23 de outubro de 2018 - 14:48
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BERILO: Sonho de padre holandês se transforma em ruínas no distrito de Lelivéldia

Uma das mais polêmicas obras sociais do Médio Vale do Jequitinhonha, está abandonada e tomada pelo mato, em Lelivéldia, distrito de Berilo, no Vale do Jequitinhonha.


(Foto: Gazeta de Araçuaí)

Criado em meados da década de 1960, pelo padre holandês Wilhelmus Johannes Oud – o padre Willi – o Patronato amarga hoje o esquecimento e a depredação, após a morte do religioso, há sete anos.

O prédio principal, de dois andares, construído há pelo menos 12 anos, é hoje, alvo de cinco ações trabalhistas de ex-funcionários do Patronato, o que inviabiliza qualquer projeto que possa resgatar a obra, enquanto não finalizar o julgamento das ações.

Ele fica a menos de 100 metros de uma escola estadual que atende alunos do 1º ao 9º ano. Inacabado e imponente, ele nada lembra os tempos em que o padre Willi sonhava em transformá-lo no maior educandário do lugar.

São 30 salas espalhadas pelos dois pavimentos. A maioria está apenas no reboco, sem portas, janelas ou pintura. A sujeira toma conta de toda a área. No andar de baixo há muitas carteiras quebradas, livros velhos e muita quinquilharia.

No ano passado, foi homologado um acordo que incluía doações de terras do Patronato para os autores das ações, porém, o acordo não foi cumprido.

“Não sabemos ainda o que fazer com o patrimônio. Sonhos até que temos, como por exemplo, criar uma Escola Família Agrícola (EFA) e ainda aproveitar o espaço para instalação de cursos profissionalizantes” diz José Nelson Caldeira, presidente da Associação do Patronato Agrícola Industrial de Lelivéldia.

“Quando tudo estiver resolvido, vamos buscar apoio para resgatar os objetivos do Patronato”, garante José Nelson que viveu 20 dos seus 44 anos, no educandário.

“É triste ver aquilo tudo abandonado. Estudei ali e tudo que tenho devo ao Patronato, onde recebi todo apoio. Naquela época, tudo era difícil na região. O padre formou cidadãos. As crianças estudavam latim, francês e inglês. Na minha época eram 180 alunos”, lembra José Nelson.

ABANDONO

Além do prédio principal, existem na área dois outros prédios, distantes pelo menos 1 km um do outro. Em um deles, o padre Willi queria transformar em hospital e o outro, funcionou como alojamento feminino. São dois galpões compridos e cobertos com telhas de amianto e pequenas janelas.

O Patronato, que fica a 6 km de Lelivéldia, era uma mistura de escola e orfanato e ocupa uma área, com cerca de 2 mil hectares. O lugar era o sonho do religioso que chegou ao Brasil, fugindo dos horrores de Adolf Hitler e da Segunda Guerra Mundial.

O nome de Lelivéldia (Vale dos Lírios, como ele costumava dizer), é uma referência ao seu próprio nome.

QUEM ERA O PADRE WILLI

Padre Willi, era um homem despojado, e dedicado aos pobres do Vale do Jequitinhonha, onde passou boa parte de sua vida, e onde educou bem mais de 400 crianças .

Hoje, já todas adultas, algumas com cursos universitários, estão empregadas e casadas.

Elas o chamavam de “pai Padre Willi”. Muitos são residentes em Lelivéldia, que cresceu pela venda “simbólica” de lotes que ele mesmo fazia a seus “filhos espirituais”, quando estes iam ficando adultos.

Toda a área, que acabou se tornando distrito de Berilo, o religioso foi adquirindo aos poucos, conforme ia conseguindo dinheiro de doações.

Primeiro para uso e manutenção de sua obra social “o Patronato” e também para preservação ambiental, uma vez que, como ele alertava, quase toda a região da Chapada de Acauã, onde se localiza o lugar, corria risco de deterioração de seu ecossistema, por causa das grandes plantações de eucalipto que devastaram e destruíram toda a característica do cerrado da Chapada, por conta dos interesses capitalistas de grandes empresas de reflorestamento.

“Padre Willi era um grande idealista e apaixonado pelos pobres e pequeninos, e recebia das mães em desespero, todas as crianças que se encontravam em situação de miséria e risco de morte por desnutrição, o que não faltava na região considerada das mais miseráveis do Brasil.

Ele as acolhia no Patronato, onde lhes dava abrigo, embora em condições precárias, até o ponto de sua obra social ser fechada pelo Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, – diante de denúncias feitas devido a falta de condições mínimas para funcionamento – muito embora as mais de 400 crianças por ele educadas e crescidas nesse local tenham “sobrevivido” e se tornado bons cidadãos, todos muito educados, bem formados e instruídos, dando-lhes também formação acadêmica, ética, moral e religiosa.”, lembra o Monsenhor Lídio de Miranda Murta, amigo do padre Willi.

“Era um homem de Deus, uma alma pura, um coração de criança, numa mente genial, mas meio utópica, irrealista e adoidada, porém um verdadeiro santo, ”acrescentou Monsenhor Lídio.

