{"id":29910,"date":"2014-05-23T12:03:28","date_gmt":"2014-05-23T15:03:28","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=29910"},"modified":"2014-05-23T12:34:12","modified_gmt":"2014-05-23T15:34:12","slug":"rosilene-avila-pedagogia-da-jurubeba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=29910","title":{"rendered":"Rosilene \u00c1vila &#8211; Pedagogia da jurubeba"},"content":{"rendered":"<p>Vou contar em breves palavras um fato que me veio \u00e0 lembran\u00e7a esta semana. Aos que me conhecem desde crian\u00e7a, ser\u00e1 f\u00e1cil identificar as personagens. Para todos, no entanto, proponho uma an\u00e1lise cr\u00edtica e reflexiva do fato e do contexto.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou uma pessoa muito apegada \u00e0s lembran\u00e7as do passado. Deve haver uma explica\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica para isso, mas algumas passagens da minha vida foram simplesmente apagadas. Tanto que sempre me perguntam: _ Voc\u00ea se lembra de fulano, daquele dia, naquele ano? Fico meio sem gra\u00e7a quando tenho que responder: N\u00e3o estou me lembrando agora, \u00e9 que ando meio esquecida! Como \u00e9 que foi mesmo?<\/p>\n<p>Sempre acontece, por\u00e9m, de por um motivo banal, me vir \u00e0 mem\u00f3ria alguns fatos isolados. E quando me lembro de determinadas coisas, fico me questionando: _ Por que me lembrei disso agora? E geralmente chego a alguma explica\u00e7\u00e3o. At\u00e9 ent\u00e3o guardava tudo para mim. Com a oportunidade de dividir meus pensamentos com os leitores internautas, exponho a conclus\u00e3o a que cheguei ap\u00f3s analisar o fato que relato a seguir:<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e, j\u00e1 falecida, e eu, \u00e9ramos moradoras do pacato distrito de S\u00e3o Jo\u00e3o da Chapada, pertencente ao munic\u00edpio de Diamantina, Minas Gerais. L\u00e1 mesmo, onde a lua cheia \u00e9 vista de tal maneira, que nunca mais vi em lugar algum. Historiadores dizem que \u00e9 o ponto habitado mais alto do Brasil. Estar em S\u00e3o Jo\u00e3o \u00e9 como estar mais pr\u00f3ximo do c\u00e9u, literal e metaforicamente falando.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/ilustracao_coluna_rosilene_avila_17_03_1.jpg\" \/><br \/>\n<em>(Foto: Jo\u00e3o Luiz Silva)<\/em><\/p>\n<p>Pois bem, nessa \u00e9poca, d\u00e9cada de 80, ainda era comum que as pessoas se visitassem, fossem ver os parentes e os amigos, para uma boa conversa, uma pequena ajuda na limpeza, para tomar um caf\u00e9 com biscoito de goma&#8230; Os motivos da minha m\u00e3e, eu n\u00e3o sei. Mas os meus motivos para fazer as visitas que eu tanto gostava, eram com certeza, o caf\u00e9 e o biscoito de goma. Neste caso, estou falando da casa de Mundica, como carinhosamente a chamamos ainda hoje. Mundica \u00e9 uma parente pr\u00f3xima, dessas que se a gente tivesse a possibilidade de escolher, escolher\u00edamos novamente para fazer parte da fam\u00edlia. Dedicada, carinhosa, simples, pura de alma e cora\u00e7\u00e3o. Bom, era s\u00f3 saber que Mundica havia chegado do Guarda-mor, povoado na zona rural de S\u00e3o Jo\u00e3o, que minha m\u00e3e e eu est\u00e1vamos l\u00e1, batendo ponto na casa de Mundica. Minha m\u00e3e ia para uma prosa, um desabafo e eu, que gosto demais da conta de Mundica, honestamente j\u00e1 ia pensando no caf\u00e9 com biscoito de goma.<\/p>\n<p>Sempre eram visitas agrad\u00e1veis. Lembro-me com carinho das falas de Mundica: <em>\u201cleva uma balinha pra menina, Irene\u201d<\/em>, ou ent\u00e3o <em>\u201cessa menina gosta mesmo de caf\u00e9, n\u00e9 Irene?\u201d<\/em>. Estava tudo muito bom at\u00e9 que chegava a hora desagrad\u00e1vel. Aquela hora que foi o piv\u00f4 da minha vontade de contar este caso. A hora do jurubeba. Mundica, sempre que ia ao Guarda-mor, trazia de l\u00e1, orgulhosa, a sua fabrica\u00e7\u00e3o \u2013 vinho de jurubeba, sem \u00e1lcool.