{"id":137293,"date":"2018-10-25T11:23:59","date_gmt":"2018-10-25T13:23:59","guid":{"rendered":"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=137293"},"modified":"2018-10-25T11:23:59","modified_gmt":"2018-10-25T13:23:59","slug":"como-a-agua-brotou-de-novo-no-cerrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/?p=137293","title":{"rendered":"Como a \u00e1gua brotou de novo no Cerrado"},"content":{"rendered":"<p>Conciliar a atividade agropecu\u00e1ria com boas pr\u00e1ticas de preserva\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das estrat\u00e9gias que tem contribu\u00eddo para fazer a \u00e1gua brotar de novo da terra, nutrir o solo e correr para o rio. A a\u00e7\u00e3o tem sido empreendida pelo programa Produtor de \u00c1gua para recuperar a Bacia Hidrogr\u00e1fica do Pipiripau, que j\u00e1 foi considerada uma das bacias mais problem\u00e1ticas do Distrito Federal.<\/p>\n<p>Localizada a cerca de 50 quil\u00f4metros do centro de Bras\u00edlia, a Bacia do Pipiripau sempre foi marcada pelo conflito por recursos h\u00eddricos. A \u00e1rea tem pequenas, m\u00e9dias e grandes propriedades rurais que demandam muita \u00e1gua para irriga\u00e7\u00e3o. Os c\u00f3rregos desta bacia abastecem a popula\u00e7\u00e3o das cidades-sat\u00e9lites de Planaltina e Sobradinho, que juntas tem cerca de 300 mil habitantes, e alimentam as bacias hidrogr\u00e1ficas de S\u00e3o Bartolomeu e do Paran\u00e1, que abrangem outros seis estados do pa\u00eds, entre eles, S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u201cA Bacia do Pipiripau foi muito desmatada. T\u00eam assentamentos que chegaram l\u00e1 e era tudo braqui\u00e1ria [capim], pasto de gram\u00ednea ex\u00f3tica e eles est\u00e3o agora fazendo sistemas de plantios agroflorestais, agroecol\u00f3gicos e isso contribui pra que o sistema volte a ter maior capacidade de infiltra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, contribuindo para a bacia ficar mais saud\u00e1vel\u201d, disse Isabel Figueiredo, coordenadora do programa Cerrado e Caatinga do Instituto Sociedade, Popula\u00e7\u00e3o e Natureza (ISPN), que integra a Rede Cerrado.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/agua_cerrado_2.jpg\" alt=\"\" \/><em>Projeto quer recuperar a Bacia Hidrogr\u00e1fica do Pipiripau &#8211; Jos\u00e9 Cruz\/Ag\u00eancia Brasil<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>Segundo Devanir Santos, coordenador de Projetos Indutores da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA), al\u00e9m do impacto da intensa atividade agropecu\u00e1ria, a mudan\u00e7a no fluxo de chuvas tamb\u00e9m reduziu a capacidade de infiltra\u00e7\u00e3o do solo na regi\u00e3o, o que levou \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o dos rios da bacia.<\/p>\n<p>\u201cAntigamente, tinha chuva de longa dura\u00e7\u00e3o e pouca intensidade por 15, 20 dias. Hoje, t\u00eam pancadas num curto espa\u00e7o de tempo e isso dificulta ainda mais a infiltra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua no solo. O resultado \u00e9 que acaba que voc\u00ea n\u00e3o tem uma boa alimenta\u00e7\u00e3o do len\u00e7ol fre\u00e1tico, que \u00e9 fundamental para voc\u00ea ter \u00e1gua no per\u00edodo da seca\u201d, explica Santos.<\/p>\n<p><strong>Pagamentos ambientais<\/strong><\/p>\n<p>Por meio da compensa\u00e7\u00e3o financeira, o programa Produtor de \u00c1gua financia os produtores que cedem suas terras para prote\u00e7\u00e3o de c\u00f3rregos, nascentes e matas ciliares e adotam pr\u00e1ticas que melhoram a infiltra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua na terra. Entre as medidas adotadas, est\u00e1 a implanta\u00e7\u00e3o das chamadas tecnologias mec\u00e2nicas, como readequa\u00e7\u00e3o das estradas rurais que d\u00e3o acesso \u00e0s propriedades, por meio da forma\u00e7\u00e3o de desvios laterais ou bacias de conten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, como as pequenas barragens.<\/p>\n<p>Nas propriedades tamb\u00e9m s\u00e3o feitos os terra\u00e7os, que se parecem com lombadas para diminuir a velocidade das enxurradas e o impacto erosivo da \u00e1gua no solo em \u00e1reas de declive. \u201cAl\u00e9m das obras mec\u00e2nicas, temos plantio em \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o permanente, cercamento em \u00e1rea de nascente e rios e a conserva\u00e7\u00e3o de \u00e1rea j\u00e1 plantada h\u00e1 muitos anos. Ent\u00e3o, o produtor pode receber pela \u00e1rea j\u00e1 conservada, pela \u00e1rea que ele plantou agora ou pela \u00e1rea onde fez as pr\u00e1ticas mec\u00e2nicas\u201d, explica Rossini Sena, especialista em recursos h\u00eddricos da ANA.