Prefeito morre e ‘inaugura’ cemitério em cidade do Norte de Minas

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A morte do prefeito de Bonito de Minas, no Norte do Estado, lembrou a história contada pelo dramaturgo Dias Gomes (1922/199) na novela “O Bem-Amado”, levada ao ar pela TV Globo na década de 1970.

O corpo do prefeito José Pedro Pires da Rocha (PSB), o Zé Galego, foi o primeiro a ser sepultado na área nova do cemitério da cidade. Na novela global, o prefeito de Sucupira, Odorico Paraguaçu, interpretado por Paulo Gracindo (1911/1995), cria situações para “inaugurar” o cemitério que construiu como promessa de campanha. Após várias tentativas frustradas, morre e acaba sendo a primeira pessoa enterrada no local.

Alguns moradores, inclusive, já chegaram a mencionar a história de “O Bem-Amado” para o prefeito falecido no Norte de Minas. “Já haviam falado com ele sobre a novela, mas ele dizia que não acreditava nisso”, conta Miqueias Figueredo (PTB), vereador e amigo de José.

José Pedro Pires da Rocha tinha 64 anos e morreu enquanto voltava de Brasília (DF) na sexta-feira (17/01/2020). Ele esteve no DF para assinar documentos para doação de máquinas destinados ao município.

“Ele viajava sozinho de carro e passou mal. Foi até um hospital, onde permaneceu em observação, mas acabou liberado. Em seguida, voltou ao hotel para buscar as malas e continuar a viagem. Passou mal novamente, foi em outra unidade de saúde, infartou e morreu”, fala Miqueias Figueredo, que foi convidado por Zé Galego para viajar até a capital federal, mas não pode ir em razão de compromissos.

O vereador esclarece que a obra de ampliação era uma reivindicação da população e dos vereadores, já que a parte antiga do cemitério, que tem mais de 50 anos, não comportava mais túmulos.

“Tivemos vários transtornos, moradores foram enterrar seus entes e havia outras ossadas no lugar. O Zé não era natural daqui e a família não tinha um espaço na parte do cemitério que já existia, por isso, pediram que fosse enterrado na parte nova”, diz.

A obra de ampliação do cemitério começou por volta de outubro de 2019 e ainda não tem data para terminar. A Prefeitura precisa construir uma capela e fazer adequações à infraestrutura, como instalação de banheiros e interligação à rede de água e esgoto.

De caminhoneiro a prefeito

Se o personagem de Odorico mostra um exemplo de político corrupto e cheio de artimanhas, José Pedro da Rocha é lembrado pelo vereador como “homem correto e honesto”. Ele conta que o amigo era natural de Sete Lagoas e foi para o Norte de Minas para trabalhar no transporte de carvão. Tempos depois, começou a trabalhar como taxista na Comunidade de São Sebastião do Catulé e, seguindo os conselhos dos passageiros que levava, se candidatou à Câmara, mas não obteve sucesso.

Nas eleições seguintes, tentou novamente e foi eleito vereador, primeiro cargo político que ocupou. Foi eleito vice-prefeito em 2012 e reeleito no último pleito. Zé Galego assumiu o cargo principal da Administração Municipal após o prefeito José Reis (PHS) se afastar ao ser eleito deputado estadual no ano de 2018.

“Eu já fui oposição, mas conheci o trabalho dele e passei a apoiá-lo. Foi um prefeito que conseguiu contornar as dificuldades financeiras do município para pagar salários e outras despesas em dia. De tanto cuidar dos interesses da população, acabou esquecendo dele e, infelizmente, morreu em virtude de um problema de saúde”, lamenta.

Um dos filhos de Zé Galego disse ao vereador que o pai passou mal há dois anos e um médico apontou que ele tinha uma veia com indícios de entupimento.

Novo prefeito

Com o falecimento de Zé Galego, quem assume a Prefeitura é Dilson Santana (PP), que era presidente da Câmara. Ele já apoiou a administração anterior, mas após divergências, se declarou oposição.

“No fim do ano eu estive com o Zé e expliquei o motivo de estar no lado contrário e ele ouviu meus motivos. Éramos opositores, mas de forma respeitosa. A morte dele surpreendeu a todos e causou muita comoção”, fala Santana, que diz estar fazendo um levantamento para dar sequência aos trabalhos no município.

Ele diz que o novo desafio se impôs à vida política dele quando não pensava tentar se reeleger. “Fui vereador por duas vezes, quando você se candidata a um cargo, assume os desafios e tem que estar preparado para tudo. Mas confesso que não pensava em tentar a reeleição, desanimei com a política, ao perceber que muitos pensam em tirar proveito próprio e não colocam a população em primeiro lugar”, destaca.

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