eduviges \u00e9 um exemplo disso. No aglomerado, as ruas n\u00e3o t\u00eam asfalto, o lixo est\u00e1 espalhado por todos os cantos e o esgoto corre a c\u00e9u aberto. Os moradores tamb\u00e9m enfrentam problemas com o consumo e o tr\u00e1fico de drogas e muitos t\u00eam medo de falar e sofrer repres\u00e1lias.<\/p>\n<p>Mesma situa\u00e7\u00e3o do lugar conhecido como Calhauzinho, tamb\u00e9m na beira do Rio Ara\u00e7ua\u00ed, onde a cidade come\u00e7ou. L\u00e1 fica a primeira rua do munic\u00edpio, a Gentil de Castro, homenagem a um coronel e um dos fundadores da cidade, onde mora seu Joscelino Costa Almeida, de 59, e toda a fam\u00edlia. Nascido no mesmo dia da posse do presidente Juscelino Kubitschek, da\u00ed seu nome \u2013 grafado errado no cart\u00f3rio \u2013,  ele criou todos os filhos nesse local. Alguns continuam na casa do pai ou em moradias prec\u00e1rias constru\u00eddas ao redor. A rua, que j\u00e1 foi uma das vias mais movimentadas da cidade, nem de longe lembra seus tempos de glamour.<\/p>\n<p>No lugar, abundam constru\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, o esgoto \u00e9 jogado diretamente no rio e um buraco enorme serve de lix\u00e3o, onde s\u00e3o despejados eletrodom\u00e9sticos velhos, carca\u00e7as de animais e toda sorte de res\u00edduos. A lou\u00e7a \u00e9 lavada no rio, um pouco antes de onde corre o esgoto. \u201cAqui era muito bom\u201d, lamenta Joscelino, que j\u00e1 trabalhou na prefeitura, na Vale do Rio Doce e foi canoeiro, mas cujo lema hoje \u00e9 \u201cesperar o que vem e comer o que n\u00e3o tem\u201d. \u201cN\u00e3o tenho sal\u00e1rio, n\u00e3o tenho emprego mais. Do que eu vou viver? Como vou melhorar minha casa, manter arrumada como j\u00e1 foi um dia. Aqui, estamos abandonados\u201d, conta o morador, que, para amenizar o mau cheiro do esgoto no quintal, cobre os dejetos que saem de um cano com terra.<\/p>\n<p>Nos bairros Nova Esperan\u00e7a e Santo Ant\u00f4nio, as ruas s\u00e3o largas e as casas n\u00e3o s\u00e3o grudadas uma nas outras, mas muitas n\u00e3o t\u00eam asfalto, esgoto e energia el\u00e9trica. Esses bairros de Ara\u00e7ua\u00ed, munic\u00edpios que j\u00e1 teve dias de gl\u00f3ria e chegou a ser conhecido como a capital do Nordeste mineiro, n\u00e3o fazem parte da listagem oficial de favelas do IBGE, mas n\u00e3o devem nada aos aglomerados da capital em termos de falta de infraestrutura e problemas com tr\u00e1fico. O prefeito de Ara\u00e7ua\u00ed, Armando Jardim Paix\u00e3o (PT), admite esse processo de faveliza\u00e7\u00e3o e afirma que ele n\u00e3o se restringe ao seu munic\u00edpio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/favelas_jequi.jpg\" alt=\"\" \/><em>Local conhecido como Calhauzinho, \u00e0s margens do Rio Ara\u00e7ua\u00ed, est\u00e1 totalmente abandonado, segundo os moradores &#8211; Foto: Gladyston Rodrigues \/ Jornal Estado de Minas \/ D.A. Press<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p><strong>Culpa da seca<\/strong><\/p>\n<p>Presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Munic\u00edpios do M\u00e9dio Jequitinhonha (Ameje), o prefeito atribui os problemas \u00e0 seca prolongada que castiga a regi\u00e3o h\u00e1 quatro anos consecutivos, \u00e0 falta de recursos dos munic\u00edpios, que est\u00e3o em \u201cprocesso de fal\u00eancia\u201d, e ao desemprego, causado em grande parte pela legisla\u00e7\u00e3o que estabeleceu a colheita totalmente mecanizada da cana-de-a\u00e7\u00facar at\u00e9 2017, cortando postos de trabalho na regi\u00e3o. Maior produtor de cana da Am\u00e9rica Latina, S\u00e3o Paulo tinha os vales do Jequitinhonha e Mucuri e o Norte de Minas como as maiores fornecedoras de m\u00e3o-de-obra para essa colheita. Atualmente o novo destino dos trabalhadores do semi\u00e1rido mineiro \u00e9 a colheita de ma\u00e7\u00e3 no interior de Santa Catarina, mas a dist\u00e2ncia de cerca de 2 mil km n\u00e3o torna o recrutamento t\u00e3o atrativo quanto era para o interior paulista.