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o conhece, a jurubeba \u00e9 uma planta medicinal, tem gosto amargo e (e p\u00f5e amargo nisso). Pode chegar a 3 metros de altura, possui folhas lisas pequenos frutos amarelos e flores da cor lil\u00e1s ou brancas. Ent\u00e3o, Mundica chegava toda feliz da vida com os copos de jurubeba. Eu disse \u201cos copos\u201d, no plural, porque tinha um pra mim tamb\u00e9m. Eu olhava para minha m\u00e3e e j\u00e1 ganhava um cutuc\u00e3o. M\u00e3e tem dessas coisas, n\u00e9? Parece que prev\u00ea quando o filho vai dizer algo que n\u00e3o \u00e9 conveniente. Minha m\u00e3e era mestre nisso. Depois do cutuc\u00e3o, eu logo entendia que tinha que aceitar a oferta t\u00e3o carinhosa. N\u00e3o era pra todo mundo que Mundica oferecia a \u201cpreciosidade\u201d Ela ia logo dizendo: \u201cDessa vez veio pouco, Irene, mas proc\u00ea n\u00e3o falta n\u00e3o!\u201d Eu pegava meu copinho, dava umas bebiricadas e o vinho descia dif\u00edcil! Quando n\u00e3o tava ag\u00fcentando mais, disfar\u00e7ava, ia l\u00e1 fora, jogava um pouquinho no quintal. Devolvia o copo vazio e agradecia, ao que Mundica logo dizia: _ Que gracinha, gente, ela gosta mesmo! Dif\u00edcil crian\u00e7a gostar de jurubeba. Quer mais um pouquinho? E eu: _ N\u00e3o, brigada. J\u00e1 ta bom!<\/p>\n<p>E assim, algum tempo depois \u00edamos embora. Mundica ficava contente com a visita, minha m\u00e3e n\u00e3o tocava no assunto da jurubeba e eu tampouco me lembrava do cutuc\u00e3o.<\/p>\n<p>Refletindo sobre essa lembran\u00e7a, comecei a avaliar-me como m\u00e3e. A minha, n\u00e3o era pedagoga e pouco estudo tinha. No entanto, no curto tempo em que convivemos (oito anos) deixou-me ensinamentos preciosos.<\/p>\n<p>Percebemos atualmente algumas diferen\u00e7as que colocam na berlinda alguns valores importantes de nossa gera\u00e7\u00e3o. Quando, por exemplo, oferecem algo para uma crian\u00e7a e ela prontamente diz \u201cEca, eu n\u00e3o gosto disso! Isso \u00e9 muito ruim! \u201cDizem alguns, estudiosos e leigos, que a crian\u00e7a \u201ctem personalidade\u201d estando apta expressar seus gostos, suas prefer\u00eancias. Avaliam muitas vezes a atitude como uma virtude. Observando os grupos ao nosso redor, n\u00f3s, enquanto pais, m\u00e3es, educadores, av\u00f3s, tios, tias&#8230; devemos estar sempre atentos e termos muito cuidado ao classificarmos como \u201cpersonalidade\u201d o que a pr\u00f3pria sociedade posteriormente ir\u00e1 cobrar e rotular como \u201cfalta de educa\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 muito comum, hoje em dia, as crian\u00e7as escolherem o que comer, o que vestir, aonde ir, a quem respeitar&#8230; Ser\u00e1 que estamos preparando os futuros adultos para as jurubebas da vida? Eu aprendi com minha m\u00e3e, e sei que muitos da minha \u00e9poca aprenderam tamb\u00e9m que um pouco de amargo na vida, n\u00e3o mata ningu\u00e9m, mas ensina muita coisa. \u00c9 um ensinamento que vale a pena relembrar.<\/p>\n<p>Ao me dar cutuc\u00f5es por causa da jurubeba, minha m\u00e3e ensinou-me a respeitar e ser agrad\u00e1vel com as pessoas, principalmente os mais velhos; a ter bons modos, principalmente se estou na casa alheia, e o mais importante de tudo, ensinou-me que na vida existem biscoitos de goma e vinhos de jurubeba. Temos que aprender a viver e conviver bem com uns e com outros.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/ilustracao_coluna_rosilene_avila_17_03_2.jpg\" \/><br \/>\n<em>(Foto: Jo\u00e3o Luiz Silva)<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/ilustracao_coluna_rosilene_avila_17_03_3.jpg\" \/><br \/>\n<em>(Foto: Jo\u00e3o Luiz Silva)<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/ilustracao_coluna_rosilene_avila_17_03_4.jpg\" \/><br \/>\n<em>(Foto: Jo\u00e3o Luiz Silva)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vou contar em breves palavras um fato que me veio \u00e0 lembran\u00e7a esta semana. Aos que me conhecem desde crian\u00e7a, ser\u00e1 f\u00e1cil identificar as personagens. 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