{"id":38861,"date":"2014-09-01T09:58:21","date_gmt":"2014-09-01T12:58:21","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=38861"},"modified":"2014-09-01T09:59:41","modified_gmt":"2014-09-01T12:59:41","slug":"seca-no-sudeste-tem-a-ver-com-desmatamento-da-floresta-amazonica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=38861","title":{"rendered":"Seca no sudeste tem a ver com desmatamento na Floresta Amaz\u00f4nica"},"content":{"rendered":"<h4><em><strong>Chuvas que recarregam reservat\u00f3rios da regi\u00e3o Sudeste s\u00e3o oriundas da Amaz\u00f4nia. \u00c1rvores s\u00e3o \u2018toque final\u2019 da m\u00e1quina biol\u00f3gica que produz chuvas.<\/strong><\/em><\/h4>\n<p>O ch\u00e3o foi o destino de 20% das \u00e1rvores da Floresta Amaz\u00f4nica original. Que isso vem acontecendo h\u00e1 anos, todos sabem. O que voc\u00ea provavelmente n\u00e3o sabe \u00e9 que esse crime ambiental tem a ver com a falta d&#8217;\u00e1gua na maior cidade da Am\u00e9rica Latina. \u00c9 que a Amaz\u00f4nia bombeia para a atmosfera a umidade que vai se transformar em chuva nas regi\u00f5es Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Quanto maior o desmatamento, menos umidade e, portanto, menos chuva. E sem chuva, os reservat\u00f3rios ficam vazios e as torneiras, secas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/desmatamento_amazonia.jpg\" alt=\"\" \/><em>Seca no sudeste tem a ver com desmatamento da Floresta Amaz\u00f4nica &#8211; Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Ibama<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>\u00c9 guerra contra a cobi\u00e7a. No cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, o ex\u00e9rcito formado pelo Ibama, pela Funai e pela Pol\u00edcia Federal atinge mais um alvo. Garimpeiros presos, madeireiros multados, equipamentos destru\u00eddos. E a prova do crime apreendida. Esse \u00e9 o front de um conflito que j\u00e1 dura pelo menos quatro d\u00e9cadas no Brasil. Desde que as primeiras estradas rasgaram a floresta para permitir a coloniza\u00e7\u00e3o. Caminhos que acabaram facilitando tamb\u00e9m o acesso de exploradores gananciosos e sem escr\u00fapulos. Um crime ambiental que ainda est\u00e1 longe do fim.<\/p>\n<p>Uma \u00e1rvore que leva mais de 100 anos para crescer. E que em menos de um minuto, j\u00e1 pode estar derrubada. E o pior \u00e9 que a madeira nem \u00e9 aproveitada. Nesse tipo de desmatamento, o objetivo \u00e9 simplesmente derrubar tudo, tocar fogo e transformar a \u00e1rea em pastagem para a cria\u00e7\u00e3o de gado. Um crime ambiental que geralmente s\u00f3 \u00e9 notado pelos fiscais tarde demais, quando a floresta j\u00e1 virou carv\u00e3o.<\/p>\n<h4>Clareiras somam \u00e1rea maior que Fran\u00e7a e Alemanha juntas<\/h4>\n<p>\u201cIsso aqui \u00e9 roubo de terras da Uni\u00e3o. Grileiros furtam a terra da Uni\u00e3o, praticam o desmate multiponto, v\u00e1rios pontos embaixo da floresta, dificultando o sat\u00e9lite de enxerg\u00e1-lo.\u201d, explica Luciano de Menezes Evaristo, diretor de prote\u00e7\u00e3o ambiental do Ibama.<\/p>\n<p>O que os olhos poderosos dos sat\u00e9lites n\u00e3o veem, a floresta, lamentavelmente, sente: 20% das \u00e1rvores da Amaz\u00f4nia original j\u00e1 foram para o ch\u00e3o. Restaram imensas clareiras que somam uma \u00e1rea maior que a Fran\u00e7a e a Alemanha juntas.<\/p>\n<p>O Fant\u00e1stico acompanhou, com exclusividade, a maior opera\u00e7\u00e3o contra grileiros na Amaz\u00f4nia neste ano. Em uma conversa gravada pela Pol\u00edcia Federal com autoriza\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a, um dos presos admite que o interesse dos criminosos \u00e9 apenas nas terras.