{"id":189749,"date":"2022-08-14T10:49:00","date_gmt":"2022-08-14T13:49:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=189749"},"modified":"2022-08-14T10:49:16","modified_gmt":"2022-08-14T13:49:16","slug":"homenagem-inedita-a-bill-russell-dificilmente-se-repetira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=189749","title":{"rendered":"Homenagem in\u00e9dita a Bill Russell dificilmente se repetir\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p>Na \u00faltima quinta (11), a NBA divulgou uma homenagem sem precedentes em sua hist\u00f3ria: o n\u00famero 6, usado pelo ex-piv\u00f4 Bill Russell, falecido em 31 de julho, aos 88 anos, ser\u00e1 aposentado por todas as 30 franquias da liga. Num meio que produz estrelas em escala cada vez maior, com rostos e curr\u00edculos mais ao alcance do p\u00fablico leigo do que Russell, a decis\u00e3o chamou a aten\u00e7\u00e3o. Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio fazer maiores reflex\u00f5es para entender no que est\u00e1 fundamentada a iniciativa e como Russell deve se manter como o \u00fanico a receber tal honraria por muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"678\" height=\"381\" data-id=\"189750\" src=\"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/bill_russell.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-189750\" srcset=\"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/bill_russell.jpg 678w, https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/bill_russell-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 678px) 100vw, 678px\" \/><figcaption><em><sub>Bill Russell (Photo by Dick Raphael\/NBAE via Getty Images \/ Divulga\u00e7\u00e3o site nba.com)<\/sub><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>O impacto (desconhecido, desprezado ou simplesmente n\u00e3o compreendido) causado por Russell no basquete, e principalmente na NBA, j\u00e1 o tornaria digno de ter recebido a homenagem ainda vivo. Mas \u00e9 compreens\u00edvel que o legado deixado por ele tenha recebido tal reconhecimento com a avalanche de rea\u00e7\u00f5es do mais elevado respeito que a not\u00edcia de sua morte causou. No entanto, n\u00e3o foi por isso que o n\u00famero 6 foi retirado. A trag\u00e9dia ocorrida com Kobe Bryant em 2020, em um momento em que o ex-jogador ainda era extremamente presente no imagin\u00e1rio dos f\u00e3s (alguns deles atletas que est\u00e3o em atividade), provocou possivelmente a maior catarse coletiva da hist\u00f3ria da liga, mas ele n\u00e3o recebeu homenagem semelhante.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o foi porque Russell seria, incontestavelmente, o melhor jogador que j\u00e1 pisou em uma quadra de basquete. N\u00e3o que haja algu\u00e9m incontest\u00e1vel nesse sentido, mas, para efeito de compara\u00e7\u00e3o, Michael Jordan, a resposta mais comum para a pergunta \u201cquem foi o melhor da hist\u00f3ria?\u201d, s\u00f3 teve o n\u00famero 23 aposentado por duas franquias: o Chicago Bulls e o Miami Heat (pelo qual nunca atuou, ali\u00e1s).<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo neste racioc\u00ednio, tamb\u00e9m n\u00e3o foi somente pela luta pela causa dos direitos civis e humanos que Bill Russell foi al\u00e7ado a tal patamar. No presente, as tens\u00f5es sociais movidas por discrimina\u00e7\u00f5es raciais sofridas por negros nos Estados Unidos voltaram a um ponto de ebuli\u00e7\u00e3o, como aconteceu nas primeiras d\u00e9cadas da carreira de Russell, nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960. Hoje tamb\u00e9m temos figuras de imensa proje\u00e7\u00e3o dentro de quadra que se colocam como l\u00edderes fora dela. Um deles, LeBron James, at\u00e9 por conta da resist\u00eancia que encontra por f\u00e3s de outras equipes da NBA, provavelmente jamais receber\u00e1 homenagem