{"id":35551,"date":"2014-07-22T19:51:58","date_gmt":"2014-07-22T22:51:58","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=35551"},"modified":"2014-07-22T19:52:37","modified_gmt":"2014-07-22T22:52:37","slug":"empresario-relata-em-livro-os-abusos-sexuais-sofridos-durante-a-infancia-em-diamantina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=35551","title":{"rendered":"Empres\u00e1rio relata em livro os abusos sexuais sofridos durante a inf\u00e2ncia em Diamantina"},"content":{"rendered":"<h4><em><strong>&#8220;Perdi a vergonha e o medo de falar. O sil\u00eancio \u00e9 o melhor amigo da pedofilia&#8221;, afirma Marcelo Ribeiro<\/strong><\/em><\/h4>\n<p>Foi preciso quase tr\u00eas d\u00e9cadas para que o empres\u00e1rio paulista Marcelo Ribeiro tomasse coragem para falar sobre o abuso que sofreu na inf\u00e2ncia. O professor e maestro de um coral cat\u00f3lico &#8211; o homem que mais admirava &#8211; o agrediu dos 12 aos 16 anos. Um trauma que ele escondeu de todos e de si mesmo at\u00e9 os 42 anos. Foi o medo de perder a mulher que amava, e que se afastava diante das atitudes que ela n\u00e3o entendia, que o motivou a romper o sil\u00eancio. \u201cMinha forma de agir era resultado das sequelas do que tinha vivido\u201d, relata. Falar o ajudou a compreender o passado e hoje o estimula a lutar contra o mal que ainda amea\u00e7a tantas crian\u00e7as. \u201cPerdi a vergonha e o medo de falar. O sil\u00eancio \u00e9 o melhor amigo da pedofilia\u201d, assinala Ribeiro, autor do Livro \u201cSem medo de falar\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/jlYGkcdwv2w\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>O que o motivou a tornar p\u00fablico o drama de ter sofrido abuso na inf\u00e2ncia?<\/strong> Foi somente aos 42 anos que consegui falar que tinha sofrido abuso sexual na inf\u00e2ncia. Quando percebi que as sequelas que carregava afetavam a rela\u00e7\u00e3o com minha mulher e isto ocorreu num momento em que estamos tentando nos reconciliar. Ela n\u00e3o conseguia me compreender ou as minhas atitudes, que n\u00e3o condiziam com a minha personalidade. Atitudes que, certamente, eram sequelas de tudo o que tinha vivido. N\u00e3o queria perd\u00ea-la e isto me estimulou a falar, pela primeira vez, sobre o que tinha vivido: fui abusado na inf\u00e2ncia. A partir deste momento e at\u00e9 escrever o livro, houve um processo de compreens\u00e3o real do que tinha acontecido.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea passou 26 anos sem falar sobre o que tinha acontecido?<\/strong> Joguei no esquecimento e jamais falei sobre o assunto. Foi a prote\u00e7\u00e3o que busquei porque tinha muita vergonha de tudo o que aconteceu. Era muito pesado. At\u00e9 os 42 anos n\u00e3o tinha refletido sobre o assunto, n\u00e3o sabia nem que tinha sido v\u00edtima de um ped\u00f3filo. Mas a partir do momento em que falei, houve um processo de compreens\u00e3o, me tornei mais consciente. Houve momentos de raiva, mas com ajuda da minha esposa, pude organizar as lembran\u00e7as, compreender e entender que tinha sido v\u00edtima de abuso sexual, que tinha sido v\u00edtima de um ped\u00f3filo.<\/p>\n<p><strong>Como seus pais e irm\u00e3os reagiram? <\/strong>Foi dif\u00edcil para os meus pais, que est\u00e3o na faixa dos 80 anos. A primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e9 de raiva, mas num segundo momento tentaram entender o que aconteceu. H\u00e1 tamb\u00e9m um sentimento de culpa. E para minha m\u00e3e foi ainda mais dif\u00edcil porque o que me aconteceu foi sob o manto da Igreja Cat\u00f3lica e ela sempre fui muito fiel, uma beata&#8230; Meus irm\u00e3os sentiram demais. Uma de minhas irm\u00e3s, inclusive, vestiu a roupa do combate a pedofilia. Quando tudo veio \u00e0 tona eles tamb\u00e9m compreenderam certas atitudes minhas no passado. A verdade, como disse minha irm\u00e3, sempre coloca as coisas no lugar. Todos me apoiaram muito na decis\u00e3o de fazer o livro.