<\/p>\n<p>Segundo ele, a \u00fanica sa\u00edda para a regi\u00e3o \u00e9 solucionar o problema da falta de \u00e1gua. \u201cSem \u00e1gua, o povo abandona a zona rural e vem para cidade em busca de emprego. Chega aqui, n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o de alugar ou comprar casa e acaba vivendo de maneira cada vez mais prec\u00e1ria\u201d. Os munic\u00edpios, afirma, n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de resolver o problema da moradia sem recursos do estado e do governo federal. \u201cTemos a promessa de recursos para a constru\u00e7\u00e3o de 150 moradias. Vamos ver\u201d. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da seguran\u00e7a, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 semelhante. Em Ara\u00e7ua\u00ed, a prefeitura, segundo Armando, paga parte da gasolina das viaturas, ajuda no conserto dos ve\u00edculos e mant\u00e9m quatro funcion\u00e1rios trabalhando \u00e0s custas dos cofres municipais. Reclama\u00e7\u00e3o semelhante foi feita pelo prefeito de Virgem da Lapa, Harley Lopes (PT), tamb\u00e9m no Vale do Jequitinhonha. Segundo ele, est\u00e1 havendo uma migra\u00e7\u00e3o grande de moradores da zona rural para a urbana e muitos deles acabam enfrentando dificuldades para construir ou alugar moradias dignas. Por isso, se instalam em habita\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias. <\/p>\n<p><strong>Em meio ao crack e \u00e0 viol\u00eancia<\/strong> <\/p>\n<p>Al\u00e9m da falta de planejamento urbano e da prolifera\u00e7\u00e3o de moradias prec\u00e1rias, Ara\u00e7ua\u00ed e outras cidades do Vale do Jequitinhonha, regi\u00e3o com o menor \u00edndice de desenvolvimento humano (IDH) do estado, enfrentam um problema comum \u00e0s grandes cidades, principalmente nas favelas, e que j\u00e1 \u00e9 realidade nas pequenas: o com\u00e9rcio do crack e, com ele, o aumento da viol\u00eancia. Nos tr\u00eas primeiros meses deste ano j\u00e1 foram registrados 56 crimes violentos em Ara\u00e7ua\u00ed, o que corresponde a 57% de todas as ocorr\u00eancias verificadas em 2014 na cidade, considerada pelo Observat\u00f3rio do Crack, mantido pela Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Munic\u00edpios (CNM), um local com alto n\u00edvel de circula\u00e7\u00e3o da droga. Ara\u00e7ua\u00ed vive amedrontada.<\/p>\n<p>Muitas casas est\u00e3o cercadas com grades eletrificadas, arame ou com tradicionais fileiras de caco de vidro. \u00c0 noite, as ruas ficam desertas e os casar\u00f5es do centro velho, abandonado em 1979 depois de uma grande enchente, se transformam em locais de venda e consumo da droga. Tombadas como patrim\u00f4nio p\u00fablico, essas constru\u00e7\u00f5es est\u00e3o tomadas pelo mato, depredadas, sujas e com restos de cachimbos usados para fumar crack. O uso da pedra j\u00e1 est\u00e1 t\u00e3o disseminado que \u00e9 tratado com naturalidade pelos moradores. Um garoto de apenas 13 anos, que se intitula guia, leva os turistas para conhecer os casar\u00f5es e relata como se fosse um fato corriqueiro:  \u201cAqui foi destru\u00eddo pelos usu\u00e1rios de pedra&#8230; Aqui eles usam para fumar durante a noite&#8230; Aqui tamb\u00e9m&#8230;\u201d. As margens do Rio Ara\u00e7ua\u00ed, onde moram dezenas de fam\u00edlias, tamb\u00e9m viraram ponto de consumo e com\u00e9rcio de crack.<\/p>\n<p>Quem mora na periferia sofre mais ainda com a a\u00e7\u00e3o dos traficantes que, segundo relatam os moradores, no ano passado chegaram a cobrar ped\u00e1gio da popula\u00e7\u00e3o em uma das pontes da cidde. No dia em que a reportagem esteve em Ara\u00e7ua\u00ed, um senhor foi assaltado por volta das 12h na rua mais movimentada . No dia seguinte, uma for\u00e7a tarefa da pol\u00edcia chegou \u00e0 cidade e os consumidores e vendedores de crack sumiram do centro velho.