{"id":149450,"date":"2019-07-01T08:12:46","date_gmt":"2019-07-01T10:12:46","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=149450"},"modified":"2019-07-01T08:12:46","modified_gmt":"2019-07-01T10:12:46","slug":"plano-real-completa-25-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=149450","title":{"rendered":"Plano Real completa 25 anos"},"content":{"rendered":"<p>Os brasileiros com mais de 40 anos t\u00eam f\u00e1cil mem\u00f3ria das estrat\u00e9gias das fam\u00edlias para mitigar os efeitos da hiperinfla\u00e7\u00e3o sobre a renda nos anos 1980 e 1990. \u201cEra uma gin\u00e1stica danada. Tinha que ir atr\u00e1s de promo\u00e7\u00f5es e nem sempre eram suficientes\u201d, conta Rute Maria de Souza, dona de um restaurante self-service h\u00e1 quase 30 anos na zona central de Bras\u00edlia.<br \/>\n<center><br \/>\n<!-- Erro, o An\u00fancio n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel neste momento devido \u00e0s restri\u00e7\u00f5es de agendamento\/geolocaliza\u00e7\u00e3o! --><br \/>\n<\/br><br \/>\n<\/center><br \/>\nTendo que repor constantemente a despensa da cozinha do estabelecimento, a empres\u00e1ria ia mais de uma vez ao dia em supermercados e sempre via a mesma cena: \u201cEu me lembro das remarca\u00e7\u00f5es no mercado. Quando chegava, l\u00e1 estava a maquininha trabalhando\u201d.<\/p>\n<p>Para fugir das intermin\u00e1veis remarca\u00e7\u00f5es, a ent\u00e3o professora de ensino fundamental Cl\u00e9ia Gerin, m\u00e3e de quatro filhos, estocava alimentos, material de limpeza e sab\u00e3o para lavar roupa. \u201cO feij\u00e3o ficava velho, e assim era mais dif\u00edcil de cozinhar. Acabava que gastava mais g\u00e1s\u201d, comenta, ao citar a necessidade de sempre comprar mais do que efetivamente precisava no m\u00eas para fugir da impar\u00e1vel subida de pre\u00e7os.<\/p>\n<p>\u201cA partir do momento em que recebia, era aquela loucura de ir ao mercado para comprar o m\u00e1ximo que pudesse, para durar o m\u00eas todo, e para n\u00e3o ter que voltar porque no dia seguinte o pre\u00e7o seria diferente\u201d, descreve ao recordar os tempos de infla\u00e7\u00e3o galopante.<\/p>\n<p>Apesar das dificuldades, Cl\u00e9ia era professora da rede p\u00fablica do Distrito Federal e tinha a seguran\u00e7a do pagamento todo m\u00eas. Em alguns momentos, era acrescido em sua remunera\u00e7\u00e3o um \u201cgatilho\u201d para repor as perdas inflacion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Essa hip\u00f3tese n\u00e3o existia para todos os brasileiros, como Jo\u00e3o Batista, engraxate h\u00e1 45 anos em um ponto no Setor Comercial Sul de Bras\u00edlia. Ele n\u00e3o podia majorar o pre\u00e7o do servi\u00e7o quando precisava atualizar sua remunera\u00e7\u00e3o. \u201cS\u00f3 podia aumentar quando a passagem [do \u00f4nibus] aumentava\u201d, revelando um incidental indexador da renda para trabalhadores aut\u00f4nomos.<\/p>\n<p>A vida de Jo\u00e3o Batista foi positivamente marcada pela estabilidade monet\u00e1ria ap\u00f3s o Plano Real. \u201cEu n\u00e3o tinha nada. Hoje, gra\u00e7as a Deus e de tanto eu trabalhar, consegui minha casa, consegui formar meus filhos\u201d, orgulha-se.<\/p>\n<p><strong>Comunica\u00e7\u00e3o e convencimento<\/strong><\/p>\n<p>Pessoas como a pequena empres\u00e1ria Rute, a assalariada Cl\u00e9ia e o aut\u00f4nomo Jo\u00e3o tiveram ser convencidas que a moeda que entrou em circula\u00e7\u00e3o em 1\u00ba de julho de 1994, o real, n\u00e3o era mais uma tentativa fadada ao fracasso para estabilizar a economia, como ocorreu em seis planos emergenciais anteriores: Cruzado 1 (fevereiro de 1986); Cruzado 2 (novembro de 1986); Bresser (junho de 1987); Ver\u00e3o (janeiro de 1989); Collor 1 (mar\u00e7o de 1990) e Collor 2 (janeiro de 1991).<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o foi um ponto chave para que o Plano Real, implementado em etapas, fosse assimilado e tivesse engajamento. \u201cSem muita explica\u00e7\u00e3o, verbo, lideran\u00e7a e apoio da m\u00eddia n\u00e3o se consegue o principal, que \u00e9 convencer, ou seja, vencer junto tanto com as c\u00fapulas pol\u00edtico-tecnocr\u00e1ticas como, principalmente, junto com o povo\u201d, assinala o presidente Fernando Henrique Cardoso, em nota \u00e0 imprensa sobre os 25 anos da iniciativa.<\/p>\n<p>O jornalista Thomas Traumann, autor do livro O Pior Emprego do Mundo, que narra a trajet\u00f3ria de 14 ministros da Fazenda desde 1967, tamb\u00e9m aponta para o cuidado com a dissemina\u00e7\u00e3o das medidas econ\u00f4micas no lan\u00e7amento do real.