{"id":186164,"date":"2022-01-22T17:17:08","date_gmt":"2022-01-22T20:17:08","guid":{"rendered":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=186164"},"modified":"2022-01-22T17:17:56","modified_gmt":"2022-01-22T20:17:56","slug":"mostra-de-tiradentes-discute-mudancas-do-cinema-em-meio-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=186164","title":{"rendered":"Mostra de Tiradentes discute mudan\u00e7as do cinema em meio \u00e0 pandemia"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;O que vai ser do cinema? O que vai ser desse cinema que a gente concebe de forma tradicional que \u00e9 a ida pra uma sala, com ingresso pago?&#8221;, questiona Lila Foster, uma das curadoras da 25\u00aa edi\u00e7\u00e3o da Mostra de Cinema de Tiradentes. S\u00e3o perguntas que estar\u00e3o em evid\u00eancia em meio aos debates do evento que teve in\u00edcio na noite de ontem (21\/1\/2022) e se encerra no pr\u00f3ximo s\u00e1bado (29).<\/p>\n\n\n\n<p>O tema dessa edi\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;cinema em transi\u00e7\u00e3o&#8221;. A proposta \u00e9 promover uma reflex\u00e3o sobre as mudan\u00e7as que v\u00eam ocorrendo no setor, diante das transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e em meio \u00e0 pandemia de covid-19 iniciada em mar\u00e7o de 2020. Os pr\u00f3prios festivais foram duramente impactados e precisaram recorrer \u00e0 programa\u00e7\u00e3o&nbsp;<em>online<\/em>&nbsp;nos \u00faltimos dois anos. Nessa edi\u00e7\u00e3o, a Mostra de Tiradentes anunciou um modelo h\u00edbrido, mas precisou recuar frente ao avan\u00e7o da onda causada pela \u00d4micron, a nova variante do novo coronav\u00edrus que se alastrou pelo mundo: restando apenas uma semana para o in\u00edcio do evento, os organizadores comunicaram a mudan\u00e7a pactuada em comum acordo com parceiros, com patrocinadores e com o munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As altas taxas de transmissibilidade inesperadamente altas da variante \u00d4micron est\u00e3o exigindo um cuidado ainda maior. Salvar vidas \u00e9 o mais importante&#8221;, anunciaram. Transferida integralmente para o ambiente virtual, a programa\u00e7\u00e3o deste ano foi mantida com pouqu\u00edssimas altera\u00e7\u00f5es e pode ser acessada pelo&nbsp;<a href=\"https:\/\/mostratiradentes.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>site<\/em>&nbsp;oficial do evento<\/a>. Todas as atra\u00e7\u00f5es s\u00e3o gratuitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e3o apresentados 169 filmes brasileiros de 21 estados brasileiros, sendo 100 curtas e o restante m\u00e9dias e longas-metragem. O p\u00fablico deve ficar atento porque haver\u00e1 uma janela de exibi\u00e7\u00e3o para cada um deles, geralmente de 24 horas. A programa\u00e7\u00e3o preparada pela Universo Produ\u00e7\u00e3o, respons\u00e1vel pelo evento, conta ainda com oficinas, mesas de debate, performances audiovisuais, lan\u00e7amentos de livros e exposi\u00e7\u00e3o virtual.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Lila Foster, os dados da mostra fornecem subs\u00eddios para se discutir como o cinema brasileiro reagiu frente \u00e0 rarefa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas que garantiam a produ\u00e7\u00e3o constante do cinema brasileiro nos \u00faltimos anos. Um volume alto de editais p\u00fablicos foi cancelado como resultado de uma combina\u00e7\u00e3o entre as dificuldades econ\u00f4micas impostas pela pandemia e as op\u00e7\u00f5es de governos estaduais e federal mais conservadores em rela\u00e7\u00e3o ao investimento na cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Pens\u00e1vamos que ter\u00edamos menos inscri\u00e7\u00f5es de longas esse ano. Mas tivemos o mesmo volume. Mesmo em meio \u00e0 pandemia e com todas essas mudan\u00e7as, a chama do cinema brasileiro se manteve. Diante de uma certa crise, houve uma movimenta\u00e7\u00e3o em busca de novas possibilidades&#8221;, observa a curadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois fatores s\u00e3o apontados pela curadoria e pela organiza\u00e7\u00e3o da Mostra de Tiradentes como decisivos para a manuten\u00e7\u00e3o de um n\u00famero de inscri\u00e7\u00f5es similar ao dos anos anteriores. O primeiro deles \u00e9 de ordem tecnol\u00f3gica. &#8220;Temos essa beleza que o digital tem proporcionado j\u00e1 h\u00e1 quase uma d\u00e9cada. Essa ideia de que voc\u00ea consegue, com uma estrutura m\u00ednima, com uma c\u00e2mera digital e uma ilha de edi\u00e7\u00e3o caseira, produzir filmes&#8221;, diz Lila.