“Ele era assim, incapaz de ver alguém sofrendo e não fazer nada por ela”, acrescentou o Monsenhor, hoje residente em Joaima.

“O Padre da Cara Feia”, como ele se intitulava, foi sepultado em uma cripta ao lado da igreja que ele construiu na principal Praça de Lelivéldia.

Foi um pioneiro e um baluarte pelo desenvolvimento de toda a região do médio Jequitinhonha.

Participou da fundação de várias comunidades, hoje já emancipadas, como Angelândia, antes pertencente ao município de Capelinha, Veredinha, que fazia parte do município de Turmalina, José Gonçalves de Minas, antes denominado de Gangorras e que integrava o município de Berilo, assim como Jenipapo de Minas, nas margens do Setúbal, que fazia parte do município de Francisco Badaró, sem se falar nas diversas povoações como Ijicatu, Leme do Prado, Santa Rita e Cruzinha, localidades onde se fazia presente, como padre, mesmo contrariando as determinações da diocese que nenhum interesse demonstrava ter pela evangelização dos moradores desses lugares.

(Fonte: Gazeta de Araçuaí – Por Sérgio Vasconcelos)

6 Comentários

  1. É UMA PENA O QUE ACONTECEU E ESTA ACONTECENDO COM A OBRA DO PADRE WILLY, MUITA GENTE INVADINDO AS TERRAS DO PATRONATO E SAQUEANDO TODOS OS PERTENCES DA ENTIDADE. E COMO DISSE A REPORTAGEM DOS BENEFÍCIOS QUE O PADRE WILLY TROUXE PARA A REGIÃO, SÓ NA EDUCAÇÃO FORAM MAIS DE 3 MIL CRIANÇAS QUE ESTUDARAM COM O PADRE.
    O PADRE WILLY PENSAVAM 50 ANOS À FRENTE DO POVO DA REGIÃO.

  2. josé maria leite dos santos

    tenho a grata satisfação de ter sido um dos personagens desta vida real. vivi neste local em meados de 1962_1970;aprendi a sofrer, e apesar de tudo eu era feliz e não sabia. ontem 2/8/2015 completei 60 anos de vida;se hoje sei;o que sei, agradeço à deus e,à esse anjo de luz que não está mais entre nós.saudoso Padre willy: amém;………………

  3. Maria Aparecida Lopes de Souza

    Saudades! E que falta faz essa pessoa maravilhosa! Padre Willy, ele ainda tinha muitos sonhos, mas a doença e a idade acabaram interrompendo. Eu convivi com ele, estudei no Patronato, hoje sou casada com uma pessoa que também estudou no Patronato. Moramos em Lelivéldia, somos professores aposentados. Eu tenho muito a agradecer ao Padre Willy pelo bem prestado a mim e a muitos outros, que na minha época, crianças, e hoje, ótimos pais de familia, porque aprendemos com ele amar e respeitar. Ele não media esforços para ajudar as pessoas, ficava feliz quando nós conseguíamos algo de bom: que fosse emprego, faculdade, nascimento de um filho, moradia… O sorriso se espalhava pela sua boca. E dava conselhos também. Dos seus sonhos que ficaram,aquilo que era material, ah! esse vai sendo consumido por pessoas invejosas, ambiciosas e gananciosas. Mas o sonho que ele plantou em nós, o amor, a educação, o respeito, a espiritualidade… ah! esse sim, durará por muitas geraçoes, eternidade. Obrigada Padre Willi!

  4. eu fui uma das pessoas que foi adotada pelo padre wili, tenho que agredecer muito por te ajudado eu e minha irmas aprendi muita coisa com ele… agradeço muito a ele por ter me instruido para eu ser essa pessoa dedica a minha familia.. tenho muita saudades daquele, tempo queria muito encontra as pessoas que conviveu comigo aquela epóca.. E fiquei triste ao ver a reportagem aonde fui criada

    • João Gonçalves Pereira

      Olá Rosângela Nunes tudo bem?
      Meu nome é João Gonçalves Pereira eu também fui criado por padre Willi morei no Patronato de 1964 á 1974 aos 12 anos de idade ele me trouxe para São Paulo para procurar minha mãe onde acabei ficando ( não com ela pois não a encontrei, mas com uma irmã) nunca mais tive a oportunidade de voltar ao meu lugar de origem.
      Atualmente estou com 58 anos,sou casado há 36 anos tenho duas filhas e uma neta de 14 anos.
      Este mês estou de férias e prestes a tornar meu sonho de rever o lugar que vivi.
      Minha esposa pesquisou para ver como está o lugar é por isso vimos seu comentário como temos algo em comum pedi pra ela escrever para a senhora.
      Eu não tenho e-mail este contato é da minha esposa se você puder me responder por favor o faça por meio deste e-mail.
      Desde já, agradeço.
      Fique na paz de Deus.

    • maria aparecida lopes e souza

      Olá, Rosângela Nunes!
      Você é quem estou pensando? Irmã de Rosana e Roseli?
      Vivemos no Patronato. Eu sou Bia. Lembra?
      Moro em Leliveldia.
      Quero ter contato.
      Saudades! Abraços

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