<\/p>\n<p>O valor pago a cada produtor varia de R$ 100 a R$ 300 por m\u00eas. A f\u00f3rmula para calcular o pagamento ambiental ao produtor leva em considera\u00e7\u00e3o as medidas ambientais que ele implanta na propriedade.<\/p>\n<p>\u201cQuanto mais a atividade for ben\u00e9fica para o meio ambiente, mais o produtor ganha\u201d, completa Rossini.<\/p>\n<p><strong>Resultados<\/strong><\/p>\n<p>Devanir Santos relata que h\u00e1 sete anos a situa\u00e7\u00e3o ficou insustent\u00e1vel na regi\u00e3o, chegando ao ponto em que n\u00e3o era poss\u00edvel manter a irriga\u00e7\u00e3o e o abastecimento urbano ao mesmo tempo. Houve momentos em que foi necess\u00e1rio negociar com os produtores a redu\u00e7\u00e3o da \u00e1rea plantada para garantir o abastecimento para consumo humano, que \u00e9 protegido por lei. <\/p>\n<p>\u201cFoi quando n\u00f3s come\u00e7amos o projeto l\u00e1. De um lado, n\u00f3s atuamos melhorando a capacidade de infiltra\u00e7\u00e3o, incentivando os produtores a mudar a forma de ocupar o solo, reflorestando algumas \u00e1reas essenciais, principalmente as zonas de recarga, as margens de rio e implementando as pr\u00e1ticas mec\u00e2nicas de conserva\u00e7\u00e3o do solo. Do outro lado, n\u00f3s tamb\u00e9m buscamos formas de reduzir a utiliza\u00e7\u00e3o de \u00e1gua na irriga\u00e7\u00e3o\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Santos lembra que a Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) tinha autoriza\u00e7\u00e3o para tirar 400 litros por segundo da bacia para atender ao consumo humano, mas na crise n\u00e3o conseguia tirar nem 250 litros devido \u00e0 queda de vaz\u00e3o nos rios e ao aumento da demanda por irriga\u00e7\u00e3o. Hoje, a companhia tira em torno de 300 a 350 litros, o que \u00e9 considerado suficiente para o abastecimento de Sobradinho e Planaltina.<\/p>\n<p>O coordenador relata ainda que foram criados reservat\u00f3rios para captar \u00e1gua espec\u00edfica para irriga\u00e7\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m a expectativa de reservar mais \u00e1gua com a implementa\u00e7\u00e3o da \u00faltima etapa do projeto, que consiste no revestimento do canal Santos Dumont, principal adutora da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo sem a finaliza\u00e7\u00e3o da adutora, Devanir destaca que as a\u00e7\u00f5es do programa t\u00eam surtido efeitos sobre a disponibilidade h\u00eddrica no Pipiripau. No per\u00edodo mais cr\u00edtico de racionamento de \u00e1gua que atingiu o DF ano passado, a Bacia do Pipiripau n\u00e3o teve problemas de desabastecimento, ao contr\u00e1rio das bacias do Descoberto e de Santa Maria, que abastecem outras \u00e1reas do DF e viram o n\u00edvel da \u00e1gua reduzir drasticamente levando ao racionamento do consumo por mais de um ano.<\/p>\n<p>\u201cHoje, a situa\u00e7\u00e3o dos produtores est\u00e1 bem melhor, eles est\u00e3o irrigando uma \u00e1rea quase que plena e a gente est\u00e1 conseguindo uma conviv\u00eancia boa entre os dois setores [irriga\u00e7\u00e3o e abastecimento urbano], mesmo sem fazer uma coisa essencial que \u00e9 o revestimento do canal\u201d, comenta.<\/p>\n<p>Os estudos para adequa\u00e7\u00e3o do canal j\u00e1 foram feitos, mas o projeto aguarda aporte de recursos para implanta\u00e7\u00e3o da obra. \u00c9 necess\u00e1rio investimento da ordem de R$ 10 milh\u00f5es para recuperar o canal, que pode reduzir em praticamente pela metade o desperd\u00edcio de \u00e1gua na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPara voc\u00ea ter uma ideia, a gente tira hoje 350 litros pra abastecer uma \u00e1rea que precisa s\u00f3 de 150. A gente perde 200 litros por segundo ao longo desse canal. Se a gente fizer uma adutora, eu j\u00e1 libero quase 200 litros por segundo para o abastecimento humano, sem preju\u00edzo nenhum para os produtores que v\u00e3o conseguir irrigar sua \u00e1rea toda\u201d, afirma Santos.<\/p>\n<p><strong>Participa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A produtora Bernadete Brand\u00e3o participa do projeto desde o in\u00edcio, em 2012, e recebe por ano pouco mais de R$ 2 mil pelos servi\u00e7os ambientais que implantou em sua propriedade. Ela conta que quando entrou no programa um de seus objetivos era manter a tradi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia de preservar a \u00e1gua nas terras.<\/p>\n<p>\u201cA gente vem de uma cria\u00e7\u00e3o em que meus pais ensinaram muito sobre a \u00e1gua. A gente tinha uma fazenda em Padre Bernardo que tinha \u00e1gua que corria. Eles venderam essa \u00e1rea e a pessoa que comprou desmatou tudo. Minha m\u00e3e ficou muito sentida, porque aquela \u00e1gua secou\u201d, lembra.