<\/p>\n<p><strong>Como aconteceu o abuso?<\/strong> Aos 9 anos entrei para um coral da catedral de minha cidade, no interior de Minas Gerais. Logo depois da escola ia para o coral e s\u00f3 voltava no final do dia. O maestro era um religioso nomeado pelo arcebispo. A forma dele ensinar m\u00fasica seguia os padr\u00f5es dos col\u00e9gios cat\u00f3licos, com uma disciplina muito r\u00edgida, com muitos castigos f\u00edsicos: tapas no rosto, croques na cabe\u00e7a (cascudos). Para conquistar uma obedi\u00eancia absoluta ele utilizou de viol\u00eancia psicol\u00f3gica e f\u00edsica para dominar as crian\u00e7as que estavam a merc\u00ea dele. As lembran\u00e7as do primeiro abuso s\u00e3o aos 12 anos, mas isso aconteceu at\u00e9 os 16 anos.<\/p>\n<p><strong>Ap\u00f3s o primeiro abuso, n\u00e3o conseguiu relatar a seus pais?<\/strong> O maestro era meu tutor, professor, her\u00f3i, pessoa a quem admirava muito. Nunca imaginei que ele faria algo errado. Ent\u00e3o quando fui v\u00edtima, fiquei sem compreender o que tinha vivido. Naquela idade ainda n\u00e3o tinha compreens\u00e3o do que era sexo. Era uma situa\u00e7\u00e3o d\u00fabia: se o que tinha acontecido estava errado, estaria contando o que n\u00e3o deveria ter feito, por outro lado, se \u00e9 o professor que tinha feito, como poderia estar errado?<\/p>\n<p><strong>O que te deu for\u00e7a para enfrent\u00e1-lo aos 16 anos, ap\u00f3s anos de abuso?<\/strong> Com o passar dos anos fui tendo uma consci\u00eancia maior da minha situa\u00e7\u00e3o. Naquela \u00e9poca morava com ele e outros adolescentes em uma outra cidade. Fui passar f\u00e9rias na casa dos meus pais e vi que as pessoas n\u00e3o viviam na pris\u00e3o em que eu vivia. O somat\u00f3rio da busca pela liberdade com a consci\u00eancia de que estava sendo abusado me deu for\u00e7as para enfrent\u00e1-lo. <\/p>\n<p><strong>Como foi voltar para casa, em sil\u00eancio?<\/strong> N\u00e3o foi uma conviv\u00eancia normal. Voltei preconceituoso, agressivo, intempestivo, com acessos de f\u00faria. Estava sempre armado, com a sensa\u00e7\u00e3o de que tinha que me proteger das pessoas. Assim que voltei para casa fui para a capital (Belo Horizonte), estudar. Retornei dois anos depois, mas as sequelas do segredo que escondia tornavam a conviv\u00eancia com meus irm\u00e3os muito dif\u00edcil. <\/p>\n<p><strong>Durante o resgate de seu passado, descobriu que outros colegas tamb\u00e9m tinham sido abusados. <\/strong>At\u00e9 os 42 anos achava que tudo aquilo s\u00f3 tinha acontecido comigo. A partir das minhas reflex\u00f5es e recuperando a mem\u00f3ria, percebi que outros tamb\u00e9m foram abusados, o que pude confirmar quando fiz contato com alguns amigos da \u00e9poca. A partir da\u00ed, analisando o que aconteceu, sei que o maestro continuou abusando de outras crian\u00e7as, e talvez ainda abuse.<\/p>\n<p><strong>Teve vontade de se vingar?<\/strong> L\u00f3gico. A primeira sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de raiva, de fazer justi\u00e7a com a pr\u00f3prias m\u00e3os, principalmente quando descobre que o crime prescreveu, que a Justi\u00e7a n\u00e3o tem como fazer justi\u00e7a. Minha mulher foi fundamental neste processo, ao me ajudar a pensar com uma consci\u00eancia mais elevada, a compreender a humanidade do abusador, e o que leva uma pessoa a isto, at\u00e9 para conseguir perdoar, mesmo sem aceitar. <\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea faz cr\u00edticas \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o.