<\/p>\n<p>\u201cComo a floresta l\u00e1 \u00e9 muito bruta, os troncos s\u00e3o muito grossos, ent\u00e3o o custo \u00e9 muito grande. S\u00e3o \u00e1rvores antigas, \u00e1rvores velhas\u201d, ele diz.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/barragem_seca_31.jpg\" alt=\"\" \/><em>(Reservat\u00f3rios de \u00e1gua que abastecem S\u00e3o Paulo viraram verdadeiros desertos secos &#8211; Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<h4>Consequ\u00eancias da devasta\u00e7\u00e3o est\u00e3o pr\u00f3ximas de todos<\/h4>\n<p>Derrubadas e garimpos deixam uma cicatriz gigantesca na mata que pode parecer um problema exclusivo de \u00e1rvores e bichos, distante da maioria das pessoas. Mas a ci\u00eancia e as novas tecnologias comprovam que as consequ\u00eancias da devasta\u00e7\u00e3o est\u00e3o muito mais pr\u00f3ximas de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Nascentes que j\u00e1 n\u00e3o vertem mais \u00e1gua. Represas com menos de 10% de sua capacidade original de armazenagem. Uma delas, por exemplo, perto de Mogi das Cruzes, no interior de S\u00e3o Paulo, deveria ter em um ponto uma profundidade de pelo menos cinco metros. Est\u00e1 agonizando. Mas o que a falta de \u00e1gua nesta regi\u00e3o do pa\u00eds tem a ver com a Amaz\u00f4nia que fica a mais de 2 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia? Tudo, absolutamente tudo, segundo cientistas que estudam as fun\u00e7\u00f5es da floresta e as varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>\u201cEssas chuvas que ocorrem principalmente durante o ver\u00e3o, a umidade \u00e9 oriunda da Amaz\u00f4nia. E essa chuva que fica v\u00e1rios dias \u00e9 que recarrega os principais reservat\u00f3rios da Regi\u00e3o Sudeste.\u201d explica Gilvan Sampaio, climatologista do Inpe.<\/p>\n<h4>Fant\u00e1stico tem acesso a relat\u00f3rio sobre futuro clim\u00e1tico<\/h4>\n<p>O Fant\u00e1stico teve acesso exclusivo ao relat\u00f3rio sobre o futuro clim\u00e1tico da Amaz\u00f4nia que s\u00f3 vai ser divulgado oficialmente na Confer\u00eancia Sobre o Clima em Lima, no Peru, no fim deste ano. O trabalho desenvolvido em parceria por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Inpa, que investiga a Amaz\u00f4nia, re\u00fane mais de 200 estudos e tra\u00e7a um minucioso roteiro das chuvas no continente sul-americano.<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e1 mudando o clima. A gente v\u00ea isso acontecendo na Amaz\u00f4nia. Tem muitos trabalhos mostrando que a extens\u00e3o da esta\u00e7\u00e3o seca est\u00e1 se prolongando\u201d, diz Ant\u00f4nio Nobre, pesquisador do Inpa.<\/p>\n<p>De acordo com esse relat\u00f3rio, nos \u00faltimos 400 milh\u00f5es de anos, a umidade que evapora dos oceanos \u00e9 empurrada naturalmente pelos ventos para dentro dos continentes. Uma parte desse vapor vira chuva e cai, principalmente, sobre as grandes florestas na altura do Equador. O excesso de umidade segue empurrado pelos ventos, atravessa os continentes e acaba indo para o mar. Um ciclo que ao redor da Terra s\u00f3 tem uma exce\u00e7\u00e3o: a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<h4>Diferencial da Amaz\u00f4nia<\/h4>\n<p>O que torna a Amaz\u00f4nia diferente de todas as grandes florestas equatoriais do planeta \u00e9 a Cordilheira dos Andes. Um imenso pared\u00e3o, de 7 mil metros, que impede que as nuvens se percam no Pac\u00edfico. Elas esbarram na Cordilheira e desviam para o Sul.