{"id":40042,"date":"2014-09-16T22:55:33","date_gmt":"2014-09-17T01:55:33","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=40042"},"modified":"2014-09-16T22:55:33","modified_gmt":"2014-09-17T01:55:33","slug":"operacao-resgata-quatro-homens-de-trabalho-escravo-em-carvoaria-do-norte-de-minas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=40042","title":{"rendered":"Opera\u00e7\u00e3o resgata quatro homens de trabalho escravo em carvoaria do Norte de Minas"},"content":{"rendered":"<h4><strong><em>V\u00edtimas estavam vivendo em barracos de lona, sem \u00e1gua pot\u00e1vel, alimenta\u00e7\u00e3o adequada e banheiro. Uma das fazendas envolvidas \u00e9 de um juiz aposentado.<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Quatro pessoas foram encontradas em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas ao trabalho escravo em uma carvoaria de uma fazenda em Pint\u00f3polis (MG), nesta segunda-feira (15). A opera\u00e7\u00e3o foi coordenada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho e Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, com o apoio da Pol\u00edcia Federal. <\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o foi desencadeada ap\u00f3s uma den\u00fancia de que os trabalhadores estavam em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 de escravos na Fazenda Alegre, que pertence a Murilo Faria, juiz aposentado. No local, os fiscais tiveram a informa\u00e7\u00e3o de que eles haviam sido deslocados e escondidos em outro lugar, na Fazenda Mangues. As propriedades s\u00e3o vizinhas e em ambas foram encontradas carvoarias.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/trabalho_escravo_nm_3.jpg\" alt=\"\" \/><em>Wagner mostra as m\u00e3os feridas com o trabalho (Foto: Michelly Oda \/ G1)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>\u201cAqui n\u00e3o h\u00e1 nenhum direito que esteja sendo garantido a eles, desde a formaliza\u00e7\u00e3o em carteira, at\u00e9 os equipamentos de prote\u00e7\u00e3o, local de alojamento e alimenta\u00e7\u00e3o. Nada est\u00e1 sendo garantido aos trabalhadores. Eles est\u00e3o aqui desumanizados, est\u00e3o sendo tratados como objetos, como coisas\u201d, fala Marcelo Campos, auditor fiscal do trabalho.<\/p>\n<p>No ambiente encontrado pela equipe respons\u00e1vel pela opera\u00e7\u00e3o havia barracos de lona e camas improvisadas. Os trabalhadores cozinhavam em fog\u00f5es \u00e0 lenha, com \u00e1gua que n\u00e3o sabiam de onde vinha e que ficava dentro de tambores. A comida estava armazenada em meio \u00e0s roupas, em prateleiras, a carne foi encontrada em um balde. Eles tomavam banho em uma caixa, ao lado dos fornos, e faziam as necessidades no mato. Descansavam cerca de cinco horas por dia. Trabalhavam todos os dias da semana, sem folgas. Eles n\u00e3o usavam nenhum equipamento de prote\u00e7\u00e3o e estavam com botas furadas e ferimentos nas m\u00e3os. Alguns relatam que passavam mal e foram parar no hospital, por conta do servi\u00e7o.<\/p>\n<h4>H\u00e1 cinco meses trabalhando de gra\u00e7a<\/h4>\n<p>Wagner Silva, um dos trabalhadores resgatados, conta que eles come\u00e7aram a trabalhar na Fazenda Alegre h\u00e1 mais de dois anos. Recentemente eles foram expulsos, depois que o propriet\u00e1rio foi multado pela Pol\u00edcia Militar de Meio Ambiente, por n\u00e3o ter licen\u00e7a para explora\u00e7\u00e3o da madeira e fabrica\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o. Ele tamb\u00e9m ficou sabendo que seria alvo de uma poss\u00edvel fiscaliza\u00e7\u00e3o. \u201cSa\u00edmos correndo. At\u00e9 a lona dos barracos de l\u00e1 n\u00f3s trouxemos para montar aqui\u201d, conta.<\/p>\n<p>Wagner Silva come\u00e7ou a trabalhar em carvoarias aos 17 anos, j\u00e1 morou em Pirapora e S\u00e3o Rom\u00e3o. A esposa e as filhas dele residem em Pint\u00f3polis, mas eles chegam a ficar seis meses sem se encontrar. \u201cAs \u00faltimas vezes que eu vi elas foi quando sa\u00ed carregado daqui pelo Samu, com dor no peito e no bal\u00e3o de oxig\u00eanio. Passei l\u00e1 em casa rapidinho e voltei. N\u00e3o vou porque nunca tenho folga e nem dinheiro.