<\/p>\n<p>No Bairro Nova Esperan\u00e7a,  loteamento criado h\u00e1 cerca de 20 anos, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 alarmante. As ruas s\u00e3o largas e as casas n\u00e3o s\u00e3o grudadas uma na outra, como acontece na maioria das favelas das cidades grandes, mas a falta de infraestrutura n\u00e3o difere muito dos aglomerados da capital. Quem manda s\u00e3o os traficantes. E muitas casas n\u00e3o t\u00eam \u00e1gua encanada A fam\u00edlia de dona Hilda Maria Batista e seus filhos mora sem \u00e1gua e luz, em um barrac\u00e3o de dois c\u00f4modos, sem banheiro. Ao lado, mora Fernanda Santos Rodrigues, de 31, seu marido, Geraldo Luiz Santos, ambos desempregados, e os sete filhos do casal. No lote em frente, uma casa est\u00e1 abandonada. De acordo com os moradores, o propriet\u00e1rio se mudou por medo da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma das primeiras moradoras do local, a vi\u00fava Vera L\u00facia Rodrigues Souza, de 56, conta que no come\u00e7o eram poucas casas e o desejo de que o bairro honrasse seu nome de batismo. \u201cQuando cheguei aqui tinham quatro moradores. A gente n\u00e3o tinha moradia e a prefeitura marcou um lote para a gente, onde fizemos uma casinha. Tudo isso que voc\u00ea est\u00e1 vendo a\u00ed \u00e9 casa nova, mas o bairro n\u00e3o est\u00e1 melhorando. Pelo contr\u00e1rio. Deveria ter mais assist\u00eancia se n\u00e3o vai virar uma favela. O que tem mais aqui \u00e9 tr\u00e1fico e muita gente passando necessidade. Quando vim para c\u00e1 tinha esperan\u00e7a de ser um lugar tranquilo, asfaltado, com assist\u00eancia, mas isso a gente n\u00e3o vai ter. Hoje, a gente sente vergonha de falar que mora aqui\u201d, conta Vera que, durante a entrevista, falava baixinho e ressabiada.<\/p>\n<p><strong>Coronel Murta<\/strong><\/p>\n<p>Realidade parecida enfrenta a pequena Coronel Murta, 10 mil habitantes, tamb\u00e9m no Vale do Jequitinhonha. H\u00e1 dois meses, traficantes da regi\u00e3o levaram p\u00e2nico a um dos bairros mais pobres da cidade, conhecido como Mutir\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 se acalmou com a pris\u00e3o de um suspeito de comandar a venda de drogas no local. O assunto, no entanto, ainda \u00e9 tabu. Durante a visita da reportagem ao bairro, ningu\u00e9m quis dar entrevista e muito menos ser fotografado.<\/p>\n<p>Itaobim, 21,5 mil habitantes, enfrenta problemas parecidos. Alvo de alerta vermelho por parte do Observat\u00f3rio do Crack, a droga corre solta e domina a periferia da cidade. No Bairro Santa Helena, \u00e0s margens do Rio Jequitinhonha, se aglomeram dezenas de pessoas vivendo em moradias prec\u00e1rias e sob o dom\u00ednio de gangues de traficantes. Os moradores se recusaram a dar entrevistas. E n\u00e3o \u00e9 por menos. Durante o tempo todo em que a reportagem esteve no local, foi acompanhada de maneira intimidadora por um grupo de tr\u00eas homens e n\u00e3o conseguiu conversar a s\u00f3s com ningu\u00e9m. Em maio, a pol\u00edcia fez uma opera\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o para combater o tr\u00e1fico. Segundo um comerciante , que tamb\u00e9m n\u00e3o quis ser identificado, a situa\u00e7\u00e3o se acalmou por uns dias para depois voltar tudo ao \u201cnormal\u201d.<\/p>\n<p><em>Veja v\u00eddeo sobre os aglomerados no Jequitinhonha:<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WjG1g6jmD8M\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong><em>(Fonte: Jornal Estado de Minas \/ Alessandra Mello)<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moradores dizem que j\u00e1 perderam a esperan\u00e7a. Abundam constru\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, esgoto \u00e9 jogado em rio e um buraco serve de lix\u00e3o. Em uma casa de dois c\u00f4modos, sem banheiro, quase \u00e0s margens do Rio Ara\u00e7ua\u00ed, mora Iduviges da Costa Soares, de 34 anos, e seus cinco filhos. 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