<\/p>\n<p>\u201cEsses ventos viram aqui e se contrap\u00f5em \u00e0 tend\u00eancia natural dessa regi\u00e3o aqui de ser deserto. \u00c9 uma regi\u00e3o que produz 70% do PIB da Am\u00e9rica do Sul &#8211; regi\u00e3o industrial, agr\u00edcola, onde est\u00e1 a maior parte da popula\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul\u201d, explica Ant\u00f4nio Nobre, pesquisador do Inpa.<\/p>\n<p>Mas de onde vem tanta \u00e1gua? Como funciona a fant\u00e1stica m\u00e1quina biol\u00f3gica que faz chover? Segundo os cientistas, o toque final cabe \u00e0s \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Fincadas a at\u00e9 20 ou 30 metros de profundidade, as ra\u00edzes sugam a \u00e1gua da terra. Os troncos funcionam como tubos. E, pela transpira\u00e7\u00e3o, as folhas se encarregam de espalhar a umidade na atmosfera. Diariamente, cada \u00e1rvore amaz\u00f4nica bombeia em m\u00e9dia 500 litros de \u00e1gua.<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia inteira \u00e9 respons\u00e1vel por levar 20 bilh\u00f5es de toneladas de \u00e1gua por dia do solo at\u00e9 a atmosfera, 3 bilh\u00f5es de toneladas a mais do que a vaz\u00e3o di\u00e1ria do Amazonas, o maior rio do mundo.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea tivesse uma chaleira gigante ligada na tomada, voc\u00ea precisaria de eletricidade da Usina de Itaipu, que \u00e9 a maior do mundo em pot\u00eancia, funcionando por 145 anos para evaporar um dia de \u00e1gua na Amaz\u00f4nia. Quantas Itaipus precisaria para fazer o mesmo trabalho que as \u00e1rvores est\u00e3o fazendo silenciosamente l\u00e1? 50 mil usinas Itaipu\u201d, explica Ant\u00f4nio Nobre.<\/p>\n<h4>\u201cRio voadores\u201d cruzam o Brasil<\/h4>\n<p>Esse imenso fluxo de \u00e1gua pelos ares \u00e9 chamado de &#8220;rios voadores&#8221;. O Fant\u00e1stico chamou a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia desses rios j\u00e1 em 2007. Imagens feitas de um avi\u00e3o do projeto &#8220;rios voadores&#8221; revelam nuvens densas, carregadas de \u00e1gua, cruzando todo o Brasil.<\/p>\n<p>Testes feitos em laborat\u00f3rio comprovaram: mais da metade da \u00e1gua das chuvas nas regi\u00f5es Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil e tamb\u00e9m na Bol\u00edvia, no Paraguai, na Argentina, no Uruguai e at\u00e9 no extremo sul do Chile vem da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Para os cientistas, uma prova irrefut\u00e1vel do papel dos Andes e da Floresta Amaz\u00f4nica no ecossistema do cone-sul \u00e9 a inexist\u00eancia de um deserto nessa regi\u00e3o. Basta olhar o globo para constatar que na mesma latitude em volta do planeta tudo \u00e9 deserto. Menos na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Os pesquisadores n\u00e3o t\u00eam d\u00favida: sem a Amaz\u00f4nia, os estados de Minas Gerais, S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Paran\u00e1 e Rio Grande do Sul fatalmente seriam desertos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u201cPara quem est\u00e1 no Brasil, seja Porto Alegre ou Manaus ou S\u00e3o Paulo tem que saber que a \u00e1gua que consome em sua resid\u00eancia, uma parte dela vem da Amaz\u00f4nia e que por isso temos que preservar\u201d, alerta Gilvan Sampaio.