\u201d<\/p>\n<p>O m\u00e9dico que atendeu o rapaz disse que os problemas de sa\u00fade podem estar relacionados ao trabalho. Dois exames foram pedidos, mas como Wagner n\u00e3o tem dinheiro para faz\u00ea-los, continua sem um diagn\u00f3stico, por isso afirma que &#8220;tem as veias do peito estouradas&#8221;.<\/p>\n<p>A carteira do trabalhador foi assinada ap\u00f3s uma fiscaliza\u00e7\u00e3o anterior do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, em Pirapora. Ele diz nunca que teve f\u00e9rias ou recebeu 13\u00ba sal\u00e1rio. E est\u00e1 h\u00e1 mais de cinco meses trabalhando sem ganhar nada.<\/p>\n<h4>Patr\u00e3o s\u00f3 no papel<\/h4>\n<p>O respons\u00e1vel por registrar a carteira de Wagner, desde os tempos em que ele trabalhava em outros munic\u00edpios, \u00e9 Juarez Rodrigues, que tamb\u00e9m \u00e9 sogro dele. Apesar de estar na condi\u00e7\u00e3o de empregador, Juarez tamb\u00e9m trabalhava em condi\u00e7\u00f5es que se assemelham \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele conta que \u201cpara fichar Wagner tive que vender o \u00fanico bem que tinha, um pedacinho de terra\u201d. E apesar de teoricamente ser o patr\u00e3o, grande parte do que ganha vai para os donos das fazendas. Na Alegre, o propriet\u00e1rio ficava com R$ 600 de cada caminh\u00e3o que sa\u00eda. J\u00e1 na Mangues, o dinheiro iria ser pago diretamente para dono da terra, que repassaria R$ 25 por m\u00b3 para Juarez.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/trabalho_escravo_nm_1.jpg\" alt=\"\" \/><em>Carvoaria na fazenda Mangues (Foto: Michelly Oda \/ G1)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o trabalhador tamb\u00e9m paga h\u00e1 dois anos por um trator que comprou com o caminhoneiro que busca o carv\u00e3o nas fazendas, e leva at\u00e9 as sider\u00fargicas. Essa mesma pessoa tamb\u00e9m emprestou dinheiro para que os fornos fossem constru\u00eddos, e \u00e0s vezes fazia a compra dos alimentos consumidos pelos trabalhadores. Juarez, que n\u00e3o sabe ler e escrever, desenhou o nome em v\u00e1rias promiss\u00f3rias, que s\u00e3o pagas mensalmente. Ele diz que n\u00e3o sabe o quanto j\u00e1 foi pago e nem quanto ainda deve.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s trabalhamos para comer e pagar conta. Minha mulher que tamb\u00e9m t\u00e1 aqui passa mal, tem que tomar rem\u00e9dios controlados, mas eu n\u00e3o tenho dinheiro para comprar\u201d, diz. A esposa dele, Maria Lenir Gomes da Cruz, tamb\u00e9m foi resgatada da carvoaria.<\/p>\n<p>Juarez come\u00e7ou a trabalhar na Fazenda Alegre, depois de um convite de um homem, que posteriormente percebeu que o neg\u00f3cio n\u00e3o era vantajoso e abandonou a carvoaria. \u201cViemos para c\u00e1 com o Vadim, dormimos em uma noite fria, sem barraco, sem lona, sem nada.&#8221;<\/p>\n<h4>Sonho de voltar a ser vaqueiro<\/h4>\n<p>Luc\u00e9lio Rodrigues Nogueira, de 21 anos, tamb\u00e9m trabalhava na carvoaria. Ele \u00e9 natural de Itacarambi e chegou na regi\u00e3o em 01\/01\/2013, a convite do filho do propriet\u00e1rio da Fazenda Alegre. \u201cEle disse que me pagaria R$ 25 por dia, depois passou para R$ 30, mas nunca ningu\u00e9m pediu minha carteira de trabalho para me fichar.\u201d<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m conta que eles dormem das 20h at\u00e9 \u00e0s 1h, passam o dia, parte da noite e da madrugada vigiando os fornos. \u201cTemos que ficar em cima, sen\u00e3o o carv\u00e3o pode passar do ponto e a\u00ed a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 toda perdida.