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo fator tem rela\u00e7\u00e3o com a\u00a0Lei Aldir Blanc, aprovada em 2020 e nomeada em homenagem ao compositor que faleceu devido a complica\u00e7\u00f5es da covid-19 logo no in\u00edcio da pandemia. Trata-se de uma a\u00e7\u00e3o emergencial espec\u00edfica para apoiar o setor cultural em meio \u00e0 pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Demandada pelos artistas, ela foi aprovada no Congresso Nacional com apoio de parlamentares da base do governo e da oposi\u00e7\u00e3o. A Uni\u00e3o ficou respons\u00e1vel por repassar aos estados e munic\u00edpios\u00a0R$ 3 bilh\u00f5es, que poderiam ser empregados de diferentes formas: renda emergencial aos artistas, subs\u00eddios para manuten\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os, empresas e institui\u00e7\u00f5es culturais, editais para realiza\u00e7\u00e3o de eventos ou para produ\u00e7\u00e3o cultural, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo um levantamento da Mostra de Tiradentes, um total de 179 dos mais de 900 curtas-metragem inscritos foram financiados com recursos da Lei Aldir Blanc, representando algo em torno de 20%. Para Raquel Hallak, diretora da Universo Produ\u00e7\u00e3o e coordenadora-geral do evento, a a\u00e7\u00e3o emergencial supriu parcialmente a suspens\u00e3o de editais tradicionais e contribuiu para oxigenar o mercado, financiando inclusive filmes que n\u00e3o foram produzidos por&nbsp;processos tradicionais do cinema. Ela conta que a programa\u00e7\u00e3o re\u00fane trabalhos com propostas bem originais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A Mostra de Tiradentes \u00e9 um reflexo do cinema contempor\u00e2neo e revela quem est\u00e1 fazendo cinema, que imagens s\u00e3o essas que chegam at\u00e9 n\u00f3s. Ent\u00e3o quando falamos de cinema em transi\u00e7\u00e3o, tratamos de um retrato do audiovisual na passagem de 2021 para 2022. Nesse contexto, tivemos tanto uma desarticula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas como os efeitos da pandemia, que paralisou o setor. Foi preciso se reinventar e acompanhamos toda uma mudan\u00e7a. Ent\u00e3o nosso objetivo \u00e9 apresentar esse cinema, que dialoga com outras artes e explora novas linguagens e est\u00e9ticas&#8221;, acrescenta Hallak.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><em>Streamings<\/em><\/h2>\n\n\n\n<p>Atualmente, falar das transforma\u00e7\u00f5es do cinema n\u00e3o apenas no Brasil, mas em n\u00edvel global, \u00e9 necessariamente falar das plataformas de&nbsp;<em>streamings<\/em>. \u00c9 o que aponta Lila, que diz acreditar que, diante do poderio financeiro dos grupos envolvidos, o sucesso seria alcan\u00e7ado de toda forma. No entanto, sugere que o isolamento social em meio \u00e0 crise sanit\u00e1ria facilitou a entrada destas novas tecnologias em nossas vidas. &#8220;A gente aceita hoje assistir um filme&nbsp;<em>online<\/em>&nbsp;muito mais que dois anos atr\u00e1s. \u00c9 um dado cultural, de h\u00e1bito, de pr\u00e1tica&#8221;, pontua.<\/p>\n\n\n\n<p>A curadora aponta que \u00e9 poss\u00edvel discutir o fen\u00f4meno sob diversos \u00e2ngulos. &#8220;At\u00e9 mesmo a televis\u00e3o hoje em dia est\u00e1 em cheque. Essa \u00e9 uma mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica e econ\u00f4mica em curso. E com ela, n\u00f3s tamb\u00e9m percebemos uma chegada de diretores do cinema independente nesses espa\u00e7os. Vamos ter debates em torno disso: como o espa\u00e7o do&nbsp;<em>streaming<\/em>&nbsp;e os canais&nbsp;<em>online<\/em>&nbsp;possibilitam novas oportunidades para o cinema independente?&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema \u00e9 de extremo interesse para a Mostra de Tiradentes uma vez que o evento sempre se pautou pelo seu papel de est\u00edmulo \u00e0s produ\u00e7\u00f5es independentes. A Mostra Aurora, ponto alto da programa\u00e7\u00e3o, abre espa\u00e7o para trabalhos in\u00e9ditos de diretores que tenham at\u00e9 tr\u00eas longa-metragens no curr\u00edculo. Esse categoria espec\u00edfica para a valoriza\u00e7\u00e3o de novos cineastas surgiu em 2008, na 10\u00aa edi\u00e7\u00e3o. De l\u00e1 pra c\u00e1, ela se firmou como uma das mais importantes vitrines do evento.