<\/p>\n<h4>Devasta\u00e7\u00e3o bloqueia \u201crios voadores\u201d em S\u00e3o Paulo<\/h4>\n<p>As imagens dos sat\u00e9lites que acompanham a movimenta\u00e7\u00e3o das nuvens de chuva comprovam que a grande seca que assola as regi\u00f5es Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, em parte, est\u00e1 relacionada aos desmatamentos. No estado de S\u00e3o Paulo, por exemplo, a devasta\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica permite a forma\u00e7\u00e3o de uma massa de ar quente na atmosfera. T\u00e3o densa que chega a bloquear os \u201crios voadores\u201d, j\u00e1 enfraquecidos por conta do desmatamento na Amaz\u00f4nia. Represados no c\u00e9u, eles acabam desaguando no Acre e em Rond\u00f4nia, onde, este ano, foram registradas as maiores enchentes da hist\u00f3ria.<\/p>\n<h4>MP e Receita Federal entram na luta contra o desmatamento<\/h4>\n<p>Na luta contra o desmatamento, o Ibama, a Funai e a Pol\u00edcia Federal acabam de ganhar mais um aliado: o Minist\u00e9rio P\u00fablico, que passou a juntar dados da Receita Federal para poder enquadrar as quadrilhas tamb\u00e9m por lavagem de dinheiro e sonega\u00e7\u00e3o fiscal, falcatruas que podem levar a mais de 10 anos de cadeia.<\/p>\n<p>Pelas contas da Procuradoria da Rep\u00fablica no Par\u00e1, s\u00f3 a quadrilha presa na \u00faltima opera\u00e7\u00e3o desviou dos cofres p\u00fablicos R$ 67 milh\u00f5es em impostos. Um crime que mistura gan\u00e2ncia e ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Fant\u00e1stico: Quando voc\u00ea mete a motoserra em uma \u00e1rvore que levou 100 anos para chegar daquele tamanho, n\u00e3o d\u00e1 d\u00f3?<br \/>\nHomem: N\u00e3o tem como a gente ter d\u00f3 das coisas. Ningu\u00e9m tem d\u00f3 da gente tamb\u00e9m, n\u00e9? Tem que desmatar para viver, n\u00e9?<br \/>\n\u201cEu n\u00e3o sei se t\u00e1 errado, n\u00e3o. Pra mim, est\u00e1 certo porque eu estou trabalhando. Enquanto os vagabundos ficam soltos na cidade, a gente tem que trabalhar escondido. A\u00ed \u00e9 dif\u00edcil\u201d, diz uma mulher.<\/p>\n<h4>Reflorestar \u00e1reas desmatadas antes que seja tarde<\/h4>\n<p>Um comportamento que bate de frente com os interesses de quem depende da Amaz\u00f4nia para produzir alimentos de forma legal.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 do interesse do pr\u00f3prio agricultor ou produtor de gado ou de quem est\u00e1 querendo produzir energia que a floresta seja mantida. Porque ela \u00e9 o que garante que tenha \u00e1gua necess\u00e1ria para essas atividades econ\u00f4micas poderem existir\u201d, diz o engenheiro florestal Tasso Azevedo.<\/p>\n<p>Os gr\u00e1ficos do Inpe revelam que os desmatamentos na Amaz\u00f4nia j\u00e1 ca\u00edram aos n\u00edveis mais baixos das \u00faltimas duas d\u00e9cadas, mas ainda que tivessem sido completamente zerados, os cientistas n\u00e3o estariam tranquilos. Eles alertam que \u00e9 preciso tamb\u00e9m reflorestar as \u00e1reas desmatadas antes que seja tarde.<\/p>\n<p>\u201cExiste um fato simples: se voc\u00ea tira floresta, voc\u00ea tira fonte de umidade, muda o clima. E n\u00f3s tiramos floresta. Isso foi o que a gente fez nos \u00faltimos 40 anos. O clima \u00e9 um juiz que sabe contar \u00e1rvores, que n\u00e3o esquece e n\u00e3o perdoa\u201d, afirma Ant\u00f4nio Nomes. <strong>(G1)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chuvas que recarregam reservat\u00f3rios da regi\u00e3o Sudeste s\u00e3o oriundas da Amaz\u00f4nia. \u00c1rvores s\u00e3o \u2018toque final\u2019 da m\u00e1quina biol\u00f3gica que produz chuvas. O ch\u00e3o foi o destino de 20% das \u00e1rvores da Floresta Amaz\u00f4nica original. Que isso vem acontecendo h\u00e1 anos, todos sabem. 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