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/trabalho_escravo_nm_2.jpg\" alt=\"\" \/><em>Carne que seria consumida nas refei\u00e7\u00f5es ficava armazenada em balde (Foto: Michelly Oda \/ G1)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Para Luc\u00e9lio, o pior aspecto do trabalho \u00e9 ter que conviver com o calor que sai dos fornos. \u201cSinto muita falta de ar e tontura. Mas quando a gente passa mal, o jeito \u00e9 sair uns minutinhos e voltar r\u00e1pido. Tamb\u00e9m n\u00e3o enxergo bem, meus olhos ficam muito emba\u00e7ados. Meu colega j\u00e1 levou at\u00e9 picada de escorpi\u00e3o aqui.\u201d<\/p>\n<p>Quando questionado sobre o porque de n\u00e3o sair do trabalho, Luc\u00e9lio diz que sonha em voltar a ser vaqueiro e tem vontade de estudar. \u201cJ\u00e1 colhi goiaba e banana, mas gosto mesmo \u00e9 de ser vaqueiro. Mas pra gente que t\u00e1 aqui \u00e9 dif\u00edcil sair, hoje em dia n\u00e3o d\u00e1 pra arrumar emprego sem estudo.\u201d<\/p>\n<h4>Outra irregularidade<\/h4>\n<p>Al\u00e9m dos quatro trabalhadores, a fiscaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m encontrou um funcion\u00e1rio da Fazenda Mangues trabalhando sem carteira assinada, h\u00e1 mais de cinco anos. Jos\u00e9 Afonso Correias \u00e9 o respons\u00e1vel por cuidar de toda a propriedade. Ele conta que trabalha seis dias por semana, nunca tirou f\u00e9rias e nem recebeu 13\u00ba. Al\u00e9m do sal\u00e1rio m\u00ednimo, o patr\u00e3o fornece para ele uma cesta b\u00e1sica e as botinas.<\/p>\n<p>&#8220;Ele me contratou dizendo que ia assinar a carteira, mas falou que estava ajeitando os pap\u00e9is, h\u00e1 mais ou menos uns 10 dias veio aqui e pegou todos os meus documentos para me fichar&#8221;, fala.<\/p>\n<h4>O que ser\u00e1 feito<\/h4>\n<p>Marcelo Campos, do Minist\u00e9rio do Trabalho, fala que as quatro pessoas ser\u00e3o retiradas imediatamente das condi\u00e7\u00f5es em que foram encontradas. Os fazendeiros foram notificados a apresentar documentos e comparecer junto \u00e0s autoridades que fizeram a fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cBuscaremos a garantia do pagamento de todas as verbas rescis\u00f3rias e de todos os direitos trabalhistas. Os trabalhadores tamb\u00e9m v\u00e3o fazer jus a um seguro desemprego especialmente pago em situa\u00e7\u00f5es de trabalho escravo. J\u00e1 os que perpetraram o crime, v\u00e3o ser responsabilizados administrativamente pelo Minist\u00e9rio do Trabalho e tamb\u00e9m no \u00e2mbito judicial, a partir de a\u00e7\u00f5es propostas pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho e pela Procuradoria da Republica.\u201d<\/p>\n<h4>O que dizem os envolvidos<\/h4>\n<p>Murilo Faria, dono da Fazenda Alegre, n\u00e3o estava no local. A esposa dele, que estava na propriedade, falou que n\u00e3o tinha interesse em se manifestar.<\/p>\n<p>J\u00e1 Pedro Ribeiro da Silva Filho n\u00e3o foi encontrado na Fazenda Mangues. A reportagem tentou falar com ele, mas o telefone estava desligado. No momento em que a fiscaliza\u00e7\u00e3o estava no local, o funcion\u00e1rio Jos\u00e9 Afonso apresentou um contrato de arrendamento da terra para a explora\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o, mas n\u00e3o ficou comprovada a autenticidade do documento.<\/p>\n<p>Em ambas as situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o foi confirmada a exist\u00eancia de licenciamento ambiental para a extra\u00e7\u00e3o da madeira e para a atividade de produ\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o.<\/p>\n<p><em><strong>(Fonte: Inter TV dos Vales\/G1)<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V\u00edtimas estavam vivendo em barracos de lona, sem \u00e1gua pot\u00e1vel, alimenta\u00e7\u00e3o adequada e banheiro. Uma das fazendas envolvidas \u00e9 de um juiz aposentado. Quatro pessoas foram encontradas em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas ao trabalho escravo em uma carvoaria de uma fazenda em Pint\u00f3polis (MG), nesta segunda-feira (15). 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