<\/p>\n<p>Segundo Traumann, o Plano Real contou com \u201capoio did\u00e1tico preponderante da m\u00eddia\u201d. \u201cOs telejornais foram favor\u00e1veis ao plano desde o seu dia zero\u201d, destaca. A informa\u00e7\u00e3o sem sustos evitou comportamentos que em outros planos criam corrida a bancos, supermercados e postos de combust\u00edvel. \u201cN\u00e3o houve surpresa. Isso foi fundamental\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>A transpar\u00eancia \u00e9 elogiada at\u00e9 pelo ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, cr\u00edtico de alguns resultados da medida. \u201cO Plano Real foi uma pequena joia que far\u00e1 a gl\u00f3ria dos competentes economistas que o conceberam. Mostrou que mesmo projetos complexos, quando expostos na sua integridade (come\u00e7o, meio e fim), podem ser compreendidos e contar com suporte da sociedade\u201d, escreveu \u00e0 Ag\u00eancia Brasil. Ele admitiu que quando viu \u201co povo comprando berinjela em URV\u201d, Unidade Real de Valor, ficou \u201cna maior alegria\u201d e viu \u201cque o controle da infla\u00e7\u00e3o seria bem-sucedido\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ajuste fiscal e troca da moeda<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com o site do Banco Central, o plano desenvolveu-se em tr\u00eas fases a partir do segundo semestre de 1993. Antes de a moeda entrar em circula\u00e7\u00e3o, houve um \u201cesfor\u00e7o de ajuste fiscal, com destaque para a cria\u00e7\u00e3o do Fundo Social de Emerg\u00eancia (FSE), concebido para aumentar a arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria e a flexibilidade da gest\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria em 1994 e 1995\u201d.<\/p>\n<p>O FSE desvinculou despesas e receitas or\u00e7ament\u00e1rias. \u201cDe social, [o FSE] n\u00e3o tinha nada, mas foi a primeira vez em que se fez um ajuste nas entranhas das contas do governo\u201d, aponta Thomas Traumann. Segundo ele, ali come\u00e7ou a haver uma preocupa\u00e7\u00e3o sobre os limites at\u00e9 onde poderia ir o d\u00e9ficit p\u00fablico.<\/p>\n<p>O economista Jos\u00e9 Ronaldo Souza J\u00fanior, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), assinala que a infla\u00e7\u00e3o produzia desequil\u00edbrios nas contas p\u00fablicas e dificultava a percep\u00e7\u00e3o do rombo. \u201cNem sequer t\u00ednhamos uma contabilidade p\u00fablica na \u00e9poca. A clareza a respeito era muito pouco. Com infla\u00e7\u00e3o muit\u00edssimo elevada e o d\u00e9ficit sendo coberto com emiss\u00e3o de moeda, havia uma nuvem que dificultava enxergar o problema\u201d, disse.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do FSE, Souza J\u00fanior pondera que \u201cuma s\u00e9rie de medidas foram tomadas com o objetivo de organizar o setor p\u00fablico porque se sabia que haveria uma redu\u00e7\u00e3o de arrecada\u00e7\u00e3o do que se chama imposto inflacion\u00e1rio [quando a arrecada\u00e7\u00e3o sobe mais por causa do aumento de pre\u00e7os]\u201d.<\/p>\n<p>A gest\u00e3o fiscal exigiu limita\u00e7\u00e3o da emiss\u00e3o de moeda e beneficiou-se da compra de t\u00edtulos da d\u00edvida externa no mercado financeiro internacional antes do lan\u00e7amento do plano. Mais adiante, o ajuste levou \u00e0 renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas dos estados com a Uni\u00e3o e \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o de controles das contas pelos entes federativos.<\/p>\n<p>\u201cCompreendemos que a \u2018m\u00e1gica\u2019 de cortar zeros, mudar o nome da moeda ou mesmo da URV precisava de apoio em um processo de controle dos gastos p\u00fablicos, renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas externas, privatiza\u00e7\u00e3o de bancos estaduais, enfim de uma reforma do estado. Lembre-se que a Lei de Responsabilidade Fiscal s\u00f3 foi aprovada em 2000 e as privatiza\u00e7\u00f5es tomaram anos (vide telef\u00f4nicas) para que seus efeitos positivos fossem sentidos\u201d, descreve em nota o presidente e ex-ministro da Fazenda FHC.<\/p>\n<p>A segunda etapa, iniciada com Medida Provis\u00f3ria n\u00ba 434, assinada pelo ent\u00e3o presidente Itamar Franco em 27 de fevereiro de 1994, estabeleceu a utiliza\u00e7\u00e3o de uma moeda escritural, a citada Unidade Real de Valor (URV), que serviu como uma ponte para convers\u00e3o monet\u00e1ria entre o cruzeiro que deixaria de existir para o real que entraria em circula\u00e7\u00e3o quatro meses depois.<\/p>\n<p>Na \u00faltima fase, iniciada h\u00e1 exatos 25 anos, finalmente se introduziu o real. O novo padr\u00e3o monet\u00e1rio \u201cimplicou a necessidade de r\u00e1pida e abrangente disponibiliza\u00e7\u00e3o do novo meio circulante a partir de 1\u00ba. julho de 1994\u201d, registra p\u00e1gina eletr\u00f4nica do BC.<\/p>\n<p><strong>VER PRIMEIRO<\/strong><\/p>\n<p>Receba as not\u00edcias do Aconteceu no Vale em primeira m\u00e3o. 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