assim. Na verdade, James \u00e9 um dos atuais portadores do n\u00famero 6, no Los Angeles Lakers (A NBA confirmou que os atletas que vestem o 6 \u00e0s costas no presente poder\u00e3o continuar a us\u00e1-lo. Mas assim que mudarem de time ou pararem de jogar, o n\u00famero vai embora junto. Em algum momento na pr\u00f3xima d\u00e9cada, nenhuma franquia ter\u00e1 o 6 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Que fique claro: n\u00e3o \u00e9 porque nenhum desses (e outros) \u00edcones do basquete sejam dignos ou que devamos procurar por falhas em suas trajet\u00f3rias para n\u00e3o lhes dar a honra de terem seus n\u00fameros aposentados pela liga. \u00c9 porque ele foi um pouco de tudo que eles foram e uma coisa que nenhum deles foi: pioneiro. Para usar uma express\u00e3o que faz sucesso atualmente, Russell caminhou para que o basquete (e os astros modernos) pudessem correr.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa sociedade que parece faminta pela divis\u00e3o, pela busca por um ponto fraco, pela recontextualiza\u00e7\u00e3o (ou descontextualiza\u00e7\u00e3o) para se desvalorizar uma grande figura p\u00fablica, o ex-gigante de 2,08 metros, como atleta e personalidade, consegue se defender dos ataques pelos dois lados.<\/p>\n\n\n\n<p>Esportivamente, em termos de curr\u00edculo, com o \u00f3bvio adendo de que o basquete \u00e9 um esporte coletivo, ele tem talvez o retrospecto mais vitorioso da hist\u00f3ria da modalidade e, possivelmente, do esporte mundial. Na principal liga do planeta, \u00e9 o jogador com maior n\u00famero de t\u00edtulos: 11. Foi bicampe\u00e3o universit\u00e1rio e campe\u00e3o ol\u00edmpico. Tamb\u00e9m conquistou cinco trof\u00e9us de MVP (Jogador Mais Valioso). Curiosamente, o pr\u00eamio de MVP das Finais da NBA leva o nome de Russell, embora ele pr\u00f3prio nunca o tenha vencido. A premia\u00e7\u00e3o foi criada justamente no \u00faltimo ano da carreira dele, em 1969, quando ele ganhou o derradeiro de seus 11 t\u00edtulos, mas quem levou foi Jerry West, do Los Angeles Lakers, at\u00e9 hoje o \u00fanico MVP de finais que n\u00e3o estava no time campe\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E j\u00e1 que mencionei a defesa aos ataques dos cr\u00edticos, Russell \u00e9, possivelmente, o atleta que mais revolucionou a defesa no basquete. Ele chegou a uma NBA ainda incipiente, predominantemente branca e muito focada em fundamentos e princ\u00edpios b\u00e1sicos, e rapidamente mudou o perfil racial, f\u00edsico e de compreens\u00e3o t\u00e1tica e t\u00e9cnica do esporte. Imponente e inteligente, desafiou a ideia de que s\u00f3 se deveria defender a cesta com os p\u00e9s fixos no ch\u00e3o. A fisicalidade do jogo s\u00f3 cresceu, a fatia de jogadores negros tamb\u00e9m (hoje s\u00e3o aproximadamente 73% da liga) e agora a NBA e o basquete em geral s\u00e3o muito mais din\u00e2micos e os tocos (que s\u00f3 passaram a ser contabilizados nas estat\u00edsticas oficiais da liga ap\u00f3s a aposentadoria de Bill Russell) adicionaram um novo elemento de entretenimento ao jogo. Ele foi a primeira superestrela negra em um esporte cuja identidade, hoje, \u00e9 completamente associada a superestrelas negras.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, o que demarca o ar rarefeito respirado pelo ex-atleta foi a consci\u00eancia do seu papel em mudar o&nbsp;<em>status quo<\/em>. Por mais vencedor que tenha sido em sua carreira, Bill Russell nunca deixou de sofrer com o racismo. Durante os anos de jogador, segundo relatos dele pr\u00f3prio, foram in\u00fameras as situa\u00e7\u00f5es degradantes que viveu, mesmo na cidade na qual atuou por 13 temporadas, como jogador e t\u00e9cnico. Ele teve dificuldades de conseguir comprar uma casa em Boston por n\u00e3o encontrar vendedores interessados em negociar com um negro. Quando enfim p\u00f4de firmar um lar, ele foi vandalizado em mais de uma ocasi\u00e3o, com picha\u00e7\u00f5es de termos racistas e gestos repugn\u00e1veis, como a vez em que invasores defecaram em sua cama.