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ano, concorrem na Mostra Aurora sete t\u00edtulos produzidos em cinco estados: Pernambuco, Cear\u00e1, Minas Gerais, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. Segundo Lila, a sele\u00e7\u00e3o re\u00fane trabalhos que apostam no di\u00e1logo de formatos, explorando a dilui\u00e7\u00e3o da fronteira entre fic\u00e7\u00e3o e document\u00e1rio e a combina\u00e7\u00e3o de linguagens. Muitas das produ\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o origin\u00e1rias estritamente do universo do cinema, mas envolve outros grupos e coletivos culturais, por exemplo, do teatro, das artes pl\u00e1sticas, etc.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Programa\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>A Mostra de Tiradentes foi criada em 1998 com a proposta de colaborar com o chamado &#8220;cinema de retomada&#8221;, express\u00e3o usada na historiografia para se referir ao reaquecimento da produ\u00e7\u00e3o nacional, ocorrido na segunda metade da d\u00e9cada de 1990. Rapidamente se consolidou como respons\u00e1vel por abrir anualmente o calend\u00e1rio audiovisual brasileiro, o que faz com que suas discuss\u00f5es influenciem outros festivais ao longo do ano. Com o tempo, tamb\u00e9m foi construindo sua voca\u00e7\u00e3o de apoio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o independente. O evento conta com o apoio da Secretaria de Cultura e Turismo de Minas Gerais e do Minist\u00e9rio do Turismo, por meio de sua Secretaria Especial da Cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da Mostra Aurora, a edi\u00e7\u00e3o deste ano tem outras 16 categorias. Uma novidade de 2022 ser\u00e1 o Conex\u00e3o Brasil Cinemundi, uma vers\u00e3o itinerante do Brasil Cinemundi, iniciativa que acontece desde 2009 na capital mineira durante a Mostra CineBH, tamb\u00e9m realizada pela Universo Produ\u00e7\u00e3o. Trata-se de um encontro internacional de coprodu\u00e7\u00e3o, que re\u00fane representantes da ind\u00fastria mundial com interesse em coproduzir com o Brasil e conhecer pessoalmente projetos que muitas vezes n\u00e3o chegam at\u00e9 eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Tiradentes, acontecer\u00e1 a categoria Work In Progress (WIP). Entre os dias 24 e 29 de janeiro ser\u00e3o apresentados filmes que est\u00e3o na reta final para serem finalizados. &#8220;Alguns est\u00e3o em processo j\u00e1 avan\u00e7ado, estudando a forma de lan\u00e7amento no mercado. Outros buscando s\u00f3cios e recursos para finalizar&#8221;, explica Raquel Hallak. Segundo ela, essa novidade inclu\u00edda na programa\u00e7\u00e3o da Mostra de Tiradentes veio de uma demanda da pr\u00f3pria ind\u00fastria e se alinha ao esfor\u00e7o que o evento vem construindo mais recentemente de projetar o cinema brasileiro para o exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>O homenageado deste ano \u00e9 Adirley Queir\u00f3z. O cineasta de Ceil\u00e2ndia, no Distrito Federal, assina filmes como&nbsp;<em>Dias de Greve<\/em>&nbsp;(2009),&nbsp;<em>Fora de Campo<\/em>&nbsp;(2010),&nbsp;<em>A Cidade \u00e9 Uma S\u00f3?<\/em>&nbsp;(2012),&nbsp;<em>Branco Sai, Preto Fica<\/em>&nbsp;(2014) e&nbsp;<em>Era Uma Vez Bras\u00edlia<\/em>&nbsp;(2017), trabalhos que ser\u00e3o exibidos na programa\u00e7\u00e3o do evento.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Adirley \u00e9 uma descoberta da Mostra de Cinema de Tiradentes. Ganhou a Mostra Aurora em 2012 e, de l\u00e1 pra c\u00e1, acompanhamos sua trajet\u00f3ria. Escolhemos o seu nome para representar esse tempo hist\u00f3rico do cinema brasileiro, bem como os 25 anos do evento. Um dos melhores frutos desse per\u00edodo \u00e9 a presen\u00e7a do Adirley com sua filmografia e sua genialidade&#8221;, diz Raquel Hallak.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<br><em>Quer receber as not\u00edcias do <strong>Aconteceu no Vale<\/strong> em primeira m\u00e3o? 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