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/aconteceunovale.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/agua_cerrado_1.jpg\" alt=\"\" \/><em>Produtores no Piripipau conseguiram retomar produ\u00e7\u00e3o &#8211; Jos\u00e9 Cruz\/Ag\u00eancia Brasil<\/em><br \/>\n<\/br><\/p>\n<p>A propriedade de Bernadete tem entre 5 e 6 hectares, dos quais 3,7 j\u00e1 foram recuperados. Na \u00e1rea, s\u00e3o plantadas hortali\u00e7as, frutas, tomate, piment\u00e3o, entre outros produtos. Ela tamb\u00e9m cria gado de corte e carneiros.<\/p>\n<p>Para evitar desperd\u00edcio da \u00e1gua, Bernadete usa o sistema de gotejamento direto na raiz das plantas para fazer a irriga\u00e7\u00e3o. Em dias muito quentes e secos, ela tamb\u00e9m usa vaporizador e umidificador e deixa a aspers\u00e3o de \u00e1gua somente para situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Logo na entrada de sua ch\u00e1cara, \u00e9 poss\u00edvel ver os terra\u00e7os feitos pelo projeto para conter a descida brusca da \u00e1gua da chuva. Sem as lombadas, a enxurrada desceria de uma vez para o rio, provocando danos no solo e assoreamento do afluente que corta sua propriedade.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 tem que fazer uma manuten\u00e7\u00e3o nessas curvas de n\u00edvel. Mas, eu acho que melhorou muito, porque como ali em cima tem plantio de soja e milho, e a terra est\u00e1 muito nua, quando chove a terra vem vindo e assoreando, carregando tudo. A\u00ed com a curva de n\u00edvel a \u00e1gua diminui o fluxo\u201d, diz.<\/p>\n<p>Ao redor das fontes de \u00e1gua em sua propriedade, Bernadete colocou uma cerca para evitar a entrada do gado e plantou na \u00e1rea algumas mudas de \u00e1rvores. No entanto, a produtora lamenta que algumas mudas ainda n\u00e3o tenham se desenvolvido por causa de outro problema recorrente no Pipiripau: os inc\u00eandios, geralmente provocados pela queima de ro\u00e7a e de lixo. \u201cBombeiro j\u00e1 at\u00e9 cansou de vir aqui\u201d.<\/p>\n<p>Bernadete relata tamb\u00e9m que as chuvas tem sido cada vez mais escassas e as nascentes que costumavam jorrar \u00e1gua mesmo nos per\u00edodos de seca agora est\u00e3o apenas \u00famidas. \u201cEu percebo que a \u00e1gua tem sumido bastante, a cisterna que enchia com dez minutos, j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 enchendo t\u00e3o r\u00e1pido\u201d, conta.<\/p>\n<p><strong>Expans\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Apesar dos desafios, o projeto tem conseguido a ades\u00e3o de boa parte dos produtores da Bacia do Pipiripau. Atualmente, entre as 540 propriedades situadas na Bacia, o programa tem 170 contratos firmados com produtores, 130 deles j\u00e1 est\u00e3o recebendo pelos servi\u00e7os ambientais. Em cinco anos, foram plantadas cerca de 300 mil mudas de \u00e1rvores em uma extens\u00e3o aproximada de 1,5 mil hectares.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas, o programa tem apoio de outras 18 institui\u00e7\u00f5es parceiras, como organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, \u00f3rg\u00e3os ambientais, universidade, entre outros. \u201cEstamos defendendo que se invista em projetos de recupera\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o dos mananciais. Plantar florestas \u00e9 fundamental para estar se preparando para as crises que v\u00e3o vir cada vez mais fortes, porque no contexto de cen\u00e1rios de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, per\u00edodos secos v\u00e3o ser mais secos, e quando tiver chuva, vai ter mais chuva\u201d, alertou Ricardo Novaes, especialista em  Recursos H\u00eddricos do WWF-Brasil, uma das organiza\u00e7\u00f5es que coordenam o projeto.<\/p>\n<p>O programa tamb\u00e9m atua em outros 60 pontos do pa\u00eds. A experi\u00eancia mais antiga est\u00e1 na cidade de Extrema, no Sul de Minas, que em 10 anos promoveu o plantio de 1,3 milh\u00e3o de mudas.<\/p>\n<p>Um Acordo de Coopera\u00e7\u00e3o T\u00e9cnica j\u00e1 foi firmado para instalar o programa na Bacia do Descoberto, que abastece a maior parte do Distrito Federal. A \u00e1rea da bacia foi devastada pela forte especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e enfrenta o desafio de manter os reservat\u00f3rios que abastecem a capital.<\/p>\n<p><strong>VER PRIMEIRO<\/strong><\/p>\n<p>Receba as not\u00edcias do Aconteceu no Vale em primeira m\u00e3o. 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