<\/p>\n\n\n\n<p>Este n\u00e3o foi o come\u00e7o para ele, que contou ter convivido com a discrimina\u00e7\u00e3o latente nos Estados Unidos desde a inf\u00e2ncia. Por\u00e9m, Russell n\u00e3o ficou calado. Engajou-se na luta por direitos e igualdade, participando da marcha sobre Washington em 1963 e sendo uma das principais lideran\u00e7as negras no esporte, junto a Muhammad Ali (outrora Cassius Clay) e Kareem Abdul-Jabbar (antes Lew Alcindor). O livro lan\u00e7ado por ele em 1965, \u201cGo Up For Glory\u201d (Suba para a Gl\u00f3ria, em tradu\u00e7\u00e3o livre), contando as experi\u00eancias e desafios de crescer e lidar com o racismo j\u00e1 como uma superestrela, foi uma das pedras fundamentais nas discuss\u00f5es no meio dos atletas negros que culminaram no hist\u00f3rico protesto contra o racismo protagonizado pelos corredores Tommie Smith e John Carlos no p\u00f3dio das Olimp\u00edadas da Cidade do M\u00e9xico, em 1968.<\/p>\n\n\n\n<p>Por todos esses motivos, me permito opinar: considero mais do que justa a homenagem. O legado que uma grande figura deixa se manifesta em a\u00e7\u00f5es inspiradas por ela, mas tamb\u00e9m pelos simbolismos que n\u00e3o nos deixam esquecer dela. No basquete, cuja natureza nunca foi ligada a padr\u00f5es num\u00e9ricos como o futebol (modalidade na qual \u00e9 comum a equipe titular usar a numera\u00e7\u00e3o do 1 ao 11), retirar um n\u00famero do uso geral tem muito menos impacto no futuro do esporte. \u00c9 uma taxa min\u00fascula perto de tudo que Bill Russell trouxe para o jogo. E, caso algu\u00e9m argumente que ele n\u00e3o foi importante ou que o legado \u00e9 mais para o Boston Celtics do que para a liga ou para a modalidade, acredito que isso diz mais sobre essa pessoa do que sobre o eterno camisa 6.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quase imposs\u00edvel aparecer algu\u00e9m t\u00e3o inegavelmente talentoso, revolucion\u00e1rio, instigante e, principalmente, pioneiro quanto ele. Assim, ficar com um n\u00famero a menos para se vestir est\u00e1 longe de ser um problema.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<br><br><strong>Sabia que o Aconteceu no Vale est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/t.me\/aconteceunovaleoficial\" target=\"_blank\">Inscreva-se no canal<\/a>.<\/strong><br><br><strong>J\u00e1 curtiu ou seguiu nossas p\u00e1ginas nas redes sociais?\u00a0Receba as not\u00edcias em primeira m\u00e3o:<\/strong><br>\u2022 <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/news.google.com\/publications\/CAAqBwgKMNjklQswi4etAw?hl=pt-BR&amp;gl=BR&amp;ceid=BR%3Apt-419\" target=\"_blank\">Google News<\/a><br>\u2022 <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/aconteceunovale\/\" target=\"_blank\">Facebook<\/a><br>\u2022 <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/twitter.com\/noticiadosvales\" target=\"_blank\">Twitter<\/a><br>\u2022 <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/aconteceunovale\" target=\"_blank\">Instagram<\/a><br>\u2022 <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/AconteceunoValeOficial\" target=\"_blank\">Youtube<\/a><br>\u2022 <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.tiktok.com\/@aconteceunovale\" target=\"_blank\">TikTok<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na \u00faltima quinta (11), a NBA divulgou uma homenagem sem precedentes em sua hist\u00f3ria: o n\u00famero 6, usado pelo ex-piv\u00f4 Bill Russell, falecido em 31 de julho, aos 88 anos, ser\u00e1 aposentado por todas as 30 franquias da liga. 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