<\/strong> No sentido de conscientizar de que a legisla\u00e7\u00e3o precisa melhorar. J\u00e1 houve avan\u00e7os quando a nadadora Joana Maranh\u00e3o denunciou os abusos sofridos aos 9 anos, praticado por seu t\u00e9cnico. A lei melhorou um pouco, principalmente no caso da prescri\u00e7\u00e3o, mas os casos de abuso s\u00e3o formadores de trauma e, geralmente, a pessoa n\u00e3o \u00e9 capaz de falar sobre o assunto a vida inteira. Ent\u00e3o, este tipo de crime n\u00e3o pode ter prescri\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por causa da puni\u00e7\u00e3o dos casos que j\u00e1 ocorreram, mas para que a sociedade possa proteger as crian\u00e7as hoje. \u00c9 um dos nossos grandes desafios.<\/p>\n<p><strong>O combate \u00e0 pedofilia se transformou em sua bandeira.<\/strong> N\u00f3s sabemos que \u00e9 dif\u00edcil falar sobre este tipo de crime, que \u00e9 formador de estigma. A sociedade o v\u00ea como tabu e quando algu\u00e9m fala, as pessoas viram as costas, preferem imaginar que n\u00e3o ocorrer\u00e1 com elas. A minha necessidade de falar \u00e9 maior no sentido de acabar com o sil\u00eancio, com o seu estigma, de expor o abusador. E quanto mais se falar sobre o assunto, mais f\u00e1cil ser\u00e1 para as v\u00edtimas compreenderem o que acontece quando ela for v\u00edtima, saber\u00e1 o que falar. O problema \u00e9 que a pedofilia s\u00f3 \u00e9 discutida entre adultos, \u00e9 dif\u00edcil falar sobre isso com as crian\u00e7as. Mas a partir do momento em que o assunto for debatido na escola, que as crian\u00e7as puderem compreender o que \u00e9 a pedofilia, a\u00ed teremos uma sociedade mais protegida contra os abusadores.<\/p>\n<p><strong>Quais dicas d\u00e1 para os pais?<\/strong> Lembro, de quando era crian\u00e7a, de minha m\u00e3e me orientar a ter cuidado com tarados na rua. A vis\u00e3o das pessoas \u00e9 de que o abusador \u00e9 um estranho que vai pegar seu filho a for\u00e7a. O hist\u00f3rico dos abusos mostra que, geralmente, eles s\u00e3o pessoas pr\u00f3ximas: vizinhos, parentes, professores. Cabe aos pais uma aten\u00e7\u00e3o a detalhes. N\u00e3o se influenciem pela religi\u00e3o, sobrenome, parentesco, amizade. N\u00e3o confiem cegamente em institui\u00e7\u00f5es e pessoas. Fiquem atentos a qualquer mudan\u00e7a de comportamento de seus filhos. Mas, acima de tudo, ajudem a pressionar para que haja mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o para que, assim como a Lei Maria da Penha, tenhamos tamb\u00e9m uma legisla\u00e7\u00e3o que garanta a prote\u00e7\u00e3o preventiva e n\u00e3o punitiva.<\/p>\n<p><strong>Hoje voc\u00ea \u00e9 um empres\u00e1rio. Como seus novos amigos reagiram?<\/strong> Os antigos amigos deram apoio, elogiaram minha atitude. Os novos amigos aceitaram com tranquilidade, entenderam que \u00e9 um processo pessoal. A partir do meu relato, pessoas do meu c\u00edrculo de amizade me relataram que tamb\u00e9m tinham enfrentado o mesmo drama e que nunca tiveram coragem de falar. Tamb\u00e9m recebi relatos de pessoas desconhecidas. Ent\u00e3o, o falar sobre o assunto acaba sendo um est\u00edmulo para atingir o maior n\u00famero de pessoas, nos d\u00e1 for\u00e7a para ampliar a batalha contra a pedofilia.<\/p>\n<p><strong><em>(Fonte: Gazeta Online)<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Perdi a vergonha e o medo de falar. O sil\u00eancio \u00e9 o melhor amigo da pedofilia&#8221;, afirma Marcelo Ribeiro Foi preciso quase tr\u00eas d\u00e9cadas para que o empres\u00e1rio paulista Marcelo Ribeiro tomasse coragem para falar sobre o abuso que